A Paz Insustentável

Por Tânia Caliari

Palestinos queimam bandeira de Israel durante Intifada (Foto: Osama Silwad)

O Acordo de Oslo entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina, de 1993, sinalizava uma nítida perspectiva de paz no Oriente Médio. No entanto, a poucos meses do anúncio do Estado da Palestina, praticamente 95% do novo país continuava ocupado por Israel e o povo palestino vivia um dia-a-dia de humilhações, restrições e violência

Para se chegar à atual Palestina passa-se obrigatoriamente por Israel, que controla a região: embora os Acordos de Oslo tenham dado alguma autonomia à Autoridade Nacional Palestina, chefiada por Yasser Arafat, o controle completo dos palestinos sobre as terras da Cisjordânia e da Faixa de Gaza não se estendia, em 1999, a mais do que nove cidades, menos de cinco por cento da área já diminuta dos chamados Territórios Ocupados.

Telaviv, no litoral mediterrâneo, é uma cidade industrial e um centro tecnológico. Serve como sede administrativa do Estado de Israel. Lá estão também quase todas as embaixadas estrangeiras, mas Israel colocou seu Knesset, o parlamento, em Jerusalém, cidade que considera a “eterna e indivisível capital dos judeus”. Ainda assim, a maioria dos países respeita Jerusalém como território internacional, como definiu a ONU ainda em 1947: local sagrado para vários povos e religiões.

Jerusalém são praticamente três cidades: uma cidade nova, de estilo europeu; a Cidade Velha, murada, única; e Jerusalém leste, onde ficam os árabes. Na cidade há uma tensão religiosa de fundo político. Judeus expressam sua ortodoxia através de suas roupas. As mulheres palestinas usam o véu muçulmano e os homens mantêm o vestuário árabe tradicional. Um dos portões da cidade velha está crivado de balas da guerra de 1967, ocasião em que Israel tomou militarmente a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, além de ocupar Jerusalém, até ali sob controle jordaniano.

Muralhas da cidade velha de Jerusalém (Foto: Tânia Caliari)

Não há nenhuma interação entre as comunidades palestina e judaica em Jerusalém, afora o trabalho de algumas ONGs. Além de palestinos e judeus, há ainda os cristãos, com caravanas de peregrinos pelos locais santos da cidade velha e com seus sacerdotes vestidos ou à moda greco-ortoxa ou à apostólica romana. Esta reportagem é dedicada aos palestinos, a relatar como vivem após o Acordo de Oslo. Apesar de ter um pouco de noção dos problemas criados por esse tratado de paz, imaginava, sob influência do noticiário internacional, que “ser contra Oslo era ser contra a paz”. Mas há quem pense diferente.

O intelectual palestino Edward Said compara a aceitação inevitável de Oslo como solução do conflito Israel-palestino com o consenso formado em torno da globalização e da economia de mercado nos quatro cantos do mundo. Para Said, o que pode ajudar um povo pobre a fazer frente a esses projetos assumidos como únicos é o “fator humano e cultural”. Mesmo que esses valores estejam subvalorizados nos corações e mentes da atualidade, a conscientização individual e coletiva sobre o direito à vida e à autodeterminação é que pode proporcionar alguma mudança no mundo. Se há algum fator com o qual os palestinos podem enfrentar Israel é, de fato, o aspecto moral. Militar e economicamente, eles estão em desvantagem evidente. Mas podem demonstrar, como fez a Intifada, a revolta popular palestina de 1987-1993, a “imoralidade” da ocupação israelense.

Said se inspira na resistência dos negros e na história da África do Sul em que os militantes anti-apartheid derrubaram a minoria branca dominante de seu país expondo ao mundo a vergonha que era o regime de segregação racial. O intelectual teme que a passagem da questão palestina para a arena da grande política internacional,  sob a tutela de partes poderosas que costuraram o Acordo de Oslo, coloque a perder o protagonismo da mobilização popular nos Territórios Ocupados e o apelo moral da causa. Para Said, não há outro caminho senão voltar a atenção da opinião pública mundial para questões concretas cotidianas do povo palestino ainda sob ocupação israelense. Expor a humilhação nas barreiras das estradas, na demolição de casas, no corte das oliveiras como castigo coletivo, no confisco de terras e crescimento dos assentamentos judeus, na apreensão no dia-a-dia das pessoas que vivem na Palestina pós-Oslo.

Mapa do plano de 1947 da ONU para a divisão da Palestina em dois estados, com destaque das vilas e cidades de onde os palestinos fugiram diante do avanço dos israelenses na guerra de 1948 (Arte: Orleans Faria)
Divisão da Palestina em 1999, com destaque dos assentamentos judeus que crescem no território palestino da Cisjordânia (Arte: Orleans Faria)

Antes mesmo de ler os textos de Said sobre o assunto, percebi como os aspectos humanos estão submersos nas notícias do conflito palestino-israelense. Por meio dos jornais, não conseguimos nem mesmo imaginar como seja o palestino médio e vagamente distinguimos seu sofrimento em meio aos relatos de conflitos e das negociações políticas. Assim, era necessário ver a Palestina de perto, no cotidiano das pessoas comuns. O primeiro palestino que encontrei ao chegar em Jerusalém foi um rapaz fino, um pouco pretensioso, de nome Abdulsalam Feya Abdulsalam Rezek Yatan Mohamed Kamal Ahmed Jaber Mohamed Alal Laith Abdulative Faisal Ahmed lbrahim Ziad lmad Hassan. Para nós, Abdul Nagib.

Um fino rapaz

Abdul Nagib: taxi driver em Jerusalém (Foto: Tânia Caliari)

“Eu nunca poderia fazer pequenos trabalhos como lavar pratos ou coisa assim, mesmo se eu estivesse morrendo de fome! Não posso fazer nada, foi dessa maneira que fui criado … E agora estou aqui dirigindo um taxi!”. Abdul Nagib fala indignado de sua situação. Antes da criação do Estado de Israel, em 1948, ele conta, duas famílias palestinas dividiam grande parte das propriedades e poder em Jerusalém, a sua – Nagib, e os Hussein. Ainda hoje, muitas áreas de Jerusalém Leste, o lado árabe da cidade de 3.000 anos e 610 mil habitantes, pertencem aos Nagib e aos Hussein. No passado os dois clãs brigavam com selvageria por hegemonia política ou pequenas questões. Mas, segundo Abdul, suas lideranças nunca sujavam suas mãos e traziam gente modesta de Hebron, mais ao sul, ou das periferias, para fazer trabalhos sujos de intimidação e vingança. Estávamos em um restaurante de comida árabe-mediterrânea em Jaffa, antigo porto árabe hoje em território israelenses, ao norte de Tel Aviv. Abdul havia trazido sua mulher, dois filhos, sua mãe e eu para um passeio, tomando emprestado do patrão o taxi que dirige em Jerusalém. Magro, alto, meio alourado, 32 anos, o rapaz havia me mostrado a árvore genealógica da família, provando sua ascendência nobre. A frondosa árvore desenhada num quadro tem frutos com os nomes dos varões nascidos durante quatro séculos. A origem é um nobre local do Império turco-otomano. No tronco, seus doze filhos, de onde saem galhos e frutos a partir do nome de seus primogênitos. É daí que vêm os 19 nomes de Abdul. “Você vai acumulando os nomes dos antepassados para garantir a consciência de sua origem’, diz’.

