A tese que liga um suposto esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André ao assassinato do prefeito Celso Daniel não se sustenta nos fatos

A história mal contada

Raimundo Rodrigues Pereira e Tânia Caliari [com a colaboração de Flávio Dagli e Rafael Hernandes]

Para se entender a história do sequestro e morte de Celso Daniel, ocorridos entre 18 e 20 de janeiro de 2002, e a enorme discussão que persiste até hoje sobre o caso, passados cinco anos, pode-se partir do resumo seguinte: há duas teorias. A primeira, sustentada em dois inquéritos da Polícia de São Paulo, de que foi um crime comum, praticado por uma quadrilha de sequestradores, todos eles já presos. Outra, defendida pelos promotores públicos de Santo André (cidade do ABC paulista da qual Celso Daniel foi prefeito) e pelos irmãos da vítima, que concorda que foi a tal quadrilha que sequestrou e matou o prefeito, mas diz que isso foi feito a mando de outra quadrilha, ligada a um esquema de corrupção existente na Prefeitura.

Retrato do Brasil/Reportagem examinou as duas versões da história e a polêmica entre elas. E tomou partido pela tese do crime comum, que é a história que contamos no artigo seguinte. Neste primeiro artigo, mostramos porque a tese que liga a corrupção na Prefeitura de Santo André ao assassinato do prefeito não se sustenta nos fatos.

1 O ELO DE LIGAÇÃO

O personagem-chave, que na tese do crime de mando faz a ligação entre as duas quadrilhas, a dos sequestradores e a dos corruptos, é Dionísio de Aquino Severo. Ele teria sido contratado para executar o crime por Sérgio Gomes da Silva, o amigo de Celso Daniel que acompanhava o prefeito no dia do sequestro e dirigia o veículo Pajero, abordado pelos sequestradores.

Dionísio está morto, mas é possível esboçar um perfil dele a partir de vários fatos: parecia ser uma pessoa talentosa e muito atrapalhada, profissional e afetivamente. Segundo sua mãe, Neuza Aquino Severo, hoje com 62 anos e dona de um trailer de praia em Mongaguá, litoral paulista, onde vende bebidas e petiscos, Dionísio era muito inteligente, tinha cursado durante três anos educação artística, montava computadores, esteve várias vezes nos Estados Unidos e foi preso pela primeira vez em 1989, aos 25 anos, por ter sequestrado um médico de São Paulo que a operou.

Dionísio estava preso em Guarulhos e fugiu de lá espetacularmente em 17 de janeiro de 2002, véspera do sequestro de Celso Daniel

Dona Neuza diz que a família perdeu quase tudo que tinha com advogados para defendê-lo. Ele foi solto depois de cumprir seis anos de cadeia e tornou-se dono de um lava-rápido e locutor de rádio no Município de Praia Grande (também no litoral paulista), diz ela. Em 1999 foi preso novamente, acusado de um assalto a banco, após o que a família o deixou meio de lado, sem visitá-lo com frequência na prisão.

Dona Neuza diz que nunca soube que Dionísio tinha ligações com Santo André. Ela tem outros três filhos, entre os quais duas mulheres: uma estava em Londres, em 2004, estudando jornalismo; outra é corretora de imóveis. Daniel, que é adotado e trabalha em uma recuperadora de pneus em Mogi Mirim (cidade na região paulista de Campinas), disse estranhar que se diga que Dionísio tinha ligações com Santo André, pois ele conversava muito com a família e nunca falou disso em casa.

Dionísio estava preso na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, Município vizinho da capital paulista. Fugiu de lá espetacularmente, de helicóptero, no dia 17 de janeiro de 2002, uma quinta-feira, véspera do sequestro de Celso Daniel. Foi recapturado em Maceió (AL) cerca de três meses depois e prestou depoimento, em inquérito sobre a fuga chefiado pelo delegado Romeu Tuma Jr., logo a seguir, no dia 7 de abril. No depoimento, Dionísio explicou a fuga e também revelou seus problemas.

Ele disse que passou por uma dezena de prisões e pensava numa fuga de helicóptero desde 1997, quando estava na Casa de Detenção de São Paulo. A fuga da Parada Neto foi conseguida depois de grande empenho dele e de confusões, armadas por pessoas que mobilizou para a operação, Dionísio disse. Ele tinha R$ 4.500 recebidos por negócios na Bolívia. Sua intenção era sair antes do Natal de 2001 e fez três pagamentos, somando R$ 3.000, aos que o ajudariam na contratação do helicóptero. Mas os amigos o enrolaram e gastaram seu dinheiro, inclusive numa festa, com drogas, na casa de Gisele, mulher que, pelo depoimento, era amante e parceira de Dionísio de longa data (hoje está foragida). O dinheiro para alugar o helicóptero foi finalmente conseguido e a data para a sarda da prisão foi escolhida, disse Dionísio, no próprio dia 17 ou na véspera.

Helicóptero usado na escapada pousado num campo de futebol em Embu - Folha Imagem
Helicóptero usado na escapada pousado num campo de futebol em Embu – Folha Imagem

O helicóptero chegou ao pátio da penitenciária com dois rapazes, além do piloto. Um era um filho seu, Rodrigo, que Dionísio não esperava e de quem não era muito próximo até pouco tempo antes. Gisele o havia reaproximado do pai e tinha ido com ele ao presídio várias vezes, e o rapaz, ainda menor, já estava no mundo do crime – aparentemente com algum sucesso, diz o pai, que supunha que ele tinha uns R$ 90 mil. Outro era Cleílson Gomes de Souza, vulgo Bola, o encarregado da operação de fuga há meses e que, inclusive, segundo Dionísio, tinha participado da esbórnia financiada por sua grana, que atrasou a operação. Na fuga, Dionísio levou consigo não o colega de prisão que havia planejado, que “amarelou” na hora; mas Aílton Alves Feitosa, que viu a deserção, se ofereceu para ocupar o posto e saiu, “de graça”, disse Dionísio.

