A história da polícia foi afirmada em abril de 2002 e reafirmada agora, no final de 2006 pelo relatório da delegada Elisabete Sato. Nós partimos dessas duas investigações

A NOSSA HISTÓRIA

1 O CRIME POLÍTICO QUE NÃO EXISTIA

Poucos dias depois do enterro do prefeito Celso Daniel, o · deputado Luiz Eduardo Greenhalgh recebeu um telefonema de São Bernardo do Campo. Era Marisa Letícia, mulher de Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato à Presidência da República, transmitindo uma ordem do marido para que ele fosse a seu apartamento. Ele foi e lá encontrou José Dirceu, Tarso Genro, João Avamileno, prefeito de Santo André que assumiu no lugar de Celso, e Gilberto Carvalho, que era secretário de Comunicação da Prefeitura, além do publicitário Duda Mendonça, que fazia a campanha de Lula. Lula disse então: “Mataram o Toninho, agora o Celso, tem as cartas de ameaças dessa FARB a prefeitos do PL. Isso é contra o PT, contra a minha candidatura”.

Para Lula, estava clara a motivação política por trás do assassinato do prefeito de Campinas, Toninho do PT, ocorrido em setembro de 2001, das ameaças da desconhecida Forças Armadas Revolucionárias Brasileiras e agora, do assassinato de Celso Daniel, recentemente escolhido para ser o coordenador de sua campanha.

Lula pediu que Greenhalgh, advogado criminalista, um dos mais conhecidos defensores dos direitos humanos no País, largasse tudo o mais que fazia para acompanhar as investigações sobre o assassinato de Celso Daniel. Greenhalgh aceitou a missão, mas perguntou: “A investigação é pra valer?” Pouco depois, Lula chamou Greenhalgh para lhe mostrar sua nova máquina de café expresso. Ali, num canto do apartamento, perguntou: “Por que você perguntou se é pra valer?” “Porque o Sérgio é suspeito. Achei o comportamento dele muito estranho”, disse Greenhalgh referindo-se a Sérgio Gomes da Silva, o empresário e amigo de Celso que o acompanhava por ocasião do sequestro. “Vai fundo”, disse Lula.

Greenghalgh: "A investigação é prá valer?"
Greenghalgh: “A investigação é prá valer?” – Tânia Caliari

Greenhalgh já estava acompanhando o caso de muito perto. O sequestro ocorreu nos últimos instantes da sexta-feira e no sábado lá já estava em Santo André onde teve uma sequência de encontros: com amigos de Celso, com a polícia e com funcionários da Prefeitura. Ajudou na orientação de como todos deveriam agir caso recebessem uma ligação telefônica dos sequestradores. A expectativa era de que os bandidos entrariam em contato para pedir um resgate.

Greenhalgh esteve também na 26″ DP, no bairro do Sacomã, em São Paulo, onde havia sido registrado o BO, o boletim da ocorrência policial, na noite anterior. Ali verificou que a Pajero de Sérgio, de onde o prefeito havia sido levado, estava parada no pátio, sem ter sido ainda periciada. Ele cobrou esse procedimento. De volta a Santo André, teve mais reuniões. Uma delas, com Sérgio Gomes. Sérgio estava agitado, lembra Greenhalgh ainda hoje. Andava de um lado para o outro e se comportava como se estivesse no comando da situação. Esperava um telefonema. Estava convencido de que os sequestradores ligariam para ele para pedir o resgate. Ele, o grande amigo do prefeito. Articulava como arranjar uma grande soma de dinheiro com conhecidos. Greenhalgh desconfiou. Sérgio parecia, agora, muito valente.

No domingo pela manhã, bem cedo, Greenhalgh recebeu um telefonema de Aloysio Nunes Ferreira, seu amigo, então ministro da Justiça do presidente Fernando Henrique Cardoso. Nunes Ferreira pediu o telefone de Lula e de outros. A notícia que tinha era ruim: parecia que haviam encontrado Celso Daniel morto. Greenhalgh ligou a TV e viu imagens de um corpo estendido numa estrada de terra, feitas a partir de um helicóptero.

