Castello Branco abraça a China, e a Petrobrás é (sempre) a cereja.

Tabuleiro do jogo chinês GO

Por Claudio Oliveira – junho de 2020

Recebendo novos navios-tanque produzidos na China, o atual presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, fez uma declaração para a Fundação Getúlio Vargas que assustou empresários e trabalhadores da construção naval brasileira: “O Brasil tem vantagens em recursos naturais e os chineses tem potencial industrial.” 

É bom que empresários e trabalhadores brasileiros, mesmo que com muito atraso, comecem a perceber o que de fato nos aguarda.

Recentemente publiquei artigo com o título:

É melhor aprendermos a jogar o GO, pois os chineses vêm aí. Petrobrás é a cereja

O presente artigo é uma continuação e atualização daquele, cuja leitura recomendo para melhor entendimento.  

MUDANÇAS

A mudança de postura do governo Bolsonaro em relação à China é muito clara. No início mostravam aversão à presença chinesa no Brasil e contrários ao crescimento da relação comercial com o país asiático. Mas logo perceberam o erro e o discurso mudou, como mostramos no primeiro artigo sobre este tema.

A mudança de postura brasileira acompanha as alterações no cenário econômico mundial, que a partir dos anos 80 do século passado foi tomado pela teoria neoliberal globalizante. Esta teoria, base do desenvolvimento do sistema rentista mundial, sustentada por enormes fundos de investimento (a banca financeira) logo começou a mostra seus problemas: excesso de concentração de renda e aumento da pobreza no mundo.

A pandemia do clovid-19 mostrou novos e incontornáveis problemas.

O economista alemão, professor da Universidade de Siegen, Niko Paech, em entrevista à “DW Brasil”, apontou que “a escassez de equipamentos médicos, em meio à crise do novo coronavírus, expõe o ponto fraco de um modelo de produção que se baseia numa cadeia produtiva elaborada, na qual a produção de bens é distribuída pelo mundo inteiro. Esse modelo é um tipo de economia de céu de brigadeiro. Quando não há crise ele é vantajoso por reduzir os custos, mas quando um elemento desta rede em algum lugar falha, ele desmorona”.

A conceituada revista inglesa “The Economist” publicou artigo no último dia 14 de maio salientando: “Em todo o mundo a opinião pública está se afastando da globalização. As pessoas ficaram perturbadas ao descobrir que sua saúde depende de uma briga para importar equipamentos de proteção e dos trabalhadores migrantes que trabalham em casas de repouso e fazem as colheitas”. E completa: “Dê adeus à maior era da globalização – e se preocupe com o que vai tomar seu lugar”   

Com recursos investidos pelo mundo superiores a US$ 40 trilhões (o dobro do PIB americano), a banca financeira não vai desaparecer de um dia para o outro. Sua atuação vai permanecer por muitos anos em diversos países.

Mas enquanto a globalização e a banca financeira vão perdendo força, em seu lugar é notória a expansão da economia chinesa e sua influência em muitas regiões.

No Brasil, mesmo que poucos deem importância a isto, a China representa uma atração similar à que a Terra representa para a Lua, ou que o Sol representa para a Terra.

Não bastassem os mais de US$ 100 bilhões investidos pelos chineses no Brasil desde 2007, hoje vão para China 70% da soja exportada, mais de 50% do minério exportado pela Vale, e mais de 70% do petróleo cru exportado pela Petrobrás. Em 2019 o superávit comercial do Brasil com a China superou US$ 27 bilhões. Precisa mais?

O fato é que estamos num caminho sem volta, o problema é que não conhecemos o destino. Nós não sabemos jogar o GO. 

CASTELLO  BRANCO  

Todos sabemos que o Ministro da Fazenda, Paulo Guedes, é o principal defensor dos interesses neoliberais e da banca financeira internacional no Brasil. Mas, com o declínio da globalização, Paulo Guedes não deverá permanecer muito tempo mais no cargo. Na verdade, ele já teria sido desligado não fosse a inesperada saída do ministro Moro. A retirada simultânea de dois ministros de peso seria politicamente inadequado para o governo.

O presidente de uma empresa como a Petrobrás não faz declarações à esmo, sem objetivos. Tudo que é falado é muito bem pensado e discutido com vários setores. Na própria empresa, assistimos a facilidade com que muitos que sempre defenderam as políticas de Lula/Dilma mudaram de lado se acomodando sob a nova direção.

Castello Branco foi nomeado presidente da Petrobrás por Paulo Guedes, mas sua frase indica que provavelmente está se preparando para descer do iate neoliberal do ainda ministro, e tentar subir no primeiro junco chinês que passar.

CONCLUSÃO  

As transformações ocorrerão rapidamente. Notícias pipocarão de todas as partes, como a que leio hoje: “China tira do Brasil o posto de maior parceiro comercial da Argentina”.

Infelizmente a imprensa brasileira se dedica à divulgação de novelas do tipo Moro x Bolsonaro. Assuntos relevantes que vão efetivamente modificar o futuro do país e seu povo não são estudados e divulgados.

Vejam o que disse o artigo da “The Economist”: “Em todo o mundo a opinião pública está se afastando da globalização”. Podemos então concluir que o Brasil não faz parte do mundo, pois a opinião pública brasileira sequer soube da existência da globalização e muito menos de seu declínio.

Fiquemos então com a frase de Harriet Tubman (1822-1913): “Libertei mil escravos. Poderia ter libertado outros mil se eles soubessem que eram escravos”.