O helicóptero desceu num campo de futebol no Jardim Santa Tereza, no Embu, Município situado na zona Oeste da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Sob o comando de Dionísio, os quatro separaram-se. Rodrigo e Bola, bem vestidos, foram para um lado, para a casa do Bola. Ele e Feitosa, mal vestidos, foram para outro: primeiro para a casa de uma tia de Dionísio, onde ele deixou Feitosa; depois, sozinho, ele foi à casa de um tio; e, finalmente, para a casa de uma amiga, onde ficou até segunda- feira à noite, quando foi deixado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, de onde foi para Florianópolis (SC).

Quem ajudou Dionísio de um lado para outro nesses quatro dias foi Sandra, “esposa, mãe de meus filhos pequenos”, uma santa mulher, que fazia limpeza para ajudá-lo, “por amor”, que não merecia o que estava “acontecendo com ela”, disse Dionísio no depoimento ao delegado Tuma Jr., referindo-se, com certeza, ao fato de, na sua recaptura, Sandra ter sido presa com ele. Ela levou Dionísio da casa da tia para a do tio e depois para a casa da amiga, onde ficou com ele. Na sexta-feira, dia seguinte à fuga, levou Rodrigo para ver o pai; levou comida para ele e Bola e ainda pegou Feitosa na casa da tia e o levou para junto de Rodrigo e Bola. E ainda foi à casa de um amigo e devedor de Dionísio, que lhe arrumou um revólver e R$ 700.

Mas Dionísio, como ele mesmo confessou no depoimento a Tuma Jr., enganou Sandra e foi com Gisele para uma pousada perto de Florianópolis. Em seguida, trouxe Rodrigo para perto dele. Mais adiante, levou Sandra e os dois filhos pequenos que têm para Camboriú, balneário nas vizinhanças de Florianópolis. Ficou com Sandra, mas se encontrou secretamente com Gisele que, por ciúmes, acabou armando cena que levou ela e Dionísio para uma delegacia de Polícia. Gisele se deu mal porque estava com um carro sem documentos e ficou detida. E Dionísio sumiu, com Sandra, Rodrigo e os dois filhos menores. Foi para o Espírito Santo e depois para Alagoas, onde acabou preso depois de um assalto a uma agência do Banco ltaú em Aracajú (SE).

2 OS INDÍCIOS DE TUMA

Tuma Jr. anuncia a prisão de Dionísio à imprensa, durante coletiva em 8 de abril de 2002 – Folha Imagem

Quem liga Dionísio ao caso Celso Daniel é Romeu Tuma Jr. Ele era delegado de Polícia Seccional de Taboão da Serra. Município também situado na região Oeste da RMSP, quando o helicóptero com Dionísio desceu por lá e por isso foi o chefe do inquérito sobre sua fuga da prisão. O depoimento de Dionísio para Tuma Jr. após sua captura em Maceió tem seiscentas linhas e nele a ligação do preso com o sequestro e morte de Celso Daniel é indireta e apenas presumida. Nas 25 linhas finais do texto do depoimento, de repente aparece: “Perguntado se namorou alguém em Santo André, respondeu…”. E ar Dionísio disse algumas coisas que têm eventual relação com o caso:

• “acho que conheci pessoalmente o Sombra, o Sérgio Gomes da Silva”;

• que namorou uma tal de Adriana cujo sobrenome ele não recordava direito – ” pode ser Polinese, Pulinese, Poliese, Puliesi, alguma coisa assim” (Adriana Pugliesi é a atual mulher de Sérgio Gomes da Silva);

• que “não sabe nada sobre a morte do prefeito de Santo André” e a seguir faz vários comentários que teria deduzido sobre o caso;

• disse ainda: “O restante que eu sei dessa história, para preservar a minha segurança, eu falo em juízo”. E o depoimento terminou com o tradicional: “E nada mais disse nem lhe foi perguntado”.

É estranho que o delegado Tuma Jr. tenha colocado essas alusões ao caso Celso Daniel dessa forma, ao final do depoimento de Dionísio e de maneira cifrada. Em entrevista a um repórter da revista semanal Carta Capital, publicada no final de novembro, ele disse que fez isso porque estava proibido de tratar do caso de Santo André pela cúpula da Polícia paulista e que, no inquérito, deveria ater-se à fuga de Dionísio. Disse também que acredita até agora que Dionísio não só estava envolvido no caso, como foi ele que matou Celso Daniel.

Essas considerações tornam ainda menos justificável a forma do depoimento. Para ser coerente, Tuma Jr. tinha de tentar desvendar os dois crimes, a um só tempo: para provar que Dionísio tinha sido tirado da prisão para o sequestro de Celso Daniel e que participara do sequestro. A rigor, como adiante se verá, o depoimento extravagante parece ter sido combinado com o delegado, a quem Dionísio teria prometido confessar que havia participado do sequestro e morte de Celso Daniel logo que foi recapturado.

Quem sugeriu essa explicação para a forma do depoimento foi o próprio Tuma Jr., num “Termo de Declarações” que prestou aos promotores de Santo André Roberto Wieder, Amaro Thomé, José Reinaldo e Guilhen Blat em 8 de abril de 2003 na Assembleia Legislativa de São Paulo, para a qual foi eleito no ano anterior. Nesse “Termo”, Tuma Jr. explica primeiro os indícios que o levaram a considerar o envolvimento de Dionísio com o caso Celso Daniel.

Os indícios iniciais “mais sugestivos”. disse ele aos promotores, eram “o pouso [do helicóptero com Dionísio] no Embu” e o fato de uma pesquisa sobre os donos da aeronave ter conduzido “a empresas sediadas na região do ABC”. E a confirmação desses indícios teria sido o fato de o corpo do prefeito ser encontrado naquela mesma região, da Delegacia Seccional de Taboão da Serra. No depoimento, Tuma Jr. citou ainda outros indícios, que teria descoberto nas investigações que levaram, no fim de janeiro, à prisão de Feitosa e Bola, os parceiros na fuga de Dionísio.

