Por Cláudio Oliveira – junho 2020

Chaobin Yang, presidente da Linha de Produto 5G da Huawei, anuncia o lançamento do 5G Simplified Solution, durante o Mobile World Congress 2019, em Barcelona. (foto: Huawei)

Tenho tentado, em recentes artigos, alertar para a importância do relacionamento Brasil/China cujo crescimento, na minha opinião, não encontra força capaz de estancar.

É preciso que nós brasileiros nos conscientizemos disso e nos preparemos para aproveitar o melhor possível desta parceria em benefício de nosso povo e de nosso futuro.

Existe uma gama de fatores raciais, culturais, políticos e religiosos que nos separam da China, mas a complementaridade econômica é tão forte que vai nos obrigar a uma adaptação.

E o quanto mais rápido isto for feito melhor. Por isto insisto na frase: “melhor aprendermos a jogar o Go”.

Como falei no artigo Se fosse para comprar, quanto custaria a totalidade das ações da Petrobrás na Bolsa de Nova York?, do último dia 16/06, no jogo Go são permitidos apenas dois jogadores.

No tabuleiro de Go mundial atualmente jogam Estados Unidos x China, acompanhados por diversos assessores.

Neste jogo o Brasil já está cercado pelos chineses. Para conseguir isto, provavelmente os chineses concederam espaços para os americanos em algum outro lugar. Talvez a Venezuela ou Colômbia.

Mas o fato é que no caso brasileiro as coisas já estão definidas. Reações contrárias, como assistimos muitas vezes por parte de integrantes do governo Bolsonaro, são inócuas e atestam a falta de sensibilidade e ignorância da realidade.

Nesse contexto, o papel dos militares no governo Bolsonaro tem sido marcado por grande pragmatismo em relação à China.

Lembremo-nos de que, no último mês de maio, o Gabinete de Segurança Institucional – SGI, comandado pelo Gen. Augusto Heleno, apesar dos protestos do governo americano, aprovou a participação da gigante chinesa Huawei no leilão para implantação da tecnologia 5G no Brasil.

Em abril, em entrevista, o Gen. Hamilton Mourão, vice-presidente da República, declarou que “o Brasil e a China têm um casamento inevitável”, relacionamento “por pragmatismo não por dogma”, e que “a pandemia provocará mudanças significativas na geopolítica mundial, aumentando o papel econômico estratégico da Ásia”.

Ainda em abril, o Gen. Braga Neto, Ministro Chefe da Casa Civil, propôs, à revelia do Ministro da Economia, Paulo Guedes, a implantação do programa Pró-Brasil. O programa, abandonado momentaneamente, deverá ser retomado em algum momento, não muito distante, e acabará incorporando investimentos expressivos na Petrobrás em parceria com os chineses, podendo fazer com que a estatal brasileira retome seu papel de locomotiva do desenvolvimento nacional.

Lembremo-nos também que os militares tiveram papel relevante na construção da Petrobrás, como o lendário Gen. Horta Barboza, que, no meu modo de ver, deveria ser nominado patrono da companhia. Ou mesmo o Gen. Geisel, que foi presidente da estatal.

O neoliberalismo globalizante já estava agonizante antes mesmo da crise do coronavírus, depois de provocar piora na distribuição de renda e aumentou a pobreza no mundo.

A pandemia mostrou agora novos inconvenientes do modelo, como relata Niko Paech, economista alemão, professor da Universidade de Siegen: “a escassez de equipamentos médicos em meio à crise do novo coronavírus expõe o ponto fraco de um modelo de produção que se baseia numa cadeia produtiva elaborada, na qual a produção de bens é distribuída pelo mundo inteiro”.

Já a conceituada revista britânica “The Economist” concluiu: “Dê adeus à maior era da globalização – e se preocupe com o que vai tomar seu lugar”.

No Brasil, comentando declaração da diretora do Fundo Monetário Internacional – FMI, Kristalina Georgieva, que defendeu a criação da renda mínima como forma de combater a desigualdade, o jornalista Paulo Moreira Leite afirmou que “o capitalismo gerou uma desigualdade tão grande, tão grande, que, se você não der uma renda mínima para os debaixo, ocorrerá uma situação de barbárie”. E concluiu: “a renda mínima será a lápide do neocapitalismo”.