Abdul Nagib, apesar de estar na pior, ainda tem tios e primos riquíssimos. Alguns deles tiveram casas desapropriadas recentemente pelo Estado de Israel. E ele mesmo não é um palestino qualquer: tem o status de cidadão de Jerusalém reconhecido por Israel, o que lhe dá direitos, como o consentimento para viajar e trabalhar em Israel sem a autorização específica exigida dos moradores da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Abdul é casado com Tamara, prima meio distante por parte de mãe que foi buscar na Jordânia. Buscar é o termo apropriado. Foi seu pai quem o instruiu a escolher Tamara e tratou o casamento. Alguns valores mudaram na sociedade palestina, outros permanecem. O costume de casamento entre primos continua. Se Tamara não quisesse se casar com ele, ninguém a obrigaria, dizem. Afinal, havia vivido em Los Angeles (EUA), fala bem inglês, foi secretária de uma multinacional em Amã, capital da Jordânia. Tamara pinta mechas vermelhas no cabelo e se veste como qualquer ocidental -estava com calça fuzô, tênis e camisão. Ri quando eu digo que pensava que toda palestina usava o xale escondendo os cabelos. A mãe de Abdul, Nifuz, da familia Jahud, também tradicional em Jerusalém, mostra seus álbuns de fotografia. Nas fotos dos anos 60 as mulheres estão de óculos escuros de gatinha e saias para cima do joelho. As moças Jahud jamais haviam usado véus cobrindo os cabelos. Nessa época, viviam em Jerusalém, ocupada pela Jordânia até 1967. Nifuz se lembra da guerra de 67 que levou à ocupação dos territórios por Israel, dos aviões, dos bombardeios e explosões: “Bum, bum, bum!”, exclama. Lembra também de 1948, da guerra de Independência de Israel, ou Nakba, para os palestinos, que significa catástrofe em árabe, quando centenas de milhares de palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas, terras, aldeias e cidades. Tinha 8 anos. Os palestinos em geral migraram aos milhares, se estabelecendo em campos de refugiados provisórios em outros países árabes. Os Jahud também migraram para a Jordânia, mas sendo elite, fez parte da administração do país, onde o rei Abdullah Hussein teve seu trono garantido pelo Reino Unido. De volta a Jerusalém, Nifuz casou-se com Feya Nagib, detetive da polícia jordaniana.

Nifuz, com seus netos Lice e Feya: os israelenses são os Power Rangers (Foto: Tânia Caliari)

Nifuz garante que, antes da Nakba, judeus, muçulmanos e cristãos, árabes ou não, viviam em perfeita paz, eram amigos e se frequentavam. “De uma hora para outra, os vizinhos se estranharam e a paz não foi mais possível”. Nifuz idealiza o mundo palestino anterior a 1948.  “Todo mundo trabalhava e não havia fome. Havia boa educação para a elite e todo rapaz de boa família fazia um curso superior. As moças estudavam para ser professoras”. Isso era o que acontecia com parte dos palestinos, provavelmente. Seu marido e seus filhos estudaram no colégio privado cristão St. George, em Jerusalém Leste. Hoje seus netos também estudam lá. “E agora todo tempo é guerra! Os israelenses são como os Power Ranger”, diz a velha palestina vendo seu neto brincar com os bonecos do seriado japonês de super heróis também popular no Brasil. Nifuz tem lá sua fé no profeta Mohamad, em Moisés, na virgem Maria e em Jesus. Acredita que a Palestina deveria ser a terra da paz, pois ali Deus fez surgir três grandes religiões.

A família de Abdul me ajudou a conhecer a Palestina. Andei também sozinha, e muito. Depois de ter carimbado minha credencial de jornalista em Israel, fui a Ramallah obter meu visto de repórter com os palestinos. Ramallah, ao norte de Jerusalém, não é a maior cidade autônoma palestina. Na cidade mesmo, a população não chega a 20 mil, comparados com os 120 mil habitantes de Hebron, ao sul. No entanto, é em Ramallah que está a maioria dos Ministérios do futuro Estado palestino, onde atuam muitas ONGs internacionais e por onde passa a maior influência do Ocidente. O tempo de viagem de Jerusalém a Ramallah é cerca de meia hora. Não há barreiras, torre, soldados armados, ou checagem da documentação de passageiros na viagem de ida. Na volta, sim. A lógica é: “Se você quer ir para Ramallah, problema seu. Se você quer entrar em Jerusalém, problema nosso: documentos!”.

Comparada aos padrões ocidentais de Tel Aviv e parte de Jerusalém, Ramallah é um mundo diferente, aparentemente mais caótico. O centro da cidade tem um jeito de bazar: muita gente, muito barulho, visualmente é tudo diverso, roupas, arquitetura, vitrines. A estranheza poderia ter gerado algum medo ou desconforto. No entanto, tive uma sensação de proximidade, de acolhimento na cidade. Ao entregar minha carteirinha de repórter, o funcionário Abdul Sahlem, do Ministério da Informação, diz emocionado que sou a primeira jornalista brasileira a ter uma credencial concedida pela Autoridade Nacional Palestina.

Credencial do Ministério da Informação da Autoridade Palestina

Mudanças na sociedade

Quem é o palestino? De perto ninguém é normal, sabe-se. Tudo ganha uma complexidade que vai demolindo generalizações e o senso comum. Não achei entre as pessoas que ia encontrando estereótipo dos guerreiros mobilizados contra a ocupação israelense ou de sanguinários terroristas. A população palestina é dividida, como qualquer outra. Em particular, ela vive o momento pós-Acordo de Oslo que, se por um lado reconheceu seu direito a um Estado Nacional, por outro lado impôs o refluxo de uma grande luta de resistência, que havia exigido enorme coesão da população. Por isso, agora, com a perspectiva da organização do Estado, chegada de novos investimentos e oportunidades de negócios, cada um está buscando cuidar de sua própria vida. O coletivo na época da Intifada parece posto de lado.

Observei o jeito de se vestir, sobretudo das mulheres, para especular o que estaria acontecendo na sociedade. Mocinhas cobrindo os cabelos com um véu, mocinhas usando jeans justo, mocinhas de jeans e véu. Saias longas sempre, jamais nos joelhos como foram antigamente. Senhoras mais velhas com os longos vestidos tradicionais, enfeitados com coloridos bordados típicos de ponto cruz, trabalho que é orgulho nacional. Mulheres com véu e jihab, espécie de capa longa que vestem sobre a roupa para sair de casa. Muitas mulheres, mesmo as de véu, usam maquiagem nos olhos e batom forte. Há as garotas de jeans e camiseta, simplesmente. Nenhum rapaz usa mais a kafia, o pano branco ou quadriculado sobre a cabeça, que permanece, porém, entre os homens de meia idade e velhos.

