Tabuleiro do jogo chinês GO

Por Cláudio da Costa Oliveira – maio 2020

Em 2004 o ex-presidente Lula visitou a China levando em sua comitiva a maioria dos ministros e centenas de empresários. Diversos acordos foram firmados. Ainda em 2004 o então presidente da China, Hu Jintao, esteve visitando o Brasil, oportunidade em que o governo brasileiro concedeu à China o “status” de economia de mercado, sob forte protesto da Federação das Indústrias de São Paulo – FIESP.

Cinco anos depois, em 2009, a China já era o principal parceiro comercial do Brasil, superando os Estados Unidos.

No encerramento do 4º Fórum Empresarial Brasil/União Europeia, em julho de 2010, jornalistas estrangeiros questionaram Lula sobre o relacionamento do Brasil com a China e se isto não teria uma conotação ideológica. Lula respondeu: “depois que os Estados Unidos elegeram a China como seu parceiro comercial preferencial, entendi que isto também deveria ser bom para o Brasil”.

Em 2019, o Brasil exportou para a China US$ 62,87 bilhões gerando um superávit comercial de US$ 27,60 bilhões para o nosso país.

Em novembro de 2019, o Grupo Bandeirante fechou acordo de cooperação com a gigante chinesa de comunicação China Media Group, que previa “produções conjuntas e compartilhamento de conteúdo com o objetivo de promover o desenvolvimento das relações entre os dois países”.

O Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) informou que os investimentos de empresas chinesas no Brasil, de 2007 a 2018, alcançaram US$ 100,5 bilhões.

Hoje, depois da Eletrobrás, são os chineses que mais possuem hidroelétricas no Brasil. Hidroelétricas prontas não absorvem mão de obra, e muito menos consomem materiais ou novos equipamentos. Então, qual a vantagem para nós de os chineses investirem em hidroelétricas no Brasil?

Quem tiver esta resposta estará colaborando, em muito, para o futuro de nosso país.   

GOVERNO BOLSONARO  X  CHINA

Em 2018, durante a campanha eleitoral, Jair Bolsonaro por diversas vezes atacou a China, não só pelo fato de ser um país comunista, mas também por sua atuação no Brasil. Dizia: “A China não está comprando do Brasil. Está comprando o Brasil”.

No início de seu governo, Bolsonaro, junto com Paulo Guedes, visitou os Estados Unidos. Fizeram declarações de eterno amor ao Tio Sam. Bateram continência à bandeira americana, e por fim entregaram a Embraer para a Boeing e Alcantara para Trump.

Em maio de 2019, o vice-presidente Hamilton Mourão visitou a China sendo recebido pelo presidente chinês Xi Jinping no Grande Salão do Povo em Pequim. Na ocasião, Jinping disse que a relação entre os dois países estava em um “momento crucial”.

Durante a visita, Mourão presidiu, ao lado do vice-presidente chinês Wang Qishan, o encontro da comissão bilateral sino-brasileira. Na ata da reunião, Wang e Mourão “avaliaram positivamente os progressos recentes” e falaram sobre a preparação de um plano de dez anos (2022/2031).

Em novembro de 2019, o presidente chinês Xi Jinping visitou o Brasil e nosso presidente Jair Bolsonaro declarou que a “China cada vez faz mais parte do futuro do Brasil”. Essa é uma mudança radical de postura que nossa mídia entreguista não registrou.

Em março de 2020, o Gabinete de Segurança Institucional -GSI, comandado pelo Gen. Heleno, apesar dos protestos do governo americano, aprovou a participação da chinesa Huawei no leilão para implantação da tecnologia 5G no Brasil.

Em abril de 2020, em entrevista, o vice-presidente Mourão declarou que “o Brasil e a China têm um casamento inevitável”, um relacionamento “por pragmatismo não por dogma”, e que “a pandemia provocará mudanças significativas na geopolítica mundial, aumentando o papel econômico estratégico da Ásia”.

Alguns setores do governo Bolsonaro ainda se opõem ao incremento do relacionamento Brasil x China, mas os fatos vão atropelar as rebeldias.

GOVERNO TRUMP  X  NEOLIBERALISMO GLOBALIZANTE

Nos anos 80 do último século, Ronald Reagan e Margareth Thatcher promoveram o neoliberalismo mundial.

Nos dias atuais o Brexit e a eleição de Donald Trump trabalham no sentido inverso. Trump é um nacionalista que prioriza a “America First” e quer “America great again”. Esta é a orientação de Washington hoje.

Os grandes fundos de investimentos (a banca), no entanto, não têm nação. Dinheiro não tem pátria.

