New York Stock Exchange – NYSE – A Bolsa de Nova York em Manhattan

Por Claudio Oliveira – junho 2020

Um amigo me pergunta: “Haveria recurso e seria possível recomprar as ações da Petrobrás na Bolsa de Nova York com as reservas brasileiras no exterior?” E, também: “Qual seria o verdadeiro valor patrimonial da ação da Petrobrás?”

Tenho diversos assuntos listados sobre os quais pretendo escrever em algum momento, e o assunto em que se baseia a pergunta de meu amigo é um deles. Ainda não escrevi sobre isto porque, no meu entendimento, no cenário atual, não existe qualquer perspectiva de que tal ação venha a ser colocada em prática.

Não sou especialista em mercado de capitais e, também, não conheço as legislações brasileira e americana para saber quais seriam as exigências ou até mesmo se a operação seria permitida.

De qualquer forma, creio que é possível levantar dados que permitam dar uma ideia dos valores envolvidos. Além disso, vou aproveitar este artigo para expressar meu pensamento sobre o futuro da Petrobrás.

VALOR DA AÇÕES EM NOVA YORK

Em 31 de dezembro de 2019, o valor de mercado da Petrobrás alcançou a cifra de US$ 101,1 bilhões (Fonte: Petrobrás- Formulário de Referência/2019), tendo sofrido expressivo crescimento em relação a 2018 (US$ 80,9 bilhões). Em 13 de março de 2020, o valor de mercado caiu para US$ 43,14 bilhões (Fonte: Economática).

No final de 2019, o Patrimônio Líquido da Petrobrás era de US$ 74,2 bilhões, com pequena elevação sobre 2018  (US$ 73,2 bilhões). Em 31 de março de 2020, caiu para US$ 45,19 bilhões (Fonte : Balanços Petrobrás) devido ao prejuízo do 1º trimestre e ajuste no hedge cambial.

Já o Capital Social da companhia se mantém (2018, 2019 e março de 2020) em US$ 107,1 bilhões, representando 7.442 milhões de ações ordinárias e 5.602 milhões de ações preferenciais, todas nominativas, escriturais e sem valor nominal. (Fonte: Balanços Petrobrás) 

A figura a seguir mostra a distribuição do capital por tipo de acionista. Aí vemos que  as ações na Bolsa de Nova York representam 17% do capital total (ordinárias + preferenciais) da Petrobrás.

Fonte: Relatório Petrobrás

As reservas internacionais brasileiras no final de 2019 alcançavam US$ 357 bilhões, queda de US$ 18 bilhões em relação a 2018 (US$ 375 bilhões). Já em 27 de março de 2020 as reservas somavam US$ 345 bilhões (Fonte: Relatórios do Banco Central – BC), com queda causada pelas intervenções do BC no mercado de câmbio.

Pelos números apresentados, podemos concluir que as reservas brasileiras seriam mais do que suficientes para adquirir a totalidade das ações da Petrobrás na Bolsa de Nova York.

Considerando o valor de mercado das ações da Petrobrás no período oscilou de US$ 101 bilhões a US$ 43 bilhões, podemos estimar que o valor das ações na Bolsa de Nova York, que representam 17% do total, oscilaram de US$ 17 bilhões (0,17×101) a US$ 7 bilhões (0,17×43).

Mas o que ocorreria com o valor destas ações se o governo brasileiro anunciasse sua intenção de comprá-las?

Ao contrário do que muitos possam pensar, na minha opinião, os valores cairiam ainda mais.

Ocorre que o mercado atribui valor às ações em função da perspectiva de recebimento de dividendos futuros. O importante não é se a empresa vai apresentar lucros ou fortes gerações de caixa. O que interessa é a expectativa de pagamento de dividendos. 