Da praça Marechal Deodoro onde mora, próximo da região central de São Paulo, Greenhalgh intuiu que o corpo do prefeito seria levado para o Instituto Médico Legal da Vila Leopoldina, na zona Oeste da capital. Sua experiência o fez grande conhecedor das delegacias, presídios e, também, dos morgues da cidade. Chegou ao IML antes do corpo de Celso, seu amigo e, depois, ficou alguns minutos a sós com ele.

Legistas, policiais, jornalistas, o deputado federal Jamil Murad (PCdoB-SP) chegaram depois. O chefe da autópsia, Carlos Del Monte, pediu a todos que se retirassem. Greenhalgh não conseguiu ficar, mas Murad, também médico, sim. Após a necropsia, o corpo foi levado para Santo André. O vice-prefeito, Avamileno, anunciou para uma multidão reunida diante de um palanque na praça IV Centenário: “Mataram nosso prefeito”. E o PT passou a se articular para denunciar o que lhe parecia um crime político.

No dia 22 de janeiro, dois dias depois da morte do prefeito, Lula encontrou-se com Fernando Henrique e entregou ao presidente uma carta na qual pediu, inclusive, uma ampliação das escutas telefônicas para facilitar as investigações.

No início, um dos alvos da investigação foi a própria cúpula da Prefeitura. “Quais as pessoas que se beneficiariam com a morte do prefeito?”, disse José Pinto de Luna, delegado da Polícia Federal, indicado pelo PT para o caso e encarregado da supervisão das escutas. “A primeira pessoa que se locupletou com a morte do prefeito foi o vice-prefeito. É claro que isso tudo no terreno da teoria. Quem mata alguém tem algum motivo para matar”.

Os amigos próximos de Celso e pessoas que haviam sido denunciadas por supostos esquemas com a Prefeitura também foram visados. Foram então interceptados, com autorização judicial, os telefones de Sérgio Gomes, de João Avamileno, do secretário de Assunto Municipais, Klinger de Souza, de Gilberto Carvalho, do empresário Ronan Maria Pinto, da namorada de Celso, lvone Santana. Ao todo, foram quebrados os sigilos de 180 linhas telefônicas.

Trechos das conversas grampeadas foram divulgados seletivamente pela mídia. Havia uma desconfiança básica em relação a Sérgio Gomes. Professor de história e geografia, Sérgio foi apresentado a Celso Daniel em 1988 pelo irmão mais novo do prefeito, Bruno Daniel, quando foi chamado para coordenar o esquema de segurança do então candidato do PT à Prefeitura de Santo André. Com a vitória de Celso, Sérgio se tornou responsável por sua segurança, talvez pelo fato de ser praticante de artes marciais. Em 1994, Celso foi eleito deputado federal e Sérgio se tornou seu assessor. Quando, em 1996, Celso Daniel voltou a se eleger prefeito da cidade, Sérgio já não trabalhava estava mais com Celso. Havia se associado Ronan Maria Pinto, empresário com interesse em diversas áreas, especialmente no setor de transporte público. Já existiam acusações contra Sérgio. Em maio de 2000 foi envolvido em num caso no qual o Ministério Público tinha aberto investigação sobre contratos da Prefeitura suspeitos de fraude e favorecimentos a certas empresas. Em junho de 2002, o PT começou a perceber que as investigações tinham se voltado contra ele e acusou a Polícia Federal de estar extrapolando no uso das escutas telefônicas feitas. Mas a investigação foi de vento em popa. Estabeleceu-se o que o delegado Luna classificou como uma “rivalidade sadia” entre a equipe da Polícia Federal liderada por ele, a do DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais), chefiada pelo delegado Edison de Santi, e a do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), coordenada pelo delegado Armando Costa de Oliveira Filho, que foi também o coordenador geral da operação policial.

Oliveira Filho coordenou o trabalho de 32 investigadores e dez delegados. Luna explica como a investigação de um crime de início imaginado como de mando, ou político, se transformou num crime comum. Ele ouviu boa parte das gravações feitas em Santo André para orientar seu trabalho. Chegou a suspeitar de Sérgio Gomes. “Toda hora que [nas conversas] entrava polícia no meio, ele sentia um certo temor”, disse Luna à revista Livre Mercado. “Entendíamos que aquele temor dele poderia sim estar ligado ao sequestro”.