Primeiro, ele descobriu a casa onde os dois tinham ficado com Rodrigo, o filho de Dionísio. A casa era de Bola, então com 20 anos e que nela vivia com mulher e filhos pequenos. Lá foram encontrados indícios de que o local fora usado como cativeiro de sequestrados. E Tuma Jr., na ocasião, chegou até a supor que os pelos encontrados num carro estacionado em frente à casa poderiam ser de Celso Daniel (a perícia depois mostrou que eram pelos de gato). Mas o delegado achou também na casa um papel com o timbre da cadeia de restaurantes Rubayat. Como Celso Daniel e Sérgio Gomes da Silva jantaram num Rubayat na noite do dia 18 de janeiro, pouco antes do sequestro, o delegado foi atrás e descobriu que o logotipo do restaurante tinha chegado à casa de Bola através de Carlos Eduardo Costa Marto, que tinha feito um estágio de garçom, de sessenta dias, encerrado em agosto de 2001, no Rubayat da avenida Faria Lima, no bairro do ltaim Bibi (Celso e Sérgio jantaram no Rubayat da alameda Santos, próxima da avenida Paulista).

Tuma Jr. descobriu também que Marto tinha morado uns dias numa pensão de um tio de um secretário da Prefeitura de Santo André, Klinger de Souza. Com base nesses fatos, pediu a prisão preventiva do ex-garçom. E ele se entregou pouco depois das prisões de Bola e Feitosa. Nem Marto, nem Bola, nem Feitosa, no entanto, confirmaram a hipótese de Tuma Jr. de que Dionísio participara da operação de sequestro e morte de Celso Daniel.

Aparentemente, foi um acordo de Tuma Jr. com os promotores que deu ao depoimento de Dionísio o formato estranho que ele assumiu, com o tema mais importante sendo colocado apenas no final e ainda na forma de uma promessa. É o que se depreende da descrição que o delegado fez, no “Termo”, dos contatos que teve com Dionísio após sua prisão. Tuma Jr. disse que Dionísio já chegou de Alagoas falando que “assinaria a bronca do Celso Daniel ” desde que a situação de sua esposa Sandra fosse ” aliviada “. Ao chegar à delegacia de Taboão, Dionísio teria ido além: contou uma versão de sua participação no sequestro do prefeito. No entanto, “o que ele narrava”, disse Tuma Jr. aos promotores, “colidia frontalmente com os indícios coletados”. Tuma Jr. prosseguiu dizendo que acabou fazendo o interrogatório de Dionísio sem introduzir de início qualquer pergunta relativa ao caso Celso Daniel e que, quando as fez, depois de oito horas de interrogatório, Dionísio respondeu a algumas, mas pediu para conversar com sua advogada e, na volta, fez a declaração de que preferia só se manifestar em juízo.

Tuma Jr disse ainda aos promotores que a advogada de Dionísio, Maura Marques, o procurou para dizer que seu cliente “estava disposto a confessar todo o seu envolvimento no caso Celso Daniel”. E que ele iria tomar as declarações de Dionísio posteriormente- mas Tuma Jr. não teve oportunidade de fazer isso, porque o preso foi morto no Centro de Detenção Provisória do bairro paulistano de Belém.

Dionísio foi assassinado por outros detentos no parlatório do CDP, quando falava com sua advogada. Os delegados da Polícia paulista encarregados do inquérito Celso Daniel acham que Tuma Jr. não podia ter enviado Dionísio para o CDP Belém porque se trata de presídio controlado pelos bandidos do PCC (Primeiro Comando da Capital) e ele era do CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade). Quando Dionísio foi morto, o preso que mandou matá-lo, conhecido como Cezinha, fez uma ligação – monitorada pela Polícia – comunicando o fato a uma jornalista da rádio Bandeirantes e assumindo o crime. Tuma Jr. disse que o presídio foi escolhido pelo próprio Dionísio, em acordo com sua advogada Maura Marques. Esta, no entanto, não parece ser boa conselheira nesses assuntos: era a advogada de Fernando Dutra Pinto, que sequestrou em agosto de 2001 Patrícia Abravanel, filha do apresentador de TV Sílvio Santos; e também estava no parlatório do CDP Belém quando seu cliente se sentiu mal e acabou morrendo, em janeiro de 2002.

3 O TESTEMUNHO DE FEITOSA

Ailton Alves Feitosa, 44 anos, está preso na Penitenciária Dr. Paulo Luciano Campos, em Avaré, interior do Estado de São Paulo, estabelecimento considerado de segurança máxima, devido à sua participação no que os promotores de Santo André imaginam que seja o esclarecimento do caso Celso Daniel. Nessa condição, imagina-se que esteja protegido de ataques de outros presos. Feitosa é a principal testemunha dos que sustentam que a morte do prefeito foi um crime encomendado. Em 18 de janeiro de 2004, pouco depois de ter conseguido na Justiça a prisão preventiva de Sérgio Gomes da Silva como mandante do sequestro e assassinato do prefeito, o promotor José Reinaldo Guimarães, considerado o líder da equipe que comandou o processo de denúncia do crime, deu uma entrevista ao Diário do Grande ABC, o principal jornal da região, dizendo que o depoimento de Feitosa era uma das principais evidências do crime.

Na realidade, Feitosa deu seis depoimentos formais: os dois primeiros, em setembro e outubro de 2002, a cinco promotores liderados por José Reinaldo, que foram ouvi-lo na prisão de Franco da Rocha (SP); um no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), em São Paulo, no começo de 2003, num inquérito presidido por um delegado da Polícia paulista, com a presença do grupo de promotores; dois outros aos promotores, um em maio de 2003 e outro em novembro de 2005; e o último, em fevereiro de 2006, na Penitenciária Cabo PM Marcelo Pires da Silva, em ltaí (Município vizinho a Avaré), à delegada Elisabete Sato, titular da 78″ Delegacia de Polícia de São Paulo, encarregada da revisão do inquérito policial sobre a morte de Celso Daniel a partir de meados de 2005.