População de Ramallah, em plena transformação (Foto: Tânia Caliari)

“Essa tradição está acabando, não é religiosa. Foi criada para mostrar a vergonha da retirada dos árabes, após a derrota dos mouros na Espanha”, conta um senhor lembrando a vitória sobre os árabes na Península Ibérica pouco antes da descoberta da América por Cristóvão Colombo (1492). Os rapazes palestinos usam sim gel no cabelo, óculos lupa. E muitos se vestem como norte-americanos. “Como os negros norte-americanos”, corrige uma moça palestina. ”Esse estilo com camisetas largas de times de basquete, calças no tornozelo e boné virado é usado pelos filhos dos palestinos que um dia migraram para os EUA e trouxeram essa moda. Lá eles viviam perto das comunidades negras, na periferia”. Há os rapazes mais tradicionais e simples. Há os trabalhadores com blusas de cor berrante e alguns poucos engravatados. Há os que mantêm a tradição da sandália de couro no verão.

O cardápio das lanchonetes também reflete a mistura. O faláfel, o bolinho de grão de bico moído que serve de recheio a deliciosos sanduíches de pão árabe, ainda é a preferência nacional, mas o hamburguer chegou, a batata frita tem saída garantida e tem coca-cola para todo mundo. Hakam Jadallah, um jovem estudante que se tornou um amigo e uma espécie de guia para essa reportagem, insiste em comer no Checkers, o fast food da cidade. Vou questionando sua posição, provocando: “Mas você é um vendido, Hakam. Gosta dessas coisas americanas, de camiseta Nike … E por que não usa a kafia? Daqui uns anos nem vai existir mais, vão perder as características árabes ” Hakam se defende: não come hamburguer todo dia, a camiseta Nike foi um presente e, se eu lhe mandar uma do Brasil, ele vai usar também.

A praça AI Manara, a principal de Ramallah, não passa de uma rotatória que acumula papéis jogados no chão e poluição visual com outdoors vendendo cigarro Malboro e sabão em pó Ariel. A publicidade do sabão chama a atenção por suas modelos: duas mulheres de meia idade, com véus cobrindo os cabelos, sorriem mostrando o produto. Uma delas tem uma falha nos dentes da frente. Ali os publicitários não apelaram para mulheres jovens e bonitas para vender sabão, como os anúncios no Brasil, uma concessão à dona de casa tradicional em meio à transição socio-cultural e política pelo qual está passando a sociedade palestina.

Praça Al Manara, no centro de Ramallah (Foto: Tânia Caliari)

O professor Sharif Kanaana, sociólogo da Universidade de Birzeit, a mais importante da Palestina, analisa as observações que tirei das ruas. “Ter os Estados Unidos como referência é uma coisa que está acontecendo em todos os países do terceiro mundo, particularmente no mundo árabe, e mais ainda entre os palestinos. Estamos vivendo entre nossas tradições e culturas e o Ocidente. E há o que eu chamaria de ambivalência sobre o que é melhor para nós, sobre qual caminho deveríamos seguir. É claro que seria melhor ter uma postura equilibrada, mas nem sempre é possível. O povo está confuso. A razão dessa confusão é que o Ocidente é tão poderoso que queremos imitá-lo. É como se sentíssemos que eles devem estar fazendo alguma coisa certa e que nós devemos estar fazendo alguma coisa errada. Tentamos identificar todos os dias o que poderia estar errado para deixar para trás. E qual é o segredo do Ocidente? É sua atitude? Seu comportamento? Suas roupas? Tentamos perseguir isso, e começamos a ficar confusos.” No momento a influência americana aumentava também graças a muitas famílias que migraram para os EUA depois da ocupação israelense e que voltavam agora com seus dólares e estilo de vida ocidentalizado para a construção do Estado Palestino.

A essa interpretação do professor Kanaana é preciso acrescentar a crítica de Edward Said às polarizações radicais -ocidente/oriente, nós/eles -, usadas para interpretar o mundo. Elas nos remetem ao risco de aceitar uma identidade estática, de culturas totalmente separadas e monolíticas que um belo dia se chocam causando o caos. Como se cada indivíduo não trouxesse em si o caos do processo de sua própria formação. E a todo esse conflito de ideias e a todas essas mudanças, é preciso acrescentar o passado de guerras e a tensão religiosa que deixaram profundas marcas na região. Para entender melhor esse conflito, vale uma visita a Hebron, ao sul de Jerusalém.

Tensão em Hebron

Em Hebron, o conflito judeu-muçulmano precede a criação do Estado de Israel. Em 1929, muçulmanos mataram 68 membros da comunidade judaica da cidade, a maioria velhos, mulheres e crianças, durante um levante árabe contra os ingleses que dominavam a região. Outro levante árabe em 1936 acabou por expulsar todos os judeus da cidade. Em 1948, Hebron passou para o domínio jordaniano e, em 1967, como toda a Cisjordânia, caiu sob ocupação israelenses. Em 1968, uns poucos judeus começaram a voltar e formar seus assentamentos, como são chamados os conjuntos de casas que abrigam colonos judeus em terras palestinas, na área da cidade velha Hoje são cerca de 500 colonos entre 120 mil palestinos. A tensão é grande. Cerca de 2 mil soldados protegem os israelenses, em sua maioria, judeus ortodoxos. Hakam me leva a ver a rua dos moradores israelenses, com soldados em sua entrada e saída e também sobre os telhados dos edifícios de três andares. O curioso é que há lojas de palestinos no térreo dos prédios, a maioria alfaiates e artesãos de couro.

Mercado de Hebron sob residências e colonos judeus (Foto: Tânia Caliari)

Alguns homens trabalhavam à mão fazendo sela e acessórios para cavalos. Como andamos negócios? “O problema são os soldados”, dizem os seleiros, “que podem deter por cerca de meia hora os nossos clientes para averiguações”. Eles costumavam vender seus artigos para Gaza também. Mas, agora, o livre comércio entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, os dois territórios separados que formarão o Estado Palestino, pelo acordo de Oslo, está proibido. ”Os judeus têm uma ideologia e pensam que todo o mundo tem de trabalhar para eles, por isso ninguém no mundo gosta deles”, disse o artesão mais novo com malícia e preconceito, além do rancor explícito. Os seleiros oferecem chá com folha de hortelã e continuam falando. É evidente que a convivência forçada pelas armas, com os judeus mais sectários de Israel, não faz bem. Talvez por isso o discurso aqui seja mais carregado do que em Ramalá. Não há espaço para o “politicamente correto” e ponderação: judeu é mau, e pronto.

Na caverna de Abrão

Em Hebron, Hakam me levou ainda na Mesquita de Ibrahimn, nome árabe do patriarca Abraão. Logicamente o lugar é sagrado também para os judeus que chamam o templo, onde existe também uma sinagoga, de Caverna e Machpelah, ou Tumba dos Patriarcas.

Segundo os três livros sagrados de cristãos, judeus e muçulmanos, foi nesse local que Abraão comprou a terra com a caverna de Machpelah para enterrar sua mulher Sarah. Foi a primeira propriedade que o forasteiro Abraão, vindo da Mesopotâmia, comprou na Terra Prometida. Segundo a tradição, o patriarca também está enterrado ali, assim como seu filho Isaac e sua mulher Rebeca; e seu neto Jacó e sua mulher Lia. Como se não bastasse, há quem diga que Adão e Eva também estariam enterrados ali.