“Foi aí”, disse Luna, “que começou a aparecer o outro lado da investigação, dos autores do crime. Então, resolvemos deixar a linha do pessoal da Prefeitura e atacar no outro lado. Até porque, se houvesse relação entre um grupo e outro, mais dia menos dia apareceria. É algo como uma ponte em construção, cujos extremos se encontram. Eles teriam que se cruzar, isso é inevitável. Portanto, tínhamos que investigar os autores do sequestro, porque a linha estava mais madura. Prendendo os autores, eles diriam que foi o Sérgio, foi sicrano, foi beltrano. Seria uma prova contundente”.

Mas não foi, diz Luna, que esperava resolver um crime espetacular e não conseguiu. “E esse pessoal foi preso e disse que foi um crime comum. E explicaram detalhada mente porque foi um crime comum”, disse ele desapontado.

2 O SEQUESTRO E A MORTE

Pode-se reconstituir o sequestro e a morte de Celso Daniel assim: a noite do 18 de janeiro de 2002 era de sexta-feira relativamente calma na 26″ Delegacia de Polícia, no bairro do Sacomã, zona Sul de São Paulo. As 23h30 o policial militar Santos, da viatura m-03309, apresentou uma ocorrência que havia acabado de atender ali perto: um sequestro que ia dar o que falar. No meio da rua Antonio Bezerra, uma ladeira distante dali não mais do que quinhentos metros, o PM havia encontrado o cidadão Sérgio Gomes da Silva com seu Mitsubishi Pajero parado, marcado por vários tiros. Ele havia pedido socorro pelo telefone 190 e dizia que seu amigo, Celso Augusto Daniel, prefeito de Santo André, tinha sido levado por seis bandidos que os abordaram em dois veículos.

Pela reconstituição, sabe-se que Itamar sai da Blazer atirando com uma Uzi na lateral da Pajero – Folha Imagem

Como isso ocorreu? Quem conta, quase quatro anos depois daquela noite, em setembro de 2005, ao narrar o episódio pela enésima vez para atender a um novo inquérito policial sobre o caso, é um dos sequestradores, Itamar Messias Silva dos Santos. Convidado para participar de um sequestro ele roubou, naquele mesmo dia, com seu amigo Sozinho, Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, um carro Volkswagen Santana azul escuro em Diadema, para auxiliar na abordagem da vítima. O Santana seria acompanhado, diz ele, por um carro mais potente, uma GM Blazer verde, também roubada por outros companheiros.

Já tinha algum tempo que ·Itamar havia se enturmado com um grupo da Favela Pantanal, situada na zona Sul paulistana, na divisa com Diadema. Quem conta isso é outro dos sequestradores, Ivan Rodrigues da Silva, também conhecido como Monstro por ter uma cicatriz no queixo resultante de um tiro. Ivan era o chefe do bando e havia sido contatado por um conhecido seu, José Edison da Silva, para fazer o sequestro daquela sexta-feira. O plano levado por Zé Edison, que vivia no Campo Limpo, região sudoeste da capital, longe da Pantanal, era sequestrar um empresário do Ceagesp. Zé Edison, ao fazer serviços eventuais de carregador no principal entreposto de hortifrutigranjeiros da capital paulista, havia observado os hábitos do empresário Cleiton Calil de Menezes, que andava com maços de dinheiro e que tinha uma caminhonete Dodge Dakota vermelha, com a qual ia quase todo o final de semana para a Baixada Santista ver a namorada.

Naquela noite não ia ser diferente. Cleiton, a partir da Marginal do rio Pinheiros, pegaria a avenida Bandeirantes, que corta a zona Sul da cidade na altura do aeroporto de Congonhas, para chegar até uma das duas estradas que levam ao litoral, a Imigrantes ou a Anchieta. No caminho, no final da Bandeirantes, o bando de Ivan o estaria esperando. No entanto, dessa vez, em função de seu aniversário, Cleiton passou em casa para pegar sua mãe e trocou de carro para descer a serra. Com um pequeno Corsa, passou desapercebido pelos bandidos.

O grupo já estava reunido nos dois veículos nas imediações das alças e viadutos do Complexo Viário Maria Maluf, que cruza a Imigrantes. A mãe de Itamar tinha um trailer de lanches e morava ali perto, num conjunto habitacional construído pela Prefeitura, que pode ser visto do anel.