Quem é Feitosa? Ele disse aos jornalistas, quando foi recapturado pelo delegado Tuma Jr. em janeiro de 2002, que tinha começado sua carreira de bandido “roubando bêbados em Guarulhos”. De fato, foi preso em flagrante por roubo em 1991 naquela cidade e recolhido então à cadeia pública. Mas sua carreira de delitos parece começar antes. Foi acusado de dois homicídios, um em 1987 e outro em 1990. Em 1993 foi acusado por um estupro. E em 2002, por crime de formação de quadrilha.

Na entrevista após sua recaptura, mostrou-se imaginoso e irônico. Apresentou-se como o organizador da operação. Disse que era admirador do famoso José dos Reis Encina, o Escadinha, do Comando Vermelho, que também fugiu de helicóptero, do presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, em 1985. E que tinha resolvido sair “voando” da Parada Neto porque estudou o local e viu que o chão estava sempre muito congestionado.

Dionísio teria sido seu melhor amigo e um “convidado especial” no caso, embora todos os depoimentos dos outros envolvidos digam que ele foi um penetra na história. Dionísio era, inclusive, piloto: trabalhou nessa função em Praia Grande; foi piloto clandestino na Bolívia; e chegou a comandar o helicóptero em trechos na ida de Guarulhos ao Embu, segundo o inquérito do delegado Tuma Jr.

Feitosa disse que a partir de final de abril de 2002 teve vários contatos com os promotores. Contou que chegou a conversar inicialmente com eles “sobre assuntos gerais do sistema penitenciário”. E, finalmente, de modo formal, em setembro resolveu trocar a versão que dera a Tuma Jr. quando foi preso em janeiro, de que a fuga nada tinha a ver com o sequestro de Celso Daniel. Passou então a afirmar exatamente o contrário.

O primeiro depoimento de Feitosa aos promotores, em setembro de 2002, teve uma abundância de detalhes e inúmeras contradições importantes com o que Dionísio deu a Tuma Jr. em abril. Feitosa disse explicitamente que seu suposto amigo “foi retirado do presídio para realizar inúmeras ações criminosas, entre elas tráfico, contrabando de armas e o sequestro e a morte de Celso Daniel”. Disse que a fuga da Parada Neto se deu com o pagamento de “R$ 150 mil aos policiais”, os que ficavam na muralha da penitenciária e não atiraram no helicóptero, e que o dinheiro foi pago “na rua, quase ao mesmo tempo em que se dava a fuga”.

O depoimento contradiz o de Dionísio também porque nele Feitosa disse que foi com Dionísio diretamente para o apartamento de um conjunto habitacional na rua Siderópolis, em Taboão da Serra, onde teria presenciado duas reuniões do amigo com duas pessoas do esquema do sequestro de Celso Daniel (como se viu antes, Dionísio disse que largou Feitosa na casa de uma tia, logo após a fuga, no dia 17 de janeiro e não mais se encontrou com ele). Feitosa disse, inclusive, que Dionísio foi visitá-lo pessoalmente num sítio em Ibiúna, na quarta-feira, 23 de janeiro, para se gabar da operação de assassinato do prefeito.

Feitosa
Feitosa é a principal testemunha dos que sustentam que a morte do prefeito foi um crime encomendado – Folha Imagem

E deu também inúmeros detalhes sobre o esquema do sequestro, que Dionísio teria lhe contado ou que ele ouviu nas duas reuniões: que havia um empresário que colaboraria com a operação; que “tudo estava planejado desde o jantar, horário e trajetos” do prefeito e do empresário; que haveria uma simulação de violência, pois as colisões dos carros dos sequestradores com a Pajero seriam leves; e que o empresário deixaria o dinheiro do pagamento da operação numa bolsa de couro “entre marrom e vinho no banco de trás do veículo”.

No segundo depoimento aos promotores, duas semanas após o primeiro, além de mais detalhes sobre a participação de Dionísio no sequestro, Feitosa reconheceu, nas imagens na tela de computador que os promotores lhe exibiram, “as pessoas de Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro (foto no 01) e Abrão Venâncio (foto no 08)” tendo afirmado, segundo o texto do depoimento, que “são parecidos, porém um deles é a pessoa que de óculos escuro esteve no apartamento tratando com Dionísio sobre o sequestro do prefeito”.

Se fossem verdadeiros esses dois depoimentos de Feitosa, eles abriam caminho tanto para o esclarecimento da fuga da Parada Neto no dia 17, como para a elucidação dos motivos da morte de Celso Daniel. Nesse caso, Dionísio teria sido tirado da penitenciária para a operação de sequestro. E isso teria sido comandado por um empresário ou um grupo de empresários com dinheiro. Pelo menos R$ 150 mil teriam sido gastos apenas no suborno dos guardas da muralha, sem falar na bolsa “entre marrom e vinho” na Pajero com a grana para os sequestradores.

O problema com o testemunho de Feitosa é que a Polícia prendeu Ivan e os outros seis integrantes da quadrilha que participou do sequestro e morte de Celso Daniel e todos confessaram o crime, mas nenhum fez qualquer referência à existência de um mandante. Monstro, inclusive, foi preso na miséria, sem “R$ 50 para carregar um celular”, diz o delegado do DElC (Departamento Estadual de Investigações Criminais) Edison de Santi, que o prendeu. Se tivesse recebido dinheiro pela operação estaria longe com a família e não mais seria visto, disse Monstro a Santi em longa conversa acompanhada por dois jornalistas. No dia da prisão, Monstro “trabalhava” ativamente: tinha nova quadrilha, três sequestrados em cativeiro, entre os quais um menino de 11 anos, pelo qual tinha pedido R$ 300 mil e estava acertando a liberação por R$ 28 mil; e um serralheiro, que não conseguia juntar com os familiares R$ 2 mil e tinha sido brutalmente espancado.

