Por Cláudio da Costa Oliveira – março de 2021

Infelizmente, mentiras falaciosas divulgadas pelos jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, através de uma concessão poderosa de mídia (jornal, radio, tv), atingindo milhões de brasileiros e sem mostrar nenhum número que comprove suas afirmações, se tornam verdades no Brasil. 

Um exemplo claro foi a interpretação dada pelos referidos jornalistas à estabilidade dos preços dos combustíveis praticada pela Petrobrás no mercado interno, a partir de 2011, diante do exagerado aumento do preço internacional do barril de petróleo.

Miriam e Sardenberg na época bradavam: “é um absurdo, estão querendo conter a inflação causando enormes prejuízos à Petrobrás”. Mas nunca mostraram como calcularam os chamados “prejuízos”.

Recentemente o atual presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, defendendo a atual política de preços de Preço de Paridade de Importação – PPI (essa sim prejudicial ao Brasil, Petrobras, acionistas e consumidores), em entrevista afirmou que o “subsídio” havia causado um “prejuízo” de US$ 40 bilhões. Mostrou um número, mas sem mostrar como chegou a ele.   

O que mais lamento é assistir alguns amigos afirmarem que o “subsídio” foi desastroso.

Mais uma vez vou comparar os resultados da época em que pagávamos combustíveis com preços abaixo dos internacionais, beneficiando o Brasil e os brasileiros ,  com os atuais preços acima dos internacionais, beneficiando importadores e refinarias no exterior.

Resultados Petrobrás em US$ bilhõs

   Item    2011     2012  2013   Total
  Lucro       20        11     11      42
  Dividendos         7              9       4      20
Geração de Caixa        33        27      26      86
   Item   2018     2019   2020  Total
   Lucro       7       10*     0,9   17.9
  Dividendos     2,9       1,9    1,4**   6,2
  Geração de Caixa     26       25    28***   7.9

* inclui o lucro da venda da TAG e BR que representa mais de 2/3 do lucro.

**pela primeira vez a Petrobrás pagou dividendo superior ao lucro

*** leiam o artigo http://www.aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/5973-por-que-mesmo-tendo-sido-dilapidada-nos-ultimos-anos-petrobras-consegue-manter-elevada-geracao-de-caixa   

Onde estão os enormes prejuízos? Onde está a desastrosa política de “subsídios”?

Alguns dizem “mas os lucros e a geração de caixa poderiam ter sido maiores”. Isto é mentira. Pura ilusão.

A capacidade de pagamento dos brasileiros, como de qualquer povo, tem limites. Evidentemente, americanos, canadenses, europeus e japoneses, tem uma capacidade bem maior que a nossa. Mas é fundamental, no Brasil, respeitar os limites dos brasileiros.

Portanto o aumento dos preços provocaria uma redução imediata do consumo, revolta dos consumidores, e os resultados não seriam os alardeados.

É sempre bom lembrar que as agencias classificadoras de risco Standard&Poor’s, Fitch e Moody’s, tão referenciadas por Miriam e Sardenberg, conferiram à Petrobrás o grau de investimento (Investment grade) entre 2007 e 2015, abrangendo o período em que eles espalhavam que ela estava quebrada.

Se olharmos a evolução dos preços internacionais do petróleo em reais temos o seguinte:  

  Data WTI US$ *   Cambio Valor Real Em 2021**
Dez 2010     91,80      1,67     153,31    266,74
Maio 2018     76,65      3,74      286,67    318,67
Final 2020     48,00     5,19      249,12     249,12
23-02-21     62,20     5,47      339,14     339,14
05-03-21     66,09     5,94      392,34     392,34
19-03-21     61,42     5,48      336,58     336,58

*West Texas Intermediate – West Texas é a principal região petrolífera dos Estados Unidos, e o óleo WTI é aquele vendido pelos intermediários do West Texas.

**valores levados a 2021 pela variação do IPCA 

Vejam que no final de 2010, quando iniciou o chamado “subsídio”, o preço (atualizados) se aproximava de R$ 300.

Em maio de 2018, quando da paralisação dos caminhoneiros, havia ultrapassado os R$ 300.

Até dezembro de 2020 os preços estavam adequados, mas a partir de 2021 o aumento se tornou insustentável para os brasileiros, tendo chegado perto de R$ 400. Portanto a “panela está para explodir”.

A Petrobrás pode e deve manter preços adequados à capacidade de pagamento dos brasileiros. Preços muito elevados são injustos e politicamente insustentáveis.

Qualquer política de preços que venha a ser introduzida tem que ter como limite superior a capacidade de pagamento dos brasileiros.

Compensações podem ser dadas à Petrobrás, mas as sugestões que tenho lido não me parecem as melhores.

Por outro lado, é preciso considerar também o caso inverso, em que a Petrobrás venha a adotar preços acima do internacional.

No período de 2011 até quase o final de 2014, a empresa adotou preços abaixo do internacional. A partir do final de 2014 até meados de 2016, os preços foram superiores ( e muito ) ao internacional. Isto Miriam e Sardenberg não comentaram. Fica a pergunta: qual o interesse deles em defender os preços internos elevados? A quem querem beneficiar?

O gráfico a seguir procura apenas ilustrar o ocorrido, já que a companhia estabilizou os preços quando o brent atingiu US$ 90 o barril (desconsiderando a variação cambial). Entre 2011 e até próximo do final de 2014, o brent esteve sempre acima de US$ 90, mas a partir do final de 2014 houve uma inversão.

Portanto, se a Petrobrás tem de ser compensada pelos períodos em que cobrar preços abaixo do internacional, ela tem de ser cobrada pelo que receber com preços acima do internacional.  

 

Estudo elaborado pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) na época, mostra que o preço da gasolina no Brasil em fevereiro de 2016 chegou a estar 49% acima do internacional

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/09/gasolina-esta-mais-cara-no-brasil-do-que-no-exterior-ha-12-meses.html

Vendendo no mercado interno a preços superiores ao internacional e pagando royalties e participações baseados no preço internacional vigente, e ainda, sem perder substancial fatia do mercado interno para os importadores, em 2016 a Petrobrás logrou alcançar uma geração de caixa, pela primeira e única vez, superior a todas as chamadas “majors”. 

Geração de caixa 2016 US$ bilhões

Petrobrás Exxon Shell Chevron BP
26,10 22,10 20,62 12,90 10,69

Mas a festa durou pouco. Logo os importadores começaram a se estruturar para aproveitar a oportunidade. Em meados de 2016 a perda de mercado já era de 8%, no segundo semestre passou para 18%.

Portanto a preparação para o Preço de Paridade de Importação (PPI) implementado por Pedro Parente no governo Temer, começou no governo Dilma.

É preciso que fique bem claro que a defesa que faço da política de preços do período 2011/2014 tem a finalidade apenas de trazer a verdade dos fatos e não de fazer defesa da administração do PT de Dilma na Petrobrás. Muito pelo contrário.

Entendo que a política de Preço de Paridade de Importação (PPI) teve origem na administração Bendine, assim como o chamado “desmonte” da Petrobrás, com paralisação dos investimentos, demissão em massa e venda de ativos rentáveis.

Além disto, o maior crime cometido pela administração petista foi de não ter defendido a empresa das calúnias de Miriam e Sardenberg de que a companhia estava quebrada, tendo todos os números na mão. Isto jamais será perdoado.

O povo brasileiro sabe, com seu instinto, que aquele que erra e não se arrepende, nem Deus perdoa.