Não era a primeira vez que o grupo abordaria uma vítima naquela região. Desta vez, Itamar, Bozinho e Elcyd Oliveira Brito, o John, iam dentro da Blazer. Ivan, Edison e Marcos Roberto Bispo dos Santos, o Marquinhos, estavam no Santana. Ao perderem sua presa da Dakota vermelha, os rapazes decidiram abordar o primeiro carrão que passasse. A decisão de perseguirem a Pajero preta que passou por ali selaria o destino de todos. Na Pajero, os amigos Sérgio e Celso voltavam de um jantar no restaurante Rubayat na área rica da cidade, na alameda Santos, e seguiam para Santo André.

A região de declive entre os bairros Cursino e Sacomã faz com que várias ruas paralelas que seguem para o leste tenham uma sequência de baixadas que lhes dão um aspecto de tobogãs para carros. Por isso, a região, concentrada na Vila das Mercês, é conhecida por Três Tombos. A Pajero desceu o tobogã da avenida Nossa Senha da Saúde e parou no semáforo da esquina com a Nossa Senhora das Mercês. A partir dar a Blazer, dirigida por John, foi para cima da Pajero, batendo em sua lateral esquerda para forçá-la a parar.

A descida que percorreram acaba de forma brusca e, na ladeira de subida, a rua já muda de nome, passando a se chamar rua Antônio Bezerra a partir de um radar de velocidade plantado no centro da via. Na subida, a Pajero parou e voltou uns cem metros de ré. Itamar saiu da Blazer atirando com uma submetralhadora Uzi, atingindo a lateral da Pajero, do lado do motorista. O veículo era blindado e Sérgio, ao volante, não atendeu à ordem que Itamar lhe deu para que saísse, batendo com o cano da arma no vidro de sua janela. Tampouco Silva fez seu carro arrancar para fugir dos bandidos, permitindo que outro rapaz chegasse do lado do passageiro atirando nos vidros, o que fez seu companheiro abrir a porta do carro e sair pedindo calma.

Foi Ivan que decidiu levar o homem branco, cabelos grisalhos, de porte atlético e deixar o outro, menor, pele parda, cabelo enrolado e curto, avaliando que deveria se tratar do motorista do bacana. Celso Daniel foi colocado abaixado no banco de trás da Blazer e ainda levou uns cutucões de Itamar com a boca do cano de sua Uzi que acabara de cuspir fogo. A ação em frente ao número 386 da Antonio Bezerra durou questão de minutos. Os bandidos acabaram de subir a ladeira, viraram à direita e entraram na Via Anchieta tangenciando, por ironia, a magnífica gameleira que fica na entrada do edifício da 26″ DP. O destino era a favela Pantanal e o bando chegou lá passando por São Bernardo do Campo e Diadema, por um corredor formado por grandes avenidas que cruzam a própria Anchieta, a Imigrantes e, em São Paulo, deságua na avenida Cupecê, na Cidade Adernar.

Um bairro como Cidade Adernar, como tantos outros em São Paulo, é formado por uma infinidade de vilas e “jardins” e é na sequência do Jardim Míriam, um bairro de classe média baixa que começa na avenida Cupecê, que se localiza a Cidade Julia, onde fica a Favela Pantanal, que se limita a leste com Diadema. Uma das vias principais da Pantanal é a Guaicuri e foi lá que, num salão vazio onde um dia havia funcionado o bar do Mineiro, que Celso Daniel fez sua primeira parada na mão dos sequestradores.

A Favela Pantanal mudou muito em cinco anos. Palavra do investigador que participou de diligências policiais na época do sequestro e que voltou agora com Retrato do BRASIU Reportagem para tentar reconhecer o primeiro cativeiro de Celso Daniel em meio às 1.500 casas e barracos do lugar, onde moram atualmente 20 mil pessoas, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Novas ruas e vielas foram abertas, novas moradias precárias foram levantadas, outras foram ampliadas e receberam reboco e tinta, e as vias mais antigas foram asfaltadas, como a própria Guaicuri. O investigador se lembra de que quando esteve ali, havia várias manilhas de tubulação espalhadas pela rua em obras. Foi numa poça de água no salão da Guaicuri que a polícia encontrou um recibo de pagamento do convênio de saúde da Sul América Seguros em nome de Celso Augusto Daniel, que deve ter caído quando o prefeito foi “transplantado” de um carro para outro, termo usado pelos bandidos para indicar que a vítima foi retirada da Blazer e colocada no porta-malas do Santana para ser levado da favela ainda na madrugada do sábado, dia 19.