Com essas credenciais, fica mais compreensível o significado do local pelos religiosos. Seguimos para a entrada que leva à sinagoga e um soldado israelense nos parou para perguntar nossa religião: “Sou cristã e ele é muçulmano”, respondi. ”Você pode entrar, ele não”, foi a resposta. “Os muçulmanos não podem entrar por aqui, têm de ir direto para a mesquita, do outro lado.” ”E como você sabe que eu sou cristã? Eu poderia estar mentindo”, disse. O soldado explicou que se desconfiasse disso, pediria para ver alguma evidência de minha religião. Não carrego nada comigo, só uma guia de candomblé no pescoço mesmo sem seguir essa fé. Aí o soldado disse que eu tinha razão, não daria para saber. O rapaz disse mais. Disse que estava cansado daquela situação, que estava cumprindo seu serviço militar, só isso. Hakam conversou com ele em inglês. Os inimigos não falam a língua do outro. Eu perguntei se um turista muçulmano, que fosse visitar a sinagoga por interesse histórico ou arquitetônico ou coisa assim, não poderia entrar. Não pode. ”Por que você acha que eu estou aqui?”, disse o soldado já um pouco exaltado. ”Por que?”, perguntei. ”Porque judeus odeiam muçulmanos e muçulmanos odeiam judeus”. E ele estava ali para manter a paz, completou com ironia. A conversa não foi tensa e ali estava um cara que queria estar curtindo a vida, e não ali com aquela farda.

Soldados israelenses abordam Hakam Jadallah em Hebron (Foto: Tânia Caliari)

Fomos nos afastando e Hakam contou que do século 13 até 1967 os judeus foram impedidos de rezar dentro das paredes levantadas durante diferentes períodos para cercar o local sagrado. Podiam ficar rezando na porta, sendo motivo de riso para os muçulmanos que entravam. Ele afirma que logo logo serão os muçulmanos pedindo para entrar, e sendo motivo de chacota para os judeus. A partir da ocupação israelense, um acordo manteve o local nas mãos muçulmanas, mas que seria aberto também para os judeus. Até 1994, as duas comunidades rezavam no mesmo salão, sob o mesmo teto. Mas foram divididas novamente depois do massacre perpetrado por Baruch Goldstein, colono judeu que veio dos EUA para morar no assentamento de Kiryat Arba, periferia de Hebron. Ele entrou com um fuzil e saiu atirando nos muçulmanos. Vinte e nove morreram, e mais de cem ficaram feridos. Goldstein foi morto ali mesmo pelos muçulmanos, mas em Kiryat Arba há um monumento em sua homenagem sobre o seu túmulo.

A religião armada

Funeral de palestino considerado mártir da resistência à ocupação israelense (Foto: Osama Silwad)

A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) dirigida por Yasser Arafat, que chefiou a resistência a Israel durante décadas de exílio e que dirige as negociações para formar o novo Estado, é uma entidade de tradição leiga e democrática. Mas tem perdido espaço para os movimentos de resistência religiosos, islâmicos, que cresceram nos Territórios Ocupados e aspiram a formação de um Estado fundamentalista, como o Irã. O islamismo é hoje um dos mais fortes códigos de identidade árabe e uma ideologia de resistência. Mas também cria seus problemas numa sociedade que, mesmo com fortes valores religiosos, sempre seguiu uma política laica e certa liberdade de comportamento.

Jehin e Suzanne, gêmeas de 21 anos que cursam jornalismo na Universidade de Jenin, norte da Cisjordânia, contam que sua mãe costumava ir ao cinema em Ramalá. “Antes havia dois cinemas. Hoje há apenas uma sala de projeção de vídeo e eu nunca fui, porque fica mal para nossa reputação”, disse Jehin que tentava me ajudar a identificar quando aconteceu essa virada comportamental. Entre os palestinos nunca houve uma revolução sexual e a virgindade sempre foi uma questão de honra, mas os relacionamentos sociais entre homem e mulher eram menos vigiados. ”Hoje conversamos com os rapazes na universidade, na sorveteria, nas ruas, mas eles não podem nos visitar na nossa república. O que queremos é evitar uma má reputação”, insiste Suzanne. As gêmeas não cobrem a cabeça com o xale e observo que muitas garotas que o usam fazem do hábito religioso um item da moda também. lnah, uma jovem que trabalha em um internet café confirmou essa tendência. Ela cobre seus cabelos, mas faz questão de dizer que seus pais não a obrigam a usar o xale, que faz questão de combinar com suas roupas ou maquiagem. Já Ahlame Najla, estudante que vive em Hebron, cidade muito mais conservadora, admitem que, não fosse a pressão da população local, não usaria o xale.

As gêmeas Suzanne e Jehin, palestinas muçulmanas que não cobrem seus cabelos (Foto: Tânia Caliari)

Muçulmana, a grande maioria dos palestinos nunca deixou de ser. Mas seguir os fundamentos do Islã no comportamento social e deixá-los influenciar diretamente a política foi um fenômeno que cresceu nas últimas décadas.

Tradição laica

Historicamente o palestino tem a imagem de um povo escolarizado, com tendências políticas laicas e democráticas. Com a busca pela autodeterminação, e com seu nacionalismo, os palestinos, sobretudo pós-67, eram a vanguarda política do mundo árabe, com muitos países sob monarquias e ditaduras. Segundo um estudo feito pelo professor Ziad Abu-Amr, que também é deputado do Conselho Legislativo Palestino, o nacionalismo laico defendido pela OLP começou a perder força nos Territórios Ocupados por conta da mobilização dos religiosos islâmicos, e a partir de uma série de acontecimentos.

As lutas dirigidas pela OLP, inclusive lutas armadas, sofreram sucessivas derrotas a partir dos anos 70. A Revolução islâmica foi vitoriosa no lrã em 1979, e em 1980 foi fundada a Jihad Islâmica. O Movimento de Resistência Islâmica -o Hamas -surgiu entre os palestinos no primeiro dia da lntifada, em 1987. Outras entidades político-religiosas, como a Irmandade Muçulmana, de origem egípcia e existente na Palestina desde os anos 30, diziam que a ocupação israelense era um castigo divino, devido à distância que os líderes palestinos no exterior estavam tomando do Islã e ao relacionamento de facções da OLP com o comunismo. Ao mesmo tempo, a Irmandade criou uma rede assistencialista com creches, bibliotecas, posto médico, e escolas que enfatizavam os valores religiosos na educação. O nacionalismo e a luta contra a ocupação não eram o primeiro objetivo da Irmandade, que considerava essas metas impossíveis de serem alcançadas se não houvesse, antes, a volta total dos valores islâmicos à sociedade.

Campanha eleitoral para grêmio estudantil na Universidade de Birzeit. Facções religiosas avançam sobre a laica OLP (Foto: Tânia Caliari)

No início da década de 80, as lideranças religiosas perceberam que não podiam ficar afastados da política e começaram a disputar os Conselhos Estudantis das universidades, ambiente privilegiado de atividade política palestina, já que a ocupação israelense não permitia maiores fóruns representativos. Os religiosos tiveram vitórias significativas até mesmo em universidades laicas e de origem cristã. Dentro do movimento religioso surgiram então as facções mais radicais, como a Jihad e o Hamas, que partiram para a luta armada e o terror contra Israel.