O gráfico a seguir mostra a evolução do valor médio das ações da Petrobrás no período 2009/2017:  

Fonte: Levantamento e elaboração próprios

Se compararmos o valor das ações da Petrobrás com a capacidade da empresa gerar caixa, vemos que as curvas seguem em sentido inverso, como mostra o gráfico a seguir:

Fonte: Levantamento e elaboração próprios

Maior geração de caixa não significa mais pagamento de dividendos, principalmente num período em que a companhia arcava com grandes investimentos (2009/2014).

É bom lembrar que neste período que o mercado financeiro mais teve aversão às ações da Petrobrás, este mesmo mercado financeiro fazia volumosos empréstimos de longo prazo (20/30 anos) para a companhia cobrir seus investimentos, mostrando total confiança no futuro da empresa.

Portanto, um único investidor (Ex : JPMorgan) pode, ao mesmo tempo em que faz elevados empréstimos para a empresa cobrir seus investimentos, pois acredita nos projetos e no retorno dos mesmos, reduzir suas aplicações em ações da companhia, pois prevê que o pagamento de dividendos será inferior ao que almeja. São aplicações diferentes.

Uma sinalização de que o governo brasileiro pretendesse comprar as ações da empresa na Bolsa de Nova York levaria os investidores a entender que a atual política de distribuição de dividendos, baseada na venda de ativos, redução da dívida e dos investimentos, seria alterada.

Os grandes fundos, com informações privilegiadas, seriam os primeiros a se desfazerem das ações da companhia, fazendo cair seu valor.

Arrisco dizer que, na situação atual, US$ 5 bilhões seriam suficientes para comprar a totalidade das ações da Petrobras na Bolsa de Nova York. Coincidentemente, o mesmo valor recebido pela companhia, no governo FHC, quando do escandaloso lançamento de 30% de suas  ações na Bolsa americana, e sem considerar os US$ 3 bilhões perdidos no não menos escandaloso processo  Class Action de Pedro Parente. 

VALOR PATRIMONIAL  

Há muito tenho escrito e falado que a métrica adotada pela Petrobrás para avaliar seu endividamento Dívida Líquida/Ebitda ajustado (recentemente alterada), desde de 2016, era inadequada, pois utiliza um indicador (Ebitda) não padronizado, calculado extra contabilmente, que não permite comparação entre empresas.

Por outro lado, a métrica não mostra adequadamente o nível de endividamento da empresa, principalmente se ela estiver em fase de fortes investimentos.

Para avaliar o nível de endividamento, todas as grandes petroleiras utilizam o tradicional debt/equity, que é a divisão de seu patrimônio líquido pelo somatório da patrimônio líquido mais a dívida liquida.

É claro que para uma correta avaliação é necessário que os dados reflitam a realidade da empresa. 

No caso da Petrobrás existe um sério problema na avaliação de seu Patrimônio Líquido. Todos os direitos (exceto a cessão onerosa 5 bilhões de barris) sobre o petróleo que a companhia tem por lei no pré-sal por ela descoberto não tem qualquer registro em seu patrimônio.

Esses registros dependem de demarcações das áreas, que a empresa não faz por algum impedimento ou porque não tem interesse em aumentar seu valor.

Por exemplo, se a Vale descobre uma nova reserva de minério de ferro, a valoração desta reserva é feita com muita rapidez com equivalentes reflexos no patrimônio da empresa.

A Petrobrás nunca teve problemas no levantamento de recursos no mercado financeiro internacional porque os financiadores levam em consideração as reservas do pré-sal, mesmo não havendo seu registro no patrimônio da empresa.

Caberia à empresa fornecer informações, mesmo que extra contabilmente, para conhecimento da realidade.

A recente aquisição pela Petrobrás dos direitos de exploração do excedente da cessão onerosa, por exemplo, não tem registro no patrimônio da companhia. Se, como muitos estimam, tais reservas ultrapassem os 10 bilhões de barris de petróleo, e se o fluxo de caixa futuro indicasse um valor presente de US$ 10 por barril (o que seria razoável), o Patrimônio Líquido da empresa seria acrescido de US$ 100 bilhões, mais que dobrando seu valor. E quanto mais existe ainda a apropriar?  

Portanto, o valor patrimonial das ações da Petrobrás está completamente defasado e não reflete a realidade da companhia.

Considerando os fatos, o Patrimônio Líquido da Petrobrás não poderia ser inferior a US$ 200 bilhões o que , tendo em vista o número de ações emitidas, faria com que elas tivessem hoje um valor médio de R$ 80,00 no mercado brasileiro, quatro vezes superior ao valor patrimonial atualmente registrado, que é semelhante ao atual valor de mercado (R$ 20,00 PTR4 em 12/06/2020).

TENDÊNCIA PARA O FUTURO  

Tenho acompanhado e escrito sobre a importância do relacionamento Brasil x China para o futuro de nosso país.

Sobre este relacionamento sempre escrevo que a Petrobrás seria a “cereja”, e que a forma de atuação chinesa nessa relação teria sido forjada no milenar jogo de tabuleiro  Go.

Tabuleiro do jogo chinês GO

O Go também chamado Weigi ou Baduk é um jogo de estratégias, e significa “jogo de cercar”.

Até hoje não entendi por que os chineses investiram tanto em hidroelétricas no Brasil. Creio que as razões vão aparecer mais tarde. É uma jogada chinesa no tabuleiro brasileiro.  

As relações Petrobrás/China cresceram muito depois que a administração da companhia decidiu focar as atividades da empresa no E&P (Exploração e Produção), objetivando transformá-la em mera exportadora de óleo cru.

Ocorre que esta estratégia só funciona com a demanda dos chineses, que hoje consomem mais de 70% das exportações da Petrobrás. Este, atualmente, é o principal ponto de ligação da Petrobrás com a China. Vamos chamá-lo de Ponto 1.

Um segundo aspecto é que, atualmente, a maioria dos grandes equipamentos (navios tanque e FPSO) necessários para a companhia alcançar suas metas de produção estão sendo fabricados na China. Essa dependência tecnológica e industrial do Brasil em relação ao grande asiático é outro importante ponto no relacionamento Petrobrás/China. Vamos chamá-lo de Ponto 2.

Um terceiro aspecto, sobre o qual falei em recente artigo nesse blog Melhor aprenderemos a jogar GO 2.

Mostra, no meu entendimento, que a atual administração da Petrobrás está abandonando, oportunamente, os ditames do sistema neoliberal globalizante, em declínio no mundo, para se incorporar, subalternamente, ao interesse chinês.

A possível conquista do pensamento dos administradores da empresa, que podem ser considerados oportunistas ou pragmáticos, é outro importante ponto no relacionamento Petrobrás/China. Vamos chamá-lo de Ponto 3.

O objetivo do Go é criar um “território” maior que o do adversário, obtendo pedras inimigas. Pedras cercadas são removidas do tabuleiro e tomadas como prisioneiras. Cada prisioneiro vale um ponto.

Vejam na figura a seguir que a pedra branca está cercada por todos os lados menos por um.  Se mais uma pedra preta for colocada abaixo da branca, ela estará totalmente cercada e será capturada.

Se uma pedra pode ser removida em apenas um movimento, como no exemplo da imagem acima diz-se que ela está no Atari.

Podemos fazer uma analogia e dizer que os Pontos 1,2 e 3, citados acima,são pedras chinesas (pedras pretas), cercando a Petrobrás (pedra branca). Portanto, a Petrobrás está no Atari.

Se surgir mais um fator importante no relacionamento Petrobrás/China, este poderá ser o Ponto 4, fechando o cerco de captura da Petrobrás como na figura a seguir:

Concluída a captura, a pedra branca (Petrobrás) é retirada, e a área ocupada passa a pertencer ao jogador com as pedras pretas (chineses).

Mas qual novo fator importante no relacionamento Petrobrás/China poderia se transformar no Ponto 4

Há pouco tempo vimos a Gen. Braga Neto, Ministro da Casa Civil, lançar o programa batizado de Pró-Brasil, à revelia dos interesses do Ministro da Economia, Paulo Guedes.

O programa foi momentaneamente abafado, mas o Gen. Braga Neto já se expressou que o assunto voltará à pauta em breve (final de julho) com o agravamento da situação econômica, pois seria a única forma disponível para tentar fazer o país voltar a crescer.

Concordo com a opinião do Gen. Braga Neto, mas creio que o sucesso do programa vai depender da participação da Petrobrás em parceria com a China, como me expressei no artigo “Programa Pró-Brasil é o caminho, mas precisa da participação Petrobrás/China”. https://www.aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/4678-programa-pro-brasil-e-o-caminho-mas-precisa-da-participacao-petrobras-china .

A Petrobrás poderia voltar a investir pesadamente no pré-sal com o apoio financeiro chinês, objetivando alcançar uma produção de 10 milhões de barris/dia de petróleo. Atualmente a meta da empresa é uma produção de 5 milhões de barris/dia em 2026.

Para isto seriam necessários investimentos superiores a US$ 100 bilhões. Mesmo que grande parte destes investimentos sejam destinados à construção de equipamentos na China (digamos 50%), grande parte dos investimentos serão feitos aqui, impulsionando a economia brasileira e gerando milhões de empregos.

A parceria com a China pode trazer muito mais benefícios à Petrobrás e ao Brasil do que o atual vínculo com o mercado rentista da banca financeira internacional.

Este poderia ser o Ponto 4 que está faltando.

CONCLUSÃO

O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um nacionalista americano, como nós somos nacionalistas brasileiros. Por isto sua insistência no “America first” e no “Make America great again”. Trump é contrário ao neoliberalismo globalizante. É preciso entender isto.

Neoliberais não são nacionalistas, mesmo porque dinheiro não tem pátria.

O mundo é um grande tabuleiro de Go e neste jogo só são admitidos dois jogadores. Atualmente jogam Estados Unidos x China.

O Brasil ocupa um pequeno espaço neste tabuleiro que já foi ocupado pelos chineses.

Provavelmente, para ocupar o espaço do Brasil, os chineses tiveram que negociar e permitir que os americanos ocupassem outro espaço. Talvez a Venezuela.

Um bom negócio para as duas partes (americanos e chineses), mas terão de negociar e convencer (se não já fizeram) os russos.

Substituir o atual modelo neoliberal, entranhado em nossa economia, pelo modelo chinês trará grandes vantagens para o Brasil.

O neoliberalismo já estava decadente por piorar a distribuição de renda e aumentar a pobreza no mundo. A pandemia do coronavírus evidenciou outros problemas.

A desvinculação da ganância neoliberal por dividendos, que provoca a obrigação de redução da dívida, redução dos investimentos e venda de ativos, será como um grito de liberdade para a Petrobrás.

A empresa poderá retomar sua função de locomotiva da economia brasileira e voltar a garantir à nação combustíveis do poço ao posto.

A venda das ações da Petrobrás na Bolsa de Nova York foi um crime de lesa-pátria, pois transformou a empresa em objeto de especulação financeira e sujeita a esquemas de extorsão montados (Vide Class Action), com participação de fundos abutres.

Os principais autores do crime, Fernando Henrique Cardoso, Henri Reichstul, Francisco Gros e Pedro Parente estão todos soltos.

Espero que o Ponto 4 do relacionamento Petrobrás/China seja efetivado e, com isto, o valor de mercado da ações da Petrobrás caiam tanto que possamos comprar as que estão na Bolsa de Nova York por menos de US$ 2 bilhões, compensando também a perda na Class Action.

Vamos acompanhar para verificar se o que eu disse aqui tem relação com a realidade ou se são apenas alucinações de um velho em quarentena.