A uns 200 metros do local do cativeiro, onde na época funcionava um lixão no qual a Blazer usada no sequestro foi encontrada queimada dias depois, foi inaugurado um conjunto de quadras poliesportivas em 2003 que levou o então governador Geraldo Alckmin a visitar o local, segundo policiais do 98″ DP, que fica perto dali, a criminalidade diminuiu na favela, mas a área continua sendo estratégica para a viabilização de vários tipos de delitos. “Na região ocorrem muitos roubos de veículos que são desovados em Diadema. E os veículos roubados lá são mandados para a Favela Pantanal, para que sejam desmanchados”, declarou em outubro de 2005 o comandante do policiamento de Choque da Polícia Militar, coronel Joviano Conceição Lima. Em 2001, a barra era ainda mais pesada. Foi ali que Ivan Monstro encontrou refúgio e se tornou uma liderança depois de ter fugido da penitenciária de Sorocaba em 1999 e passar a ser procurado por sequestro em São Bernardo do Campo. Experiente, réu em vários casos de roubo, assaltos a banco e empresas, acusado de vários assassinatos, Ivan se especializou em sequestros numa época em que a cidade vivia o auge desse tipo de ameaça. Dados oficiais mostram que em 2001 os casos de extorsão mediante sequestro na capital paulista chegaram a 201 em 2001, em comparação com os 69 casos em 2005. Segundo avaliações policiais, mesmo tendo se especializado em sequestro, a quadrilha de Ivan podia ser considerada amadora, que agia muito no improviso, sem qualificar a vítima, escolhendo-a a olho, “a zóio”, como dizem no jargão da bandidagem, atraídos pelos veículos caros e vistosos. Esse tipo de bandido não tem estrutura para manter as vítimas durante muito tempo em cativeiros, o que os leva a negociar os valores de resgate de forma muito flexível Um pedido inicial de R$ 500 mil cai facilmente para R$ 25 mil e até R$ 5 mil, conforme as posses das vítimas. Em seus depoimentos, Ivan não perde a oportunidade de dar uma conotação social a seu “trabalho”: “Foi o que a sociedade me ofereceu”, disse em depoimento em 2005. “Não sei fazer outra coisa a não ser roubar e sequestrar. Até pensei em trabalhar, mas alguém emprega um condenado, um acusado de assassinato?”, declarou à imprensa depois de preso. Ivan repete em seus vários depoimentos o que foi afirmado também por todos os outros integrantes de sua quadrilha em diferentes momentos: que o grupo não tinha ideia de que o bacana sequestrado no início de 2002 era o prefeito de Santo André.

Ao ser retirado da Favela Pantanal no porta-malas do Santana, o prefeito continuava um desconhecido para os sequestradores e foi conduzido por Zé Edison e Marquinhos para seu novo cativeiro. Marquinhos foi deixado por seu comparsa ainda na cidade de São Paulo. E Zé Edison, que já havia alugado um sítio em São Lourenço da Serra para cativeiro, seguiu pela rodovia Régis Bittencourt, estrada para Curitiba. Nesse mesmo sítio Edison e um menor, parceiro seu de crime, já tinham feito refém um travesti, que foi morto por não ter R$ 3 mil para pagar seu próprio resgate. A negociação pela liberdade de Celso Daniel ficaria a cargo de Ivan. Ele diz que levou um tremendo susto quando viu, no sábado, pela televisão, que tinham sequestrado o prefeito de Santo André. Itamar conta que o grupo que estava na Pantanal, Ivan, John, Bozinho e ele, se reuniu para decidir o que fazer. Alguns achavam que ainda dava para pedir resgate, outros achavam que deveriam libertar o prefeito e sequestrar outra pessoa na segunda-feira. Quando chegaram a um acordo, Ivan deu a ordem para soltar a vítima: “o homem é uma bomba”. Itamar diz que telefonou para Zé Edison de um orelhão na favela dando a ordem de Ivan. Ivan diz que ele foi pessoalmente com John à casa de Zé Edison dar a ordem, avaliando que o grupo não tinha estrutura para suportar a pressão que se daria sobre o caso. Na sequência, o grupo abandonou a Favela Pantanal