Para entender o mundo atual é preciso compreender este conflito.

Segundo nosso amigo, grande escritor e pensador Pedro Pinho, que foi administrador da Petrobrás, “o presidente do Brasil chama-se Paulo Guedes” e “ele já estava designado pelo sistema financeiro internacional, pela banca, pela entidade supranacional que controla o dinheiro no mundo”.

Sem dúvida, Paulo Guedes é o principal representante da banca no governo Bolsonaro. Mas o neoliberalismo globalizante está em forte declínio em todo o mundo, principalmente depois da pandemia de coronavírus.

Apesar do programa Pró-Brasil, lançado pelo Chefe da Casa Civil do Governo, Gen. Braga Neto, por conveniência política, ter sido momentaneamente afastado da pauta, ele é o único caminho viável apresentado pelo governo até o momento.

Sendo assim o Pró-Brasil deverá ser retomado com força. Paulo Guedes, se continuar no governo, será figura decorativa.

 Mas para que este programa venha a apresentar resultados expressivos será necessária a participação dos chineses e da Petrobrás, conforme tentei explicar no artigo “Programa Pró-Brasil é o caminho, mas precisa da participação Petrobrás/China”. https://www.brasil247.com/blog/programa-pro-brasil-e-o-caminho-mas-precisa-da-participacao-petrobras-china

O CRESCIMENTO CHINÊS

Em algumas décadas de crescimento extraordinário, a China se transformou na segunda maior economia mundial. Com 1,4 bilhão de habitantes o gigante asiático tem planos de expansão mundial.

O maior destes planos foi lançado por Xi Jinping em 2013: a Nova Rota da Seda, também conhecida como One Belt One Road (Cinturão e Rota).

O plano objetiva transformar a China na maior economia mundial até 2049, data do centenário da Revolução Chinesa de 1949. Mas pela evolução o mais provável é que isto ocorra bem antes desta data.

Na Ásia os investimentos superam US$ 1,9 trilhão, 13 vezes maior que o plano Marshall, que resgatou a Europa após a Segunda Guerra Mundial.

O governo americano se sente tremendamente incomodado com o protagonismo chinês, mas não sabe como proceder. Ataca as empresas chinesas, mas sem argumentos consistentes.

O Brasil atualmente é peça fundamental no desenvolvimento da China e tem como destaque a nossa Petrobrás com seu pré-sal.    

O JOGO “GO” 

Como é característica dos asiáticos, os chineses são pacientes e estrategistas. Isto não quer dizer que deixem de aproveitar oportunidades de momento.

O jogo de tabuleiro “GO” criado na China há mais de 2.600 anos e muito difundido na Coréia e Japão, talvez seja o indicativo do raciocínio chinês.

Neste jogo o principal objetivo não é capturar as peças do adversário mas ocupar o maior território possível com suas próprias peças.

Aprender a jogar o GO é muito fácil pois as regras são simples e poucas. O difícil é jogar o GO pois as opções de jogadas são dez vezes maiores do que no xadrez, por exemplo.

O jogo começa com o tabuleiro vazio e os adversários (2) colocam suas peças (pretas e brancas) alternativamente.

Normalmente, no início, cada jogador vai acumulando peças do seu lado do tabuleiro.

 Para um jogador colocar uma de suas peças do lado onde estão acumuladas as peças do adversário é preciso que ele saiba com muita precisão quais serão as próximas jogadas suas e do adversário. Caso contrário ele poderá perder sua peça.

Com o relacionamento acentuado e investindo no Brasil como vem fazendo, os chineses estão colocando suas peças no campo do adversário.

Portanto eles têm consciência e sabem com precisão quais serão as próximas jogadas.

CONCLUSÃO

Infelizmente a imprensa brasileira se dedica à divulgação de novelas do tipo Moro x Bolsonaro. Assuntos relevantes que vão efetivamente modificar o futuro do país e seu povo não são estudados e divulgados.

A primazia da Banca será mantida em grande parte do planeta, pois o volume de recursos investidos é estratosférico e não vão sumir do dia para a noite.

Entretanto, no Brasil, as peças chinesas já estão colocadas. O cerco já foi feito. Não tem volta.

Apesar da contrariedade de parcela dos integrantes do atual governo brasileiro (principalmente os ligados à banca), muitas vezes demonstrada, o incremento do relacionamento Brasil/China é inevitável. Na verdade, já é um fato.

É difícil hoje entender onde tudo isto vai levar o Brasil. Talvez seja necessário aprendermos a jogar muito bem o GO para começar a compreender.