Na outra ponta, os promotores estavam longe também de provar a existência da quadrilha de corruptores que agiria na Prefeitura de Santo André. O empresário Sérgio Gomes e outros suspeitos de constituírem esse bando tinham sido espionados pela Polícia Federal com grampos telef6nicos, ordenados logo após a morte do prefeito e que se estenderam de 24 de janeiro até março de 2002, sem que na escuta tivesse sido encontrado qualquer sinal da ligação com a quadrilha de Ivan. No caso das investigações dos próprios promotores as dificuldades eram imensas, como admitiu um deles, Roberto Wieder, em entrevista a Retrato do BRASI/Reportagem. Em abril de 2002, quando a polícia paulista concluiu que o sequestro e assassinato de Celso Daniel não era o que eles achavam, eles formaram um grupo de quatro para cuidar exclusiva mente dos casos de corrupção em Santo André, diz Wieder. Mais tarde, criaram o Gaerco, a versão regional do Gaeco (Grupo de atuação especial de repressão ao crime organizado), um órgão da promotoria criado em 1995 para atuação direta nas investigações.

Esse procedimento- os promotores atuarem diretamente nas investigações – não é aceito pacificamente, no entanto. Está sendo contestado na Justiça. Há uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contestando a investigação feita por promotores num caso que envolve o deputado estadual Remy Trinta, pelo Maranhão, diz Wieder. Ele acha, porém, que esse processo deve sair da competência do STF por motivos processuais e que o caso de Santo André deve ser escolhido – e além disso aceito – como o precedente para sacramentar as investigações pelo Ministério Público.

Wieder tem clareza de que ele precisa provar a existência da quadrilha de corrupção para provar sua tese. Crime de formação de quadrilha, pela lei, exige a comprovação de pelo menos quatro integrantes do bando. Quem são esses na quadrilha de Santo André? O “núcleo duro”, diz Wieder, de três dos casos de corrupção estudados em contratos daquela Prefeitura, são três pessoas: “o Klinger [de Souza, secretário da Prefeitura de Santo André por ocasião da morte de Celso Daniel], que administrava esses contratos, ele dava vantagens, ele pressionava”; “o Ronan [Maria Pinto, dono de empresas de 6nibus], que obtinha vantagens, e o Sérgio [Gomes da Silva, o amigo de Celso]”. Qual o quarto integrante da quadrilha? Wieder acha que era o próprio Celso Daniel. Ele diz que o prefeito participava da quadrilha “porque ele dava o aval da administração pública”. E acha também que a causa do assassinato dele é o fato de ele ter retirado o aval do esquema de corrupção. “Por que queriam matar o Celso Daniel? ” Ele pergunta e ele mesmo responde: “Porque havia um desarranjo numa quadrilha de corrupção em Santo André”. Celso Daniel, diz ele, ” sabia sim desse esquema de corrupção, concordava com esse esquema de corrupção porque era destinado ao financiamento de campanhas eleitorais do PT. No instante em que ele percebe que a quadrilha que fazia esse esquema estava enriquecendo, estava desviando recursos do partido para o próprio bolso, Celso Daniel começou a tomar medidas contra esse esquema e ele é assassinado”.

Quando vivo, o próprio Celso Daniel foi objeto de denúncia de corrupção, exatamente num dos casos que está sendo investigado agora pela equipe de Wieder. O caso foi encaminhado à Procuradoria Geral da Justiça, que era quem tinha competência para encaminhar a ação pelo fato de tratar-se de um prefeito. Mas esse caso foi arquivado no ano 2000, a pedido do Procurador Geral.

Por que a equipe de Wieder terá maior sucesso agora? Dos contratos que a Prefeitura tem – são milhares – ela trabalha com meia dúzia, relativos às concessões de ônibus, à contratação da coleta de lixo, a uma empresa de fornecimento de mão-de-obra, a multas de trânsito, uma obra, a construção de uma rodovia. Para seis desses casos, os promotores apresentaram denúncia; uma ainda está sendo investigada; duas foram arquivadas; uma foi rejeitada; e três estão sendo apreciadas. O caso das concessões de ônibus, diz Wieder, é o que está mais adiantado. “A gente ofereceu a primeira denúncia em junho de 2002 [mas a denúncia] foi anulada no tribunal, porque não tínhamos ouvido os réus”. “E a gente ouviu”, continua Wieder. A denúncia foi então reapresentada, em fevereiro de 2003. O juiz a aceitou em março de 2005. O processo então começou, com os depoimentos das testemunhas da promotoria. “Falta a gente ouvir a última testemunha de acusação, que está marcado para o dia 13 de fevereiro e ar a gente começa a ouvir as testemunhas de defesa”.

Pelos detalhes desse caso se tem uma ideia das dificuldades na prova da tese dos promotores. Se entendemos bem a história, sendo esse o caso de corrupção que os promotores usariam para denunciar a quadrilha na qual houve um desentendimento e que mandou matar Celso Daniel, seria necessário provar então: 1) que havia a corrupção; 2) que houve o desentendimento; e, 3) que ele tem a ver com a morte de Celso Daniel. É preciso provar as três coisas: não basta provar, por exemplo, que havia uma caixinha dos empresários de ônibus de Santo André para o PT e que de alguma forma a quadrilha que executava essa operação se desentendeu. É preciso provar que esse desentendimento levou à decisão de matar Celso Daniel. Percebe-se, da entrevista de Wieder a Retrato do BRASIU Reportagem, que sua equipe está muito longe de ter uma prova desse tipo. No caso da “caixinha dos ônibus” ele está acusando seis pessoas: os três já citados (Klinger, Ronan e Sérgio) e mais três. Ele diz que esses últimos são empregados de Ronan. Mas isso ele também terá que provar.

Mas, digamos que sua tese seja a que transparece de suas declarações: de que a trinca Klinger, Ronan e Sérgio se desentendeu com o quarto membro da quadrilha, Celso Daniel, e resolveu mandar matá-lo, independentemente do que achassem os outros três membros do bando, visto que eles eram dependentes de Ronan. De que indícios sua equipe tirou essa tese?

Wieder explica que um chefe do bando do PCC, José Márcio Felício, vulgo Geleião, mandou uma carta para os promotores dizendo que “Celso Daniel foi torturado porque os autores do crime queriam um dossiê que estava em poder dele”. Geleião teria sabido disso em conversa com Ivan Monstro. Wieder diz depois que a informação de Geleião foi confirmada porque foi localizado pela família de Celso Daniel um dossiê em seu apartamento. Depois, ele próprio admite que o tal dossiê era de amplo conhecimento público. “Esse dossiê foi entregue para toda a imprensa e ele [Celso Daniel] obteve uma cópia através do Gilberto Carvalho”, que era seu secretário de Comunicação e conseguiu a cópia no Diário do Grande ABC.