Zé Edison, no entanto, não cumpriria a ordem de Ivan. No domingo de madrugada, o prefeito foi executado com sete tiros de pistola, calibre 9 mm, numa estrada de terra de Juquitiba, Município limítrofe com São Lourenço da Serra. O local em que o corpo de Celso Daniel foi encontrado por um sitiante logo de manhã no domingo fica na altura do quilômetro 278 da Régis Bittencourt e não dista mais do que trezentos metros dessa rodovia.

A reconstituição do crime
A reconstituição do crime – Folha Imagem

O ponto principal sobre o qual ainda pairam dúvidas sobre a morte de Celso Daniel é o de quem disparou os tiros. Foi Zé Edison ou o, na ocasião, menor, Lalo? Lalo mudou seu depoimento várias vezes, ora assumindo o crime, ora dizendo que foi Zé Edison, versão na qual se fixou.

Outros depoimentos foram mudados, mas não deixaram dúvidas. Elcyd Oliveira Brito, o John, disse que Dionísio participou de toda a ação do sequestro e morte de Celso Daniel e que Sérgio, que encomendara o crime, facilitou a abordagem, chegando a chutar seu amigo para fora do carro. Antes, John cobrou do advogado de Sérgio Gomes, através de carta, pelo serviço que “sua” quadrilha teria feito em sequestrar e assassinar Celso Daniel a seu mando.

A atitude do advogado de Sérgio Gomes, Roberto Podval foi entregar aos promotores a carta com as ameaças de John. A nova versão de John não foi longe. Em acareação dos participantes do sequestro com Sérgio Gomes da Silva em novembro de 2005 numa sessão da CPI dos Bingos realizada em Santo André, nenhum dos acusados disse conhecer Sérgio e John disse que o conteúdo de sua carta era falso.

3 A GRANDE CAÇADA

Entre as mais de trezentas denúncias que chegaram à força tarefa que investigou o sequestro e a morte de Celso Daniel, uma foi passada ao delegado Edison de Santi, por intermédio da direção da rádio Jovem Pan. A rádio colocou o delegado em contato com um denunciante de identidade não revelada que levou os policiais à Favela Pantanal, no endereço da rua Guaicuri e deu os nomes ou apelidos de Ivan e mais seis envolvidos direta ou indiretamente com o sequestro: Itamar, Bozinho, Cara de Gato, John, Cara Seca, Kiti, Almeida.

A Favela ficou no centro das investigações. Um telefonema feito para o celular do prefeito logo depois do sequestro foi rastreado e os dados indicaram o uso da Estação Rádio Base (ERB, estação de serviço de telefonia celular) que atende àquela região. No dia seguinte à denúncia, os policiais do DEIC estiveram no salão da Guaicuri e em meio à papelada espalhada no chão úmido, um agente achou a pista. “Um agente meu perguntou: ‘doutor, qual é mesmo o nome do prefeito?’. Respondi e ele disse: ‘está escrito Celso Daniel aqui nesse papel’. Quase tive um enfarte na hora”, contou de Santi à imprensa. Nesse mesmo dia, os policiais localizaram e prenderam o Almeida, que havia guardado o Santana na garagem de sua casa até a hora do sequestro. Dois dias depois, os policiais do DEIC localizaram e apreenderam na mesma favela o Kiti, o adolescente Carlos Wellington Coelho Rodrigues, que havia roubado a Blazer usada no crime. A partir daí, os suspeitos foram identificados e a hierarquia e funções na quadrilha foram sendo qualificadas.

Enquanto os agentes do DHPP e da PF investigavam também a família, amigos e colegas de trabalho de Celso Daniel, além dos empresários e empresas que mantinham contratos com a Prefeitura de Santo André, a linha de investigação que tratava da quadrilha da Pantanal foi se fortalecendo. Em fevereiro de 2002, foi preso Andrelison dos Santos Oliveira, o Cara Seca, irmão de Bozinho, na casa do sogro em Vitória da Conquista, Bahia, por agentes federais. Itamar e Bozinho foram presos por federais em São Paulo na via Dutra, na altura da cidade de Aparecida, quando voltavam de Camaçari, na Bahia.