Como muitos apontaram, muito da força do Islã voltou nos dias duros da Intifada. Quando a mobilização popular recuou devido à violenta repressão israelense e ao desgaste da população, a coordenação secular da luta nas ruas saiu enfraquecida, e os setores religiosos continuaram a fazer seu trabalho assistencial. ”Para a liderança laica, o plano era primeiro a libertação dos territórios, depois pensariam em melhorar as condições de vida das pessoas. Já os grupos islâmicos mantinham um papel social, dando uma assistência material às famílias dos jovens que morriam, dando dinheiro mesmo”, diz Eileen Kuttab, diretora do Centro de Estudos da Mulher. Com sua crescente influência nas famílias, os religiosos começaram a pressionar na questão comportamental, pelo uso do véu pelas mulheres. Segundo Kuttab, “houve muita pressão, casos de mulheres atacadas com ácido, pedras ou tomates caso saíssem de casa sem o véu”. Em Ramalá, com sua forte tradição secular, isso não chegou a acontecer, mas Kuttab cita fatos ocorridos na Faixa de Gaza, em Jerusalém e Hebron. As imposições, ao longo dos anos, foram sendo assumidas pelas mulheres como escolhas próprias.

Davi contra Golias

A Intifada, sete anos de insurreição popular contra a ocupação (1987 a 1993), foi, entre muitas coisas, uma espécie de marketing global para a causa palestina. Não havia como resistir a uma versão da história de Davi, o jovem franzino, e Golias, o gigante opressor, mostrada ao vivo pela televisão e pelos jornais de todo o mundo. A ironia é que, no Velho Testamento, Davi é o jovem israelita, futuro rei, que dá uma lição no filisteu gigante que  intimidava a todos e insultava o deus de Israel. Mais ironia: as armas dos mais fracos hoje, os palestinos, também foram a funda e as pedras, como as de Davi. E entre os mais destacados guerreiros estavam os garotos, também como Davi. Impossível evitar o vexame moral dos israelenses. Golias foi abatido com uma pedrada certeira, e Davi lhe cortou a cabeça.

Como Davi conta Golias, palestinos lançam pedras contra o inimigo durante a Intifada
(Foto: Osama Silwad)

A adesão popular à revolta foi tão absoluta que hoje nos Territórios Ocupados cada um tem sua história particular da Intifada para contar. A mobilização era geral, e contava também com garotas e mulheres, velhos e crianças. Uns atiravam pedras, outros estavam na retaguarda “Está vendo essas marcas nas paredes? Foram feitas pelos soldados israelenses que tentavam se orientar dentro do campo de refugiados quando entravam aqui para nos pegar. A função das crianças, como eu na época, era apagá-las ou confundi-las”, conta Youssef, agora com 19 anos. Hakam resolveu me contar alguns episódios de sua vida durante a Intifada. Ele tanto ajudava em minha reportagem que às vezes me esquecia de que ele fazia realmente parte da realidade que eu tanto queria entender. Ele tomava sua segunda xícara de café e eu, a segunda cerveja, permitida em alguns poucos bares modernos de Ramallah, como o Keriab. “Nunca vou me esquecer do meu primeiro dia de Intifada”, diz. “Tinha 11 anos e logo ficamos sabendo que a a insurgência havia começado em Gaza. Quando os conflitos chegaramo a Ramalá, minha mãe nos prendeu no quarto para evitar que saíssemos. Saí pela janela e vi que tinha obrigação de colocar a bandeira palestina sobre a nossa mesquita. Com o tempo, isso foi ficando cada vez mais difícil, pois nossas bandeiras se tornaram um dos alvos mais importantes para os israelenses que ocupavam a cidade”.

Rapaz ferido em enfrentamento com Israel é carregado por amigos durante a Intifada
(Foto: Osama Silwad)

A data oficial do início da Intifada é 9 de dezembro de 1987 e o local foi a cidade de Gaza, na estreita faixa banhada pelo Mediterrâneo e separada da Cisjordânia por terras consideradas do Estado israelense. O estopim foi a morte de trabalhadores palestinos em um acidente provocado por um caminhão israelense. Os motivos para a Intifada eram muitos: o acúmulo de raiva e frustração gerado por uma política de ocupação agressiva, materializada na construção de colônias judaicas em terras confiscadas nos Territórios. As colônias israelenses, frequentemente lideradas por judeus ortodoxos, foram se espalhando como uma teia em Gaza e em torno das cidades da Cisjordânia e hoje deixam muitas delas completamente cercadas.

Um dos mais graves aspectos da ocupação é a transferência de população judaica civil para os Territórios Ocupados, como na parte leste de Jerusalém, onde os palestinos pretendem ter a capital de seu Estado. Desde 1967, Israel tomou 90% de Jerusalém Leste. 34% dessas terras foram destinadas para a formação de colônias judaicas. 45% foram classificadas como “áreas verdes”, onde os palestinos não podem construir. Qualquer um que passar uma temporada na cidade pode testemunhar a ocupação acontecendo cotidianamente. Acostumada a ir ao bairro árabe de Sheik Jarrah nos meus primeiros dias na cidade, qual não foi minha surpresa ao ver a casa ao lado do consulado turco cheia de bandeirinhas de Israel indicando uma recente conquista dos colonos. Sobre o telhado, um rapaz usando kippa, armado de rádio-escuta e fuzil, observava o movimento da vizinhança. Fui falar com ele. Era evidente o seu desconforto, mas tinha a justificativa pronta. Tinham chegado ali recentemente, sim, mas os palestinos que moravam ali tiveram que sair, pois no pavimento havia a sepultura de um profeta judeu e também resquícios de uma sinagoga. “Essa era uma casa judia no passado, agora volta para nós”, justificou.

Muitos assentamentos mais extensos em vários pontos da Cisjordânia são formados por “casa móveis”, trailers que abrigam os israelenses provisoriamente até que sejam construídas as novas casas. “Olha como crescem … são como um câncer”, diz Hakam com uma amargura incomum em sua voz. Eu iria ouvir essa comparação dramática muitas vezes. A metáfora é pertinente. O crescimento desenfreado do número de casas, como células fora do controle, aumenta o tamanho das colônias que vão carcomendo o território destinado ao Estado palestino.

Há leis israelenses que dão base para o confisco de terras palestinas para a construção das colônias e estradas exclusivas para os judeus. Há também palestinos que vendem suas terras, no entanto. Yossef AI Deek, videomaker que conheci em Ramallah, garante que muitos palestinos de sua aldeia venderam suas propriedades, ao menos parte delas, para os colonos. Na opinião de Yossef esses palestinos deveriam ser presos por traição. O assunto é pouquíssimo falado e estranhamente não é explorado pela contra-propaganda israelense que poderia usá-lo como fator de legitimação das colônias.