Suponhamos, ao contrário de todas as evidências disponíveis, que Celso Daniel tenha sido torturado, entendendo por tortura exatamente isso que Geleião está sugerindo: usar violência contra a pessoa para forçá-la a dar informações. Por que diabos, então, ele foi torturado para entregar um dossiê que era do conhecimento de todo mundo? Em matéria de hipóteses, Wieder parece incansável. Ele diz que seu grupo ficou curioso de saber porque Celso Daniel tinha em sua casa um dossiê que não tinha valor algum. E concluiu: “Era um indício de que depois desse dossiê, Celso Daniel poderia fazer um outro dossiê, de interesse dele”. Só falta ser verdade…

4 UM PASSO ATRÁS, DOIS ADIANTE

No segundo semestre de 2002, os promotores deram um passo bastante sensato: pediram a ajuda da polícia para esclarecer o depoimento de Feitosa. O Ministério Público não tem pessoal, nem em quantidade nem com as qualificações para fazer o papel de polícia como investigar, realizar operações de busca, de captura, infiltração e outras. O Gaerco de Santo André, por exemplo, são duas salas, uma secretária, dois estagiários de direito, além dos três promotores. Desde novembro passado, diz Wieder, tem um agente “que é quem tem alguma capacitação de fazer alguma investigação”. O MP não é, inclusive, como se viu, sequer indiscutivelmente aceito para realizar essas tarefas.

Apelou então para o DHPP, que ficou encarregado em fins de 2002 de fazer um acréscimo aos autos do caso Celso Daniel com uma investigação específica do relacionamento de Dionísio com os supostos mandantes, a partir das declarações de Feitosa. Como este havia dado inúmeros detalhes e citava pelo menos sete pessoas que tinham participado das reuniões nas quais teria ouvido Dionísio combinar o sequestro, parecia relativamente fácil confirmar ou negar seu depoimento.

E o resultado foi devastador para a tese dos promotores. O interrogatório policial foi mais preciso. Feitosa foi perguntado insistentemente sobre os tempos e os locais da reunião de Dionísio com os representantes dos sequestradores. Primeiro, corrigiu depoimento anterior no qual dissera que tinha ido com Dionísio diretamente para o apartamento da rua Siderópolis; admitiu que foi primeiro para a casa da tia de Dionísio, como este havia dito. Nesse local teria ocorrido o primeiro encontro de Dionísio com um representante da turma do sequestro. No dia seguinte, à noite, a partir das 20h30, Dionísio teria tido três encontros no apartamento da Siderópolis. Primeiro, com ele e a turma da fuga -Bola e Rodrigo, filho de Dionísio. Depois, com sua mulher Sandra e o representante dos sequestradores. E meia hora mais tarde, quando esse representante voltou, acompanhado de outro, Dionísio “disse que tinha um plano para sequestrar Celso Daniel”, falou do empresário que colaboraria com a operação e disse do dinheiro a ser encontrado no carro. Depois dessas reuniões, que pelas estimativas que Feitosa faz de algumas de suas partes, devem ter terminado depois das 22h30, Dionísio saiu com a mulher Sandra numa caminhonete branca e os dois da turma do sequestro num Santana azul. Feitosa disse também que depois soube que no Santana foram também “os indivíduos John ou Jonni e Sozinho” (Um dos carros usados no sequestro é um Volkswagen Santana e John e Sozinho são apelidos de dois sequestradores da quadrilha de Monstro).

Wieder
Wieder sabe que ele precisa provar a existência da quadrilha de corrupção para garantir sua tese – Folha Imagem

Dionísio e os outros sequestradores teriam saído do apartamento de Siderópolis para ir ao local do crime, na noite do dia 18, cerca de uma hora antes do sequestro realmente ocorrido, uma operação que durou uns poucos minutos. O Conjunto Habitacional Maria Sampaio, da rua Siderópolis, onde fica o apartamento da suposta reunião, fica em Taboão da Serra, Município vizinho ao extremo Oeste de São Paulo. Os caminhos mais rápidos para se ir dali até a região conhecida como dos Três Tombos, onde Celso Daniel foi sequestrado, diz o motorista que leva o repórter de Retrato do BRASI/Reportagem, passam pela rodovia Régis Bittencourt, que tem pelo menos três postos policiais. E pela Marginal do rio Pinheiros, onde também são frequentes as batidas policiais, diz nosso informante.

Mas, o problema principal das informações de Feitosa não foi nem esse, um planejamento aparentemente estapafúrdio do sequestro, feito na undécima hora, sob a supervisão de um cidadão – Dionísio – cuja foto e cuja proeza recente, a fuga do presídio de helicóptero, eram uma bandeira desfraldada. Foi o fato de que nenhuma das quatro testemunhas da suposta reunião, ouvidas pela polícia, a confirmou. A despeito do golpe, os promotores não desistiram. No dia 8 de abril de 2003, foram buscar apoio junto a Tuma Jr., então deputado estadual, que fez o “Termo de Declarações” já citado e no qual, em essência, reafirmou a convicção que tem até hoje de que Dionísio foi figura-chave na morte de Celso Daniel. No dia 23, foram novamente atrás de Feitosa, que deu novo depoimento: fez uma distinção entre o que Dionísio teria dito na casa da tia no dia 17 de janeiro, quando usou o termo “peixe grande” para se referir à ação do dia seguinte sem citar o nome de Celso Daniel, porque “havia muitos ouvidos”, quatro pessoas, contando ele próprio. E o que Dionísio disse na casa da rua Siderópolis, quando teria citado Celso Daniel expressamente (e, curiosamente, havia “mais ouvidos”, sete pessoas ao todo).

O depoimento de Feitosa continuava sendo muito pouco, portanto. E os promotores continuaram na sua busca. E descobriram o que se tornaria para eles a prova material definitiva que lhes permitiria dar dois passos adiante na denúncia do crime: um cartão. Esse cartão foi encontrado em abril de 2002 por um delegado da equipe de Tuma Jr. durante uma batida no apartamento da rua Siderópolis, onde teria havido a reunião de preparação do sequestro. Na operação, dos dois moradores, Teco e Karina, ele fugiu e ela foi presa.

O delegado apreendeu tudo que encontrou. Um dos materiais apreendidos foi especificado, diz Wieder, como sendo “caixa com quatorze cartões de visita”. No começo de 2003 Tuma Jr. mandou os materiais apreendidos para os promotores de Santo André. E na caixa dos cartões, diz Wieder, o promotor Amaro Thomé localizou um cartão da Ótica Gomes no verso do qual estavam escritos dois números telefônicos, sendo um deles identificado com o Bar do Gabriel, ponto conhecido da Favela do Pantanal, e o outro ligado a um nome: Itamar.

As anotações, uma perícia provou depois, diz Wieder, tinham sido feitas por Karina em 21 de janeiro, que admitiu o fato e explicou que levou o cartão e uma caneta e registrou os telefones e o nome Itamar a pedido de Teco, que estava num orelhão, na rua, e a chamou, depois de atender o chamado de uma mulher que lhe pedia para avisar o garçom Marte- o tal ex-estagiário do Rubayat da avenida Faria Lima. Wieder disse a Retrato do BRASI/Reportagem que, quando Marte e Karina depuseram, disseram não saber de nada, não explicaram qual era a história.

O que prova o cartão? Ele provaria que uma mulher da Favela Pantanal conhecia Marto ou alguém no endereço de Siderópolis e lhe disse que, se precisasse, deveria procurar Itamar. O delegado Armando Costa, o comandante da investigação realizada pela polícia paulista, diz: naqueles dias, o Itamar que pertencia à quadrilha de Monstro era a última pessoa a poder oferecer ajuda a alguém. Ele havia fugido para a Bahia, onde tinha parentes, e de onde voltava quando foi preso em Aparecida do Norte (SP). A Favela Pantanal estava sendo devassada pelos policiais. No dia 8 de março, inclusive, 1.200 homens fizeram uma batida monstro na área, para a qual foi conseguido um inédito “mandado de busca coletivo” que permitiu invadir qualquer casebre. Um jornal disse que foi “a maior blitz da história da polícia brasileira”. Ao testemunho de Feitosa e a essa prova material, os promotores acrescentaram vários fatos mal explicados. Diversos deles são relativos às ações de Sérgio Gomes da Silva durante o sequestro. A delegada Elisabete Sato, que foi escalada pela cúpula da polícia paulista em meados de 2005 para reabrir a investigação policial e repassar todo o caso- e que teve amplo apoio dos promotores de Santo André e dos irmãos da vítima- conclui no final de setembro passado o seu reexame da história. Suas duas conclusões principais:

1) “Os testemunhos trazidos aos procedimentos nesta segunda fase ratificaram as participações dos indivíduos indiciados no primeiro inquérito policial, alguns deles trouxeram uma suspeita aqui ou acolá sobre eventual crime político; todavia, suspeita sem a devida prova equivale a quase nada”.

2) “Assim, decorrido um ano desde a reabertura das investigações em torno do sequestro e morte violenta do, à época, prefeito Celso Daniel, passado o período da efervescência investigativa que suspeitava de crime político, tese defendida pelo Ministério Público de Santo André e os irmãos da vítima, o certo é que estes dois últimos, quer seja na CPI dos Bingos, quer seja em sede de inquérito policial, qualquer indício que redundasse em prova que pudesse dar sustentação à suspeita, bem como a voracidade do Gaerco de Santo André sucumbiu diante da não demonstração de outras provas”.

Os promotores conseguiram prender, no dia 12 de dezembro de 2003, Sérgio Gomes da Silva como integrante da quadrilha de corrupção que agiria na Prefeitura de Santo André e como mandante da ação do sequestro e morte do prefeito. Mas, não por força de suas provas. Pode-se dizer que essa, que é a operação mais bem-sucedida dos promotores até agora, veio do apoio que tiveram, especialmente o da mídia. E um dos grandes feitos da mídia foi o de transformar o irmão mais velho de Celso Daniel no representante da família para a opinião pública.

5 IVONE, JOÃO E SÉRGIO

Ivone
lvone, companheira de Celso – Tânia Caliari

João Francisco Daniel frequentou as manchetes dos jornais ao longo dos últimos cinco anos em função da posição que tomou no caso, de ser um dos primeiros a denunciar abertamente que a morte de seu irmão foi planejada pelos participantes de um esquema ligado ao Partido dos Trabalhadores. O relatório da polícia paulista dizendo que se tratava de um crime comum saiu em abril, menos de três meses após a morte de Celso Daniel. E já em maio, João Francisco deu um depoimento aos promotores dizendo que Míriam Belchior (ex-mulher de Celso Daniel) e Gilberto Carvalho tinham lhe falado de um esquema de propinas na Prefeitura de Santo André, por meio do qual era recolhido dinheiro para o PT, entregue ao então presidente do partido, José Dirceu.

Míriam, Gilberto e Dirceu desmentiram a história, sem igual repercussão na mídia. “Celso se rebelou e foi morto”, foi a manchete da Folha de S. Paulo, para a entrevista de João Francisco, publicada em 20 de junho de 2002. “Foi queima de arquivo”, foi a manchete do Diário do Grande ABC para outra entrevista do irmão de Celso, na mesma época. Ainda em junho, a Câmara de Vereadores de Santo André abriu uma “CPI da propina”, para apurar as denúncias. Essa investigação também iria render manchetes nos jornais até seu encerramento em outubro.

Até a missa de sétimo dia pela morte de Celso Daniel, realizada na igreja dos padres dominicanos, no bairro de Perdizes, em São Paulo, a família Daniel ainda não havia se transformado apenas em João Francisco, para a mídia. Na foto do evento lá estão de mãos dadas o então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o vice-prefeito, que assumiu a Prefeitura de Santo André, João Avamileno; a mãe, as duas irmãs e Bruno Daniel, irmão mais novo de Celso. Não aparecem na foto nem lvone Santana, que era a companheira de Celso Daniel, nem João Francisco, que, pode-se dizer, se transformaram nos dois polos opostos da família de Celso para efeitos da imprensa.

