Essa seção traz retratos inspirados

Adriana do Amaral

Adriana do Amaral é jornalista e tem compulsão pela escrita. Qualquer flagrante a provoca, qualquer indignação a leva ao teclado. Abaixo, um série de seus retratos. Linkedin da Adriana


Encontrei Messias pelo caminho. Ele estava alí, pertinho de mim. Estava só, carregando sua cruz: uma caixa de sapateiro, estômago vazio e um sonho na cabeça. Por ironia do destino, o sapateiro calça sapatos que não cabem nos pés machucados pela jornada. Aquele que faz o couro brilhar veste o seu feito mule, com os calcanhares expostos. Messias é cidadão em situação de rua e sobrevive de uma profissão rara. Vocês precisavam ver as minhas botas antes e depois de engraxadas! Chamou a minha atenção um detalhe: a garrafinha com água para o lustre final. Lembro-me da época que uma cusparada resolvia o problema. Encontrei Messias próximo de casa e com a troca de olhares perguntei o valor do seu trabalho. Na minha incerteza ele disse que custava uma latinha de graxa. Quanta lição aprendi, então… Impecavelmente vestido, ele estava em jejum, e por falta de alimentos e frio acordou com braços e pernas dormentes. Durante a prosa contou-me do sonho de comprar uma cadeira de engraxar para trabalhar fixo numa região nobre e ganhar o dinheiro para o sustento. Enquanto ele brilhava eu olhava para os pés dos transeuntes: todos calçando tênis. Quem contrata “uma graxa” pisando plástico? Passo mais tarde e Messias dorme na calçada, mas foi foi expulso pela chuva. Molhou tudo. #dignidadeaopovodarua


Sebastião tem 76 anos. Sebastião tem 76 anos e mora na principal cidade do Brasil: São Paulo. Sebastião tem 76 anos, mora em São Paulo e é #aposentado. Sebastião tem 76 anos, mora em São Paulo, é aposentado e trabalha como carroceiro. Sebastião tem 76 anos, mora em São Paulo, é aposentado, trabalha como carroceiro e recicla para complementar a renda. Sebastião é o #idoso brasileiro e tem sorte por ser saudável, lúcido e não depender do Estado para sobreviver! Encontrei o trabalhador bem antes de o horário comercial, nesta terça-feira, dia em que o Congresso Nacional votará #MP905, que pretende precarizar ainda mais as relações trabalhistas. Também, pode regulamentar o aumento do teto (veto 55) para concessão do #BenefíciodePrestaçãoContinuada. Conversar com Sebastião foi uma alegria! “A subida é dura, mas a carroça é de madeira, não pesa”, ouvi cansada só de pensar… Ele conta que já foi atropelado e me mostra a cicatriz na clavícula. O motorista fugiu sem prestar socorro e continua impune. Sebastião é de uma elegância nas vestes, na fala, na postura. Contou-me que trabalha durante as manhãs e depois volta para casa. Faz um dinheirinho certo, daqueles que muita gente deixa de gorgeta. Despeço-me desejando que a carga pese na balança, não nas suas costas, Sebastião!


Clarissa vive numa casinha lilás: uma palafita construída nas margens do rio Pará. No restaurante da família só se chega de barco e as refeições são servidas em meio à floresta, onde os vizinhos vivem do extrativismo do açaí… Ela me permitiu conhecer o seu quintal. Lugar onde os macacos e araras brincam livres! #gentedeBelémdoPará


Miguel Blanco é artista de rua. Por inspiração e necessidade. Aos 80 anos ele trabalhou 50, em dez profissões diferentes. Compôs esta canção sob encomenda para um homem que queria reconquistar sua amada. “Ele chorou quando ouviu pela primeira vez”, contou-me dizendo que perdeu as contas do número de composições.
Não sei porquê, me remeteu “as tais fotografias”, de Caetano… Talvez por conter amor, dor, beleza, nudez, solidão, saudades… Lembrou-me do meu amor, que tem nas fotografias sua lida e arte!
Não consegui classificar o gênero, pois tem acordes de sertanejo, sofrência, brega, romântico e um quê de calipso na voz!
#artederua #artistaderua Eu respeito.


Isabela produz filtros, ou seria peneira ou  ralo, para coar açaí. Ela faz os furos manualmente, um a um, com um prego numa base de alumínio. Isto durante o dia e tarde, quando “fabrica” trinta destes. À noite, estuda administração.  Coisas de Belém do Pará… #omelhordeviajaréconheceropovodolugar


Hoje eu conheci John Lenon. Ele mora numa ilha da fantasia que me faz Imaginar, “like a dreamer”… Mas o meu ídolo não conhece The Beatles e gosta mesmo de MPB. Como “o tempo está mexendo com a gente” preferi não perguntar se ele conhece Belchior. Homem da ilha, ensino médio completo, não quer sair do lugar onde nasceu. O melhor anfitrião que já conheci, com direito a rede e água de coco free. #gentedaamazonia