Zé Edison foi preso também em fevereiro em Vitória da Conquista ao tentar fugir com uma caminhonete roubada de um cerco policial estabelecido desde a prisão de Cara Seca na cidade. Em São Paulo, Zé Edison levou os policiais até Lalo, e os dois conduziram, separadamente, as autoridades até o sítio usado como cativeiro de Celso Daniel. Dos sete sequestradores, restavam dois, o Monstro e John. Depois que saiu da Pantanal, Monstro e John fugiram para o Paraná, foram detidos e liberados em Maringá. Há denúncias de que os policiais paranaenses teriam cobrado para soltá-los e os dois fugiram para o Nordeste.

Em junho, porém, Ivan estava de volta à São Paulo e em plena atividade. Foi preso na Favela do Pavão, ao lado do centro de treinamento do São Paulo F. C. na Barra Funda, zona norte da cidade, quando se ocupava em gerenciar o sequestro simultâneo de três vítimas: um menino de onze anos, um serralheiro, e um empresário. Tinha juntado uma nova quadrilha, e ao agarrá-lo depois de uma campana e um cerco policial à favela. John foi preso em setembro, quando se escondia na casa de familiares de Zé Edison na favela do Sapé no bairro do Rio Pequeno, na zona Oeste. Antes mesmo dessas duas últimas prisões, o inquérito policial sobre o sequestro e morte de Celso Daniel já estava concluído. Como prova material da autoria do sequestro ficou a impressão digital de Itamar na porta da Pajero quando tentou atacar o motorista. Mas a convicção dos delegados envolvidos nas investigações de que todos os bandidos presos contaram a verdade sobre sua participação no sequestro, vem da força da coerência de seus depoimentos. “Se os sequestradores fossem sete pessoas medianamente intelectualizadas, que tivessem combinado tudo, ainda assim, depois de meses haveria várias contradições. Mas não é o caso. Estamos trabalhando com sete pessoas que podem ser caracterizados como verdadeiramente limítrofes, detentores de fissuras cognitivas “, disse o delegado Oliveira Filho. “Pois bem: todas elas, quando presas em situações distintas, momentos distintos, estados da federação diferentes, todas foram unânimes em oferecer uma mesma versão. Ou seja: vivenciaram aquela situação. Seria inimaginável um grupo ter técnica suficiente para memorizar. Eles me dizem quem estava sentado em seu respectivo espaço nos veículos. Fizemos toda checagem exigida para pegá-los em contradição. Desarrumamos os respectivos assentos, mas eles, ouvidos separadamente, corrigiam nossa versão “. Costa Filho estava comentando para a revista Livre Mercado o que chamou de obsessão do Ministério Público em tentar desmontar a versão policial.

Delegado Armando Oliveira Filho, que chefiou as investigações feitas pela polícia paulista
Delegado Armando Oliveira Filho, que chefiou as investigações feitas pela polícia paulista – Folha Imagem

Um dos fatores que mais levantou suspeitas de colaboração de Sérgio Gomes com o crime contra seu amigo e que ajudou a abrir o flanco da explicação da polícia paulista para o ataque dos promotores, foram as contradições dos primeiros depoimentos do próprio Sérgio. O ex segurança de Celso Daniel registrou no boletim de ocorrência e repetiu em depoimentos do inquérito que a Pajero apresentou problemas na hora da abordagem dos bandidos, que sua marcha foi estancada, que o motor girava em falso. Disse que as portas insistiam em destravar, por mais que ele as travasse novamente, o que possibilitou os bandidos abrirem a de Celso Daniel o levarem. O laudo de peritos, no entanto, apontou que a Pajero não apresentava nenhum desses problemas. Para o deputado Greenhalgh, que pôde conhecer bem o Sérgio naqueles dias e acompanhou seus depoimentos, o que travou naquele momento da abordagem não foi o câmbio da Pajero, mas sim o próprio Sérgio, que jamais admitiria isso, pois não condizia com a imagem de “machão” que sempre teve. Ele era “o” cara, “o” amigo do prefeito, “o” segurança do prefeito, diz Greenhalgh. “E, na hora, amarelou”. Greenhalgh diz que, por outro lado, acha que concorda com a versão dominante entre os sequestradores, de que realmente deve ter sido o próprio Celso Daniel que destravou sua porta e saiu do carro, pedindo calma aos sequestradores. Celso saiu da Pajero de mãos para cima, pedindo calma. “O comportamento do Sérgio naquela hora não foi compatível com a imagem que se tinha do Sérgio. O Sérgio não foi o Sérgio. Já o Celso Daniel foi o Celso Daniel. Isso era bem ele: pedir diálogo e calma numa hora daquelas”, diz Greenhalgh.