A missa de sétimo dia pela morte de Celso Daniel
A missa de sétimo dia pela morte de Celso Daniel

João tornou-se o denunciante intrépido de um crime. lvone tornou-se a mulher não-oficial- gravações secretas de suas conversas telefônicas com petistas, divulgadas habilmente pela mídia, tentaram mostrar que não tinha, sequer, o respeito devido à memória do morto.

Curiosamente, foi lvone que tentou aproximar os irmãos Celso e João. lvone era a companheira de fato de Celso Daniel, embora não vivessem na mesma casa. Namoravam desde 1996, depois que Celso se separou de Míriam Belchior (hoje secretária da Casa Civil do governo Lula) e que lvone terminou seu segundo casamento. A família Daniel descende de imigrantes italianos da região de Nápoles, que chegaram ao Brasil com o sobrenome Danielle. lvone, filha de migrantes da Paraíba, acabou organizando uma viagem dela, Celso e do irmão João Francisco à Itália, em 2001.

João Francisco tinha 18 anos quando seu pai morreu, em 1969. Enfrentou dificuldades financeiras para estudar medicina em Santos. Celso e o irmão mais novo, Bruno, formaram- se em engenharia e seguiram a vida acadêmica. Celso foi fundador do PT em 1980. Bruno tem experiência em administração pública. Sua mulher, Mariela Nacano, foi secretária de Educação no primeiro mandato de Celso Daniel (1990-1994) e foi demitida por apoiar uma greve de professores municipais. Vem daí o rompimento de Bruno com o irmão prefeito.

– Folha Imagem

João Francisco nunca apoiou o Partido dos Trabalhadores e muito menos a trajetória do irmão. Há inúmeras evidências de que João intercedeu junto à Prefeitura de Santo André, administrada pelo irmão, em defesa dos interesses de um empresário de ônibus amigo seu, Luiz Alberto Gabrilli Filho. Em seu depoimento na CPI dos Bingos, Klinger de Souza, o secretário da Prefeitura que cuidava das concessões de ônibus, disse que a empresa dos Gabrilli desrespeitou por três vezes prazos para entrega de obras que eram contrapartidas em licitações ganhas. E que em duas ocasiões João Francisco procurou o prefeito para interceder a favor da empresa. Klinger disse também que em meados de 2001 Celso Daniel o procurou para que ele atendesse seu irmão, que solicitava mais um favor em nome dos Gabrilli. E que foi à casa de João Francisco para tratar do assunto.

A essa altura a relação entre a Prefeitura e a concessionária já era tensa. “Quando fomos fazer o terceiro termo aditivo, o terceiro, ou seja, postergar pela terceira vez prazos, conceder isenções de pagamento de taxas pela terceira vez consecutiva, eu disse: ‘Prefeito, nós estamos no limite da irresponsabilidade nesse contrato’. (…) Aí o Prefeito determinou: façamos essa última vez, determine à EPT para fazer um diligenciamento explicito. Vamos acompanhar agora, mês a mês, o cumprimento dessas metas, vamos ser duros com eles porque é a última e definitiva vez. E eu vou falar isso para o meu irmão. Dessa feita, ele disse que falaria com o irmão- não me pediu que falasse que era a última oportunidade da empresa”.

Segundo Klinger, na semana que antecedeu a morte de Celso Daniel, Rosângela Gabrilli tentou um novo adiamento para cumprir seus contratos. Dessa vez, Klinger foi duro com ela: “Olha, Rosângela, você me perdoa, mas não tem mais jeito. Não vai ter irmão de Prefeito, não vai ter Prefeito, não vai ter nada agora que vá salvar você. Se você não cumprir esse contrato em abril, nós vamos denunciar o contrato, porque nós já fizemos o que deveria ser feito”, contou Klinger aos senadores da CPI. Esse depoimento não teve praticamente nenhuma repercussão, no entanto.

Foi João Francisco também um dos principais divulgadores da tese de que Celso Daniel foi torturado brutalmente para revelar o paradeiro do tal dossiê já citado. E foi ele também que foi à casa de Celso e divulgou, como se fosse um grande escândalo, a existência desse dossiê que todo mundo já conhecia.

A mídia, de fato, teve grande papel no sentido de definir quem representava o bem e quem representava o mal nessa história mal contada. E o exemplo mais marcante disso é o da prisão de Sérgio Gomes da Silva em dezembro de 2003. Na semana encerrada no sábado 29 de novembro, os promotores anteciparam à revista Veja que saiu naquela data a informação de que pediriam a prisão preventiva do empresário. A revista noticiou o fato com destaque, em duas páginas. No texto, Feitosa é citado como tendo dito que a fuga de Dionísio da Penitenciária Parada Neto tinha “um único objetivo: a operação de morte de Celso Daniel”.

No dia 2 de dezembro, Lílian Christofoletti, em extenso artigo publicado na Folha de S. Paulo, disse que os promotores de Santo André achavam que já tinham provas para condenar Sérgio Gomes. No dia 5, o Diário do Grande ABC. citando os promotores, disse em artigo de página inteira que Dionisio “foi o contato” entre Sérgio e “o bando que matou Celso”.

No mesmo dia 5, os promotores entregam ao juiz Luiz Fernando Miglioni a denúncia contra Sérgio Gomes, com o pedido de sua prisão preventiva, e concederam entrevista coletiva que saiu com destaque em todos os maiores jornais. No dia 1 O, o juiz despacha a favor da prisão preventiva do empresário, argumentando que ele demonstrou “insensibilidade e frieza” e que “se evidencia uma real comoção popular, com repercussão nacional”.

Para completar o espetáculo, no dia 13 de dezembro, a Folha publicou longa entrevista de Feitosa, “a testemunha-chave do Ministério Público”, concedida no presidia onde ele estava.