Quando o assunto é Intifada, há uma tendência geral em dourar a pílula do passado, a partir do ponto de vista um tanto frustrante do presente. Mais de uma pessoa me disse que gostaria muito, muitíssimo, que o tempo voltasse aos tempos de luta. Asharov, um jovem engenheiro que dizia tal coisa sem tirar o olho da tela do computador em que trabalhava, afirmava que aquilo sim era vida e não todos os dias iguais que tem tido no escritório em aparente normalidade sob o Acordo de Oslo, quando muito da ocupação israelense ainda se mantém. Eu argumentava que, mesmo com a insatisfação com o resultado político da Intifada — o Acordo de Oslo –, ao menos cidades como Ramalá haviam se livrado da presença dos soldados e da administração israelense. Ali não havia mais toques de recolher às cinco da tarde e nem patrulhas nas ruas. Asharov balançava a cabeça inconformado, afinal, o movimento havia conseguido impor uma perda de prestígio tremenda a Israel e abriu diante dos palestinos a possibilidade de tomar conta de seu próprio destino.

Os descontentes com o desempenho da OLP na negociação do acordo de paz na capital da Noruega acreditam que a Intifada geraria suas próprias lideranças para o país, uma direção política local capaz de assumir a condução dos territórios sem depender do comando de Arafat. Mas foi o velho líder da OLP, exilado com os principais dirigentes da organização na Tunísia, que foi chamado para as negociações com Israel mediadas pelos EUA. Segundo seus críticos, teria sido Arafat que pôs “tudo a perder” nos acertos da “grande política”, fazendo grandes concessões e sendo engolido pela diplomacia israelense. Outro palestino estudado vê a questão sobre outro ângulo, defende as antigas lideranças e fala com ironia sobre a “geração Intifada”: ‘Esses rapazes dedicaram anos a atirar pedras e não aprenderam nada nas escolas, constantemente fechadas pelos israelenses. Hoje são um bando de ignorantes e têm a arrogância de quem um dia mandou no quarteirão”.

Cidades de zinco

Crianças palestinas brincam em campo de refugiados na Cisjordânia (Foto: Tânia Caliari)

Repórteres brasileiros que visitam os campos de refugiados palestinos comparam logo esses aglomerados humanos com as favelas brasileiras. Helena Salem, em livros e reportagens sobre o conflito no Oriente Médio, e Fausto Wolf, que narrou sua visita ao Líbano em 1982 antes da invasão de Israel, evocaram essa imagem. Helena Salem descreveu em seu livro-reportagem “Palestinos -Os novos judeus”, de 1977: “Casas de zinco, de pedra, ou tijolo e cimento, umas grudadas nas outras, não mais de três compartimentos, abrigando famílias, às vezes de 15 pessoas. No inverno muito frio, no verão muito calor. Sem água quente, em geral sem qualquer encanamento, e sem banheiros privados. Alguns têm 4.000 habitantes, outros 60 mil, como o de Baqaa, perto de Amã, na Jordânia, verdadeira cidade de zinco. ( … ) Lembram nossas favelas, no aspecto”.

É isso mesmo. O aspecto caótico da arquitetura e as visíveis falhas do urbanismo nos campos os fazem parecidos com favelas. Hoje o zinco foi substituído por lajes de alvenaria, tijolos de concreto à mostra, becos tortuosos, absoluta falta de árvores ou espaços de lazer, muitas crianças brincando na rua, lixo acumulado aqui e acolá. As pequenas mercearias nos campos fazem as vezes dos nossos botecos, pontos de sociabilidade. Hoje, o esgoto chega a 56% das casas nos campos da Cisjordânia e a 47% nos campos na Faixa de Gaza, este um índice muito melhor do que os nossos. Eletricidade e água chegam a praticamente 100% das casas. Mas, na verdade, há muitas diferenças entre nossas favelas e os campos palestinos.

Para começar, os campos de refugiados não surgiram como uma solução de moradia para a população pobre, caso ocorrido no Brasil. A razão dos campos palestinos foi a guerra. Foram criados às pressas pela ONU depois da guerra de 1948, para receber os palestinos que fugiam ação de forças israelenses que abriam caminho para a população judaica se instalar. Só naquela ocasião, pela ameaça ou pela força, cerca de 750 mil árabes foram retirados do território onde é hoje o Estado de Israel. Com a chave de sua antiga casa na mão, um velho professor de inglês no campo de Jelezon conta quando ele, ainda adolescente, e sua família chegaram nas colinas centrais da Cisjordânia e lá foram deixados ao léu com outros grupos que também não tinham para onde ir. Após uma semana, começaram a chegar as tendas da ONU para uma ajeitada provisória daqueles que agora seriam refugiados. A resolução 194 da ONU reconheceu o direito de volta dos refugiados palestinos às suas casas e vilas de origem, mas Israel nunca a cumpriu e o provisório permanece até hoje, agora em casebres de alvenaria.

Hoje, dos 3,6 milhões de refugiados, mais de 1,1 milhão vivem nos 59 campos espalhados pela Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano e Síria. O maior dos campos é o de Jaballa, no norte da Faixa de Gaza, com cerca de 83 mil pessoas. Tendo sido vítimas de guerra e de um desastroso processo político, os refugiados não sofrem a pesada discriminação social que os favelados brasileiros sofrem por viverem em condições tão deterioradas. Mesmo sendo respeitados, porém, os refugiados enfrentam uma vida mais difícil do que o resto dos palestinos, sendo preteridos em serviços como a distribuição de água. Cerca de 82% da água captada nos Territórios Ocupados é destinada aos israelenses. O restante 18% é dividido entre os palestinos, sendo que as cidades são as primeiras a receber a água, seguidas pelas vilas e então, por último, os campos de refugiados. Outra grande diferença entre a população palestina refugiada e a favelada no Brasil é a educação. Responsável pelas escolas para os refugiados desde o início, a ONU continua garantindo o ensino básico nos campos, atendendo praticamente 100% das crianças. O líder comunitário do campo de Dheisheh, Ziad Abbas, considera porém que as condições das escolas são ruins e estão ficando piores. “Chegamos a ter 35 alunos por sala de aula!”, afirma. Pode ser ruim, concordei, mas nem tanto: eu mesma estudei em salas de até 45 alunos nas escolas públicas que frequentei, longe das favelas!

Refugiados em Gaza

Andando de carro à noite pelas ruas mal iluminadas do campo de Khan Yunis, que tem mais de 50 mil habitantes na região sul da Faixa de Gaza, perguntei a Mohamed EI Aydi, funcionário da UNRWA, organismo da ONU para refugiados criado em 1950, sobre os índices de violência e criminalidade na área. “Muito baixos e geralmente os casos são ligados a questões familiares”, disse Mohamed. E raramente envolviam roubos. “Roubar quem? Todos aqui se conhecem. Ninguém quer manchar a imagem de sua família A vida já é difícil, se sua família perder o respeito então, fica pior ainda”, disse. Mohamed admite, no entanto, que a situação de desespero econômico e social pelo qual a população confinada na estreita Faixa de Gaza, devido ao desemprego que atinge até 60% dos trabalhadores, tem feito aumentar a violência. Estaria o desespero levando também às ações suicidas contra Israel reivindicadas por grupos islâmicos? “O que mais pode levar um jovem a colocar sua vida à disposição do terror? Muitos que não seriam capazes de fazê-lo começam ao menos a apoiar essas ações extremistas”, afirma Mohamed.