O atual ministro da economia, Paulo Guedes, é o principal defensor da banca financeira internacional e do neoliberalismo. Ele nomeou, para diversos cargos, vários integrantes do atual governo. O mais provável é que logo, todos deixem seus cargos, ou então serão transformados em títeres.

ATUALIZAÇÕES

Farei aqui certas “Atualizações” sobre a China para relatar, sempre que necessário, fatos relevantes ocorridos no período próximo que possam levar a um maior afastamento na relação Brasil/China ou, de modo inverso, numa maior integração.

Desta forma creio que, no futuro, teremos um bom histórico da evolução dos fatos.  

Ultimamente acompanhei o seguinte:

– Pelo afastamento

– Bolsonaro, que já sinalizou alinhamento com EUA na tecnologia 5G, nomeou Ministro das Comunicações o deputado Fabio Faria (PSD-PE). A posse ocorreu no último dia 17/06. A Anatel, vinculada ao ministério de Faria, terá a atribuição de escolher o fornecedor da tecnologia, através de leilão. A gigante chinesa Huawei, líder mundial neste mercado, está relacionada para participar do leilão. Ao que tudo indica, a nomeação de Pedro Faria foi feita para prejudicar a participação da empresa chinesa neste leilão.

– O embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, declarou em entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo”, que os Estados Unidos não pretendem permitir que o Brasil adquira tecnologia chinesa no 5G. Vejam como a frase é forte: “não pretendem permitir”!

– Pela integração   

– A China decidiu impor uma série de sanções e  aumento de tarifas sobre produtos australianos devido a desentendimentos diplomáticos. Isto poderá aumentar a participação da Vale no mercado chinês de minério de ferro.

–  O governador de São Paulo, João Dória, anunciou em entrevista coletiva no último dia 11/06 que o Instituto Butantan fechou acordo de tecnologia com a empresa farmacêutica chinesa Sinovac Biotec para produção de vacina contra o coronavírus. Se for comprovada a eficácia, o Butantan receberá a transferência de tecnologia e o direito de começar a produzir.

Tabuleiro do jogo GO – foto: Nature video/Reprodução

DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL

É importante lembrar de que é na indústria, que tem por natureza demandar mão de obra qualificada e onde são iniciadas as criações  tecnológicas, que as nações encontram campo fértil para desenvolvimento econômico e social.

Energia e siderurgia são as bases da industrialização. O desenvolvimento industrial, iniciado no Reino Unido e logo incorporado pelos Estados Unidos e estendido para Europa e Ásia, tem como base estes dois fatores.   

Produtos siderúrgicos são a principal matéria prima das grandes indústrias, com destaque para: automobilística, naval, aeronáutica, ferroviária, construção civil e produtos para atendimento doméstico. Isto sem falar na indústria bélica, com navios de guerra, submarinos, blindados etc.

O marco inicial da indústria brasileira, todos sabem, foi a criação de Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), por Getúlio Vargas.

Depois da 2ª grande guerra, Japão, Alemanha e Itália estavam com seus parques siderúrgicos destruídos e tiveram de reconstruí-los. Foi nesta reconstrução que novas tecnologias foram introduzidas no processo siderúrgico. Com isto Japão, Alemanha e Itália, passaram a ser os principais fornecedores de equipamentos para produção siderúrgica no mundo.

A siderurgia brasileira pós CSN foi toda construída com base nesta nova tecnologia. Usiminas, Cosipa, Companhia Siderúrgica de Tubarão-CST, Açominas, foram construídas com equipamentos fornecidos pelos países derrotados na guerra.  

Estas siderúrgicas hoje, atendem às necessidades brasileiras de aço e ainda destinam parte da produção para exportação

Em 2019 o Brasil produziu 32,2 milhões de toneladas de aço e teve um consumo aparente estimado em 20,6 milhões de toneladas. Portanto gerou um excedente de 11,6 milhões de toneladas para exportação ou aumento de estoques.

No mundo, excluindo a China, os maiores produtores de aço em 2019 foram:

2019 – Produção de aço milhões de toneladas

                          Japão  –  105 

                          India    –    89

                          EUA     –     79

                          Russia  –    71 

                          Total    –   344 

Em 2019 a produção de aço da China foi de 780 milhões de toneladas. Ou seja, mais que o dobro dos principais produtores listado acima. Chega a ser assustador.

DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO 

Nas disputas públicas entre EUA e China, a briga pelo mercado da nova tecnologia 5G tem se destacado.

No boicote à chinesa Huawei, os americanos que não podem ofertar um produto competitivo, concentram seu apoio nos concorrentes como Nokia, Samsung e Ericson, considerados parceiros confiáveis (trusted supplyer) pelos EUA.

O boicote americano ganhou apoio de parceiros tradicionais como Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido, mas importantes países, como Alemanha e Itália, negam qualquer tipo de veto ao produto chinês.

O fato é que, segundo especialistas, a tecnologia 5G da Huawei é superior à dos concorrentes, além de custar menos e contar com apoio de financiamento do governo chinês.  Condições difíceis de serem vencidas.

Mas além das disputas públicas, ao que tudo indica, o que mais provoca a reação americana contra a Huawei é  a tecnologia recentemente divulgada por uma equipe de cientistas chineses que consistiu “na transmissão simultânea de uma mensagem criptografada com tecnologia quântica, enviada de um satélite espacial para dois telescópios terrestres separados por 1.120 quilômetros, uma distância cerca de dez vezes maior do que alcançada até então” (El Pais 15/06/2020).

Esta tecnologia, desenvolvida com apoio integral da Huawei, propicia capacitação  plena e total de abrir qualquer sistema de comunicação sigilosa atualmente existente, por mais evoluído que seja.

Americanos vão perdendo também a guerra tecnológica.

CONCLUSÃO    

O diplomata brasileiro  Samuel Pinheiro Guimarães , ex-secretário- geral do Itamaraty e ministro  de Assuntos Estratégicos, relata em artigo no site Pátria Latina (09/05/2020) que “o fenômeno político, econômico e militar mais importante, anterior à emergência do coronavírus e que, após o fim da pandemia, permanecerá, é a firme disposição dos Estados Unidos de manter sua hegemonia mundial, seu poder de império, face à ascensão e à competição chinesa”.

E conclui: “Os Estados Unidos e a China parecem estar se movendo em direção a uma separação que é menos econômica do que política e psicológica. Haverá uma decisão de ‘lutar mas não esmagar’, e tudo indica que a coexistência não será nem decoupling (desconexão), nem appeasement (apaziguamento), já que as economias destes dois países estão hoje, e estarão no futuro previsível, ligadas”.

As observações de Samuel Pinheiro me parecem adequadas e realistas.

Na verdade, China e EUA, apesar do aparente conflito, tendem e já estão no caminho de um amplo acordo que, dentro do possível, satisfaça a ambas as partes. 

É nesta visão que acredito que o Brasil, considerando sua importância estratégica para o plano de crescimento chinês, já foi colocado na mesa de negociação como peça fundamental para qualquer acordo.  

O também diplomata e ex-chanceler Celso Amorim recentemente expressou sua opinião: “O mundo pós-pandemia terá um tripé de poder mundial, com EUA, China e Rússia” (Brasil 247 23/06/2020).

Amorim considera que uma das mudanças mais previsíveis será a ultrapassagem dos Estados Unidos pela China como maior economia do planeta. “Esta ultrapassagem já ocorreu em termos de poder de compra”.

No entanto, Amorim lembra que “do ponto de vista estratégico-militar, não há como descartar a Rússia, cujo potencial em armamentos modernos, de alto poder destrutivos, tem sido constantemente atualizado”.

Neste cenário Amorim recomenda que “as nações da América Latina e do Caribe atuem de forma tão unida quanto possível, países em desenvolvimento que são, e que necessitam ainda se capacitar para os grandes desafios econômicos e tecnológicos do futuro”.

O ministro Amorim lembra muito bem as conquistas soviéticas na área bélica, como os foguetes hipersônicos e os torpedos de longuíssimo alcance e poder nuclear. Mas se esquece que no mundo atual está prevalecendo a chamada guerra híbrida bem diversa dos padrões convencionais.

A proposta de união das nações da América Latina e do Caribe me parece extemporânea, pois os fatos já atropelaram esta possibilidade. Prova disto é a recente notícia: “China tira do Brasil posto de maior parceiro comercial da Argentina” (Jornal “El Clarín” e agência “Telam”).