Delegado De Santi (à dir,), delegado Luna, da PF (à esq.)
Delegado De Santi (à dir,), delegado Luna, da PF (à esq.) – AE

4 A CONCLUSÃO REPETIDA

Às vésperas do Natal, quando a elegante região paulistana dos Jardins fica ainda mais agitada e festiva, Retrato do BRASIL/Reportagem vai à 78″ DP para tentar falar com a delegada Sato. A delegacia localizada no quadrilátero rico da cidade entre as avenidas Paulista, Brasil, Rebouças e Brigadeiro está calma, apesar de um caso de suicídio registrado ali, naquela manhã. “Nessa época do ano aumenta muito o número de suicídio”, diz uma funcionária.

Depois de ser contestada publicamente pelos promotores, a delegada diz que recebeu telegramas, e-mails e telefonemas de apoio de colegas policiais, de parlamentares, da Ordem dos Advogados do Brasil e de membros do próprio Ministério Público. Sato defende seu relatório por uma razão muito simples: “se eu não tiver provas, não posso mandar ninguém para a cadeia”. E foi essa a conclusão principal e basilar de seu relatório “indícios sem provas é quase nada”.

A delegada Elisabete Sato
A delegada Elisabete Sato – Tania Caliari

Sato falou acompanhada de duas outras elegantes delegadas do distrito. “Para poderem apresentar alguma denúncia baseada nos procedimentos que fazem, eles precisam de uma prova muito contundente, que eles não tinham. Então recorreram ao inquérito para que os policiais procurassem as provas ou pistas que levassem a novos mandantes e executores do crime, que eles acreditam existir, mas que não foram encontradas”, diz uma delas, delegada- assistente. A delegada diz que, num crime cometido há tempos, uma das poucas chances de se chegar à mandantes é pela delação feita pelos executores. O caminho foi, então, ouvir a quadrilha de Ivan novamente.

Àquela altura da conversa, a sala da delegada já está cheia: sua equipe se reúne para uma defesa coletiva do relatório. O escrivão Jonas Pereira conta como a delegada tentou sensibilizar as famílias para que aconselhassem os sequestradores a entregarem os mandantes, se eles existissem. A tática não deu resultado e os rapazes insistiram na versão de crime aleatório.

O investigador Marcos Badan comenta a versão divulgada pelos promotores de que a delegada teria ignorado um relatório seu que indicava a necessidade de pedir ao juiz a quebra do sigilo de 34 telefones. “O que aconteceu é que os promotores pediram a quebra do sigilo diretamente ao juiz e quebraram foi a cara”, diz Badan. O pedido de quebra de sigilo, além de outras diligências, foi feito à revelia da delegada presidente do inquérito. E o juiz não concedeu a quebra pelo fato de os promotores não terem identificado o motivo e nem os proprietários dos números. Os promotores recorreram então à autoridade policial para que pedisse a quebra. E sugeriram que Badan justificasse o pedido com a informação de que as operadoras mantêm sob seu domínio apenas os registros dos últimos cinco anos, tempo que prescreveria em breve. O pedido foi encaminhado e o juiz Luiz Fernando Migliori Pontes reafirmou que o pedido merece maiores esclarecimentos “pois não se sabe onde foram buscar aqueles números de telefones”, mas determinou que seus registros fossem preservados.

Badan conclui a entrevista com uma frase de efeito. “Sempre soubemos: tem que se partir do crime para o criminoso e não ao contrário. E é isso que os promotores não entendem”.