Campo de refugiados de Khan Yunis, no norte da Faixa de Gaza (Foto: Tânia Caliari)

A situação na Faixa de Gaza é realmente terrível, claustrofóbica. 75% da população são de refugiados. 55% deles vivem nos campos onde valas de esgoto abertas correm entre uma casa e outra. O território de 362Km2 e 1.020.800 habitantes palestinos é literalmente cercado. Quatro portões vigiados com requintes de fronteira internacional ligam o território a Israel. Três deles são de uso exclusivo dos colonos judeus que também vivem lá. Para sair dali, se palestino, é preciso uma autorização dada mediante a comprovação de trabalho em Israel. Para a integração entre os Territórios Ocupados, há uma rodovia que liga a Faixa de Gaza à Cisjordânia, devidamente controlada por catracas eletrônicas, na qual poucos têm permissão para passar. Em Erez, o portão norte da Faixa de Gaza, há o posto de controle por onde os trabalhadores passam diariamente suas carteiras digitais. Soldados armados guardam o posto e revistam os pacotes. Observei o fluxo de volta dos trabalhadores, final de expediente. Homens exaustos, empoeirados, com suas sacolinhas nas mãos chegam aos montes nas catracas para daí pegarem novo transporte até suas casas nos campos.

As mulheres, praticamente todas de véus em Gaza, passam o dia cuidando de sua prole. As moças estudam até uma certa idade, uns 16 anos, e logo pensam em casamento. O pão é feito em casa. Na casa de Mohamed, com doutorado em sociologia na Inglaterra e que conseguiu melhorar de vida recentemente trabalhando para a UNRWA, mulheres de várias gerações se sentam no chão da sala para pôr a massa em seu formato redondo. Deixam lá cerca de 200 pães descansando sob cobertores até a hora de levar ao forno.

O forno de assar pão em casa casa é antiga tradição palestina que não pôde ser levada adiante nos campos por falta de quintal e lenha. O forno agora é comunitário. É para onde vai Rader, irmã de Moharned, que leva o tabuleiro de pão equilibrando-o na cabeça. A casa do forno está cheia e Rader espera sua vez. O processo é rápido como o fogo sustentado a óleo diesel. Há o forneiro que cuida de colocar e tirar os pães do meio das chamas. As crianças olham vidradas os pães inchando dentro da bocona de fogo. Eu olho também, até que uma velha, em trajes tradicionais decorados com os pontos em cruz, chega e fala comigo sem parar. Olhando em meus olhos, ela falava sem se importar se eu não estivesse entendendo. O sentido do que falava, eu entendia: estava reclamando da situação em que viviam. Olhava minha câmara fotográfica e falava de forma ríspida. Dessa vez, não ousei ganhar sua simpatia falando as duas palavras de árabe que eu sabia, velho truque quebra-gelo. Rader, que também não falava inglês, contou mais tarde a Mohamed o que a velha senhora dissera. Era aquilo mesmo, o seu sofrimento. A senhora quis saber se eu iria contar tudo que eu estava vendo ao mundo. E não era a primeira vez que me perguntavam isso.

Forno comunitário no campo de Khan Yunis para manter uma tradição palestina
(Foto: Tânia Caliari)

Mohamed me levou ainda ao extremo sul da Faixa de Gaza, no campo de Rafah na fronteira com o Egito, onde a Autoridade Palestina chegou a construir um aeroporto. No caminho, Mohamed me surpreendeu dizendo que um dos pensadores que mais o influenciou foi Paulo Freire. “Esse entendeu bem a alma do seu povo e inventou um sistema que pode libertá-lo”, disse referindo-se ao método de alfabetização. Mohamed mesmo escreveu um livro sobre o dia a dia de Gaza pós-Acordo de Oslo, ilustrado pelas fotografias de Dick Doughty, repórter fotográfico norte-americano e seu amigo pessoal. Os dois percorreram Gaza, documentaram e puseram suas reflexões em “Gaza: Legacy of Occupation”. Mohamed gosta de mostrar como as coisas vão por lá. Ele envia relatórios diários para a UNRWA sobre a situação das escolas e postos de saúde. Aproveitando-se de seu carro oficial, que não pode ser barrado nas áreas controladas por Israel dentro da Faixa de Gaza, Mohamed me leva até um assentamentos judeu. Ali também? Em tão estreita faixa de terra? Sim, Israel ainda controla 44% da Faixa. São mais de 15 assentamentos, a maioria na costa mediterrânea. O campo de Khan Yunis mesmo, onde vive Mohamed, é bloqueado do mar por uma área de assentamentos. Lá dentro, protegido por soldados e cercas, tudo é diferente: grandes casas, playgrounds, estradas e escolas de qualidade e, ainda, a praia! Dá revolta.

(*Os colonos judeus foram retirados da Faixa de Gaza em 2005 sob o plano do então primeiro ministro israelense Ariel Sharon. Houve resistência de colonos para permanecer, tendo sido todos retirados por fim. Vista como uma vitória da resistência palestina, a partida dos colonos permitiu, porém, ataques aéreos à Faixa de Gaza em diferentes ocasiões sem colocar em risco cidadãos israelenses.)

Campos de Deus

Os judeus ultraortodoxos dizem que nas Sagradas Escrituras está escrito que Deus teria garantido ao povo de Israel aquelas terras, não apenas as da área em que se estabeleceu o atual país, mas em um território muito maior, que incluiria as terras da Jordânia, Síria, Iraque e Egito para formar o Grande Israel. Eles são minoria entre os israelense, mas têm uma forte influência sobre os sucessivos governos do país que mantiveram uma clara política de colonização dos Territórios Ocupados desde sua invasão em 1967. Nessa ocasião 73% do território da Cisjordânia e da Faixa de Gaza passaram para mãos israelenses –44% tomados por “motivos militares”, 20% por “razões de segurança”, 12% para “uso comunitário” e “preservação de áreas verdes”, e 12% por serem consideradas “áreas abandonadas” . Ao todo, são 194 assentamentos judaicos com uma população de 170 mil colonos, que representam 7% da população dos Territórios Ocupados. A ironia é que muito das casas, edifícios e estradas desses assentamentos foram construídas por trabalhadores palestinos que tiveram suas terras confiscadas.

Plantação palestina com assentamento judeu ao alto da colina na região de Deir Qades, na Cisjordânia ( Foto: Tânia Caliari)

Essa política afetou dramaticamente a agricultura e os meios de subsistência dos palestinos. Além de criar mão de obra barata para a construção civil e para a indústria israelense, a desarticulação do setor agrícola palestino formou um mercado extra para os produtos de Israel. Hoje, 70% das frutas, grãos, verduras e legumes consumidos pelos palestinos vêm de Israel. Na viagem de Jerusalém para Hebron pode-se observar que as casas dos colonos israelenses estão sempre lá em cima, nas colinas, fileiras delas com seus telhados vermelhos. As casas palestinas estão quase sempre nos vales, em estreitas faixas de terra. Nessa região, o cultivo é de uvas e as parreiras chegam até a rodovia. No trajeto vê-se a construção de um novo trecho de estrada que vai desviar o caminho para a direita, por dentro de terras agrícolas palestinas. Por que o desvio? Ele vai evitar que os colonos judeus sejam alvejados por pedras ao passarem pela estrada velha que margeia o campo de refugiados de Al Aroub.

Ao longo do campo, uma cerca alta de tela de alumínio separa o amontoado de casas da rodovia. A impressão é de que as rodovias construídas na Cisjordânia para garantir a segurança militar dos israelenses ocupam um espaço importante das propriedades rurais. Outra prática cruel da ocupação israelense é a derrubada de árvores de terrenos palestinos, sobretudo de oliveiras. Entre 1987 e 1997, foram arrancadas cerca de 250 mil árvores, política adotada tanto no confisco de terras quanto nas punições coletivas contra famílias  que tivessem algum membro suspeito de ações contra Israel.

População rural

Majdi Mohtasab se oferece para ser meu guia nas propriedades rurais em torno da vila de Tafuh, a 15 quilômetros de Hebron. Majdi participou da Conferência de Madri, em 1991, o primeiro encontro de Israel com uma delegação palestina que culminou no Acordo de Oslo. Ele nunca foi um político no sentido tradicional da palavra, mas em meados dos anos 80 fundou uma ONG com fachada de assistência técnica para organizar politicamente a população rural palestina. Nessa época, a ocupação estava no auge e já tinha feito seu estrago. Doze estações experimentais agrícolas existentes na Cisjordânia foram fechadas e para Majdi essa foi uma estratégia certeira para o confisco de terras palestinas. Sem ajuda, trabalhando sem eficiência, o camponês palestino perdeu a concorrência e as terras. “Quando o trabalhador não tem lucro com sua terra, é mais fácil entregá-la”, diz. Madji destaca também os efeitos danosos da política de segurança israelense sobre o comércio agrícola local. “Para um agricultor palestino vender seu produto em Israel, por exemplo, ele precisa de 4 permissões: uma para ele mesmo entrar em Israel, outra para o motorista ou ajudante, outra para seu caminhão e outra para a própria mercadoria. Isso custa a ele alguns sekels de papelada e, às vezes, muito tempo de espera pela burocracia. Além disso, não há nenhuma garantia de que sua petição será aprovada.”

Compreende-se que, para Majdi, todas as mudanças sociais na vida rural palestina tenham acontecido devido à ocupação israelense. “Antes da ocupação, a vida nas vilas era próspera, cada família tinha suas galinhas e suas cabras. Ovos, leite e queijo, tudo era produzido em casa e o extra era vendido nas cidades maiores”, diz com nostalgia. Depois de serem encorajados a abandonar o trabalho na terra por alguma oportunidade de emprego em Israel, os jovens palestinos começaram a mudar. O dinheiro era ganho em Israel, mas era gasto também no supermercado israelense. “Ao voltar à noite para sua vila de origem, o trabalhador trazia o leite ”Nova” (marca de leite pasteurizado) no lugar do leite de cabra, comia chocolate ao invés de figo seco, e pão de padaria, rejeitando o ‘tabon’ feito por sua mãe”, disse Majdi. Mas essas mudanças não são comuns às populações rurais do mundo todo, mesmo sem nenhuma ocupação? ”Sim”, admite Majdi. “Mas mudanças da globalização nos outros lugares vão acontecendo como mudanças do capitalismo ”, retrucou.

Majdi e Rushdi Ashhab, que administra a ONG sempre com convicção militante, me dão todos os informes agrícolas. Me guiam para a propriedade do pai de Mustafah, um rapaz recém-formado em agronomia em Amã, na Jordânia, que integra o time técnico da organização. Por que Amã e não Hebron ou Nablus, onde funcionam os dois cursos de agronomia da Palestina? O rapaz aproveitou a oportunidade em Amã devido ao fechamento das universidades palestinas durante diversos períodos nos sete anos de Intifada, que atrapalhou muito a formação dos palestinos.

Frutos da terra

A vila de Tafuh é o núcleo de um vale agrícola que tem enorme variedade de plantações. As propriedades são pequenas e tudo é plantado em terraços delimitados com as pedras que brotam do solo. Amêndoa, pêssego, nectarina, ameixa, limão mexerica, árvores que dão colheita anual. E mais as oliveiras, que demoram cinco anos para começar a produzir e dão colheita uma vez a cada dois anos. Seus frutinhos estão ainda miúdos, atrasados pela pouca chuva que caiu no inverno 98/99. As oliveiras são mesmo especiais: em muitas áreas da Cisjordânia, com solos pobres, sem incentivos ou tecnologia, elas são a única cultura que dá pouco trabalho e um certo retorno econômico. Mas em Tafuh as uvas são a grande produção. As variedades são muitas.

Vamos em zigue-zague numa estrada que sobe o morro. Encontramos velhos camponeses sobre seus burrinhos. O pai de Mustafah, seu Musa Marmoud Al Taradi Abu Mustafah, 73 anos, vem descendo a encosta carregando um molho grosso de mato que arrancou do meio de suas oliveiras. Levava o feixe enrolado na longa veste árabe já bem surrada Ele cumprimenta Majdi e Rushdi com um aperto de mão. Seu filho o cumprimenta com diversos salamaleques e beija-mãos. A mim seu Musa oferece o antebraço -não podia pegar em mão de mulher pois já havia se lavado para a reza da tarde. E, aliás, pede para sair da pedra onde eu estava sentada porque ali iria rezar voltado para Meca.

Agricultor palestino leva seus produtos no burrinho (Foto: Tânia Caliari)

Deixamos o homem rezando em paz e fomos admirar a estufa de plástico para tomates lá embaixo, inovação recente na propriedade. Reza concluída, seu Musa nos conta a história da propriedade, comprada por seu pai e seu avô há mais de 50 anos. Quando o pai morreu tudo foi dividido entre ele e seus quatro irmãos. Desde então, o mesmo pedaço de terra produz para sustentar cinco famílias. Cada palmo é aproveitado na cultura da uva, oliva, limão, mexerica, couve-flor, tomate, feijão, grão-de-bico. Tudo com arado puxado pela força dos burros.

Resistência e revolução verde

A atuação de Majdi e de sua ONG, financiada por doações estrangeiras vindas principalmente da Espanha e Itália, me fez lembrar o trabalho do Centro de Tecnologias Alternativas em Viçosa,na zona da mata de Minas Gerais. A ONG mineira trabalha com os pequenos agricultores tentando implantar tecnologias sustentáveis e recuperar técnicas antigas esquecidas durante a Revolução Verde, estratégia agrícola das multinacionais nos anos 70 e 80 que introduziu entre os pequenos agricultores as sementes híbridas, fertilizantes e pesticidas. Para muitos, o aumento da produção prometido pela revolução não foi o suficiente para o pagamento das dívidas que vieram com a compra de insumos. Além disso, várias tecnologias de plantio e variedades de sementes nativas foram perdidas durante esse período.

Como os técnicos do CTA no Brasil, Madji também tenta valorizar o saber local, incentiva a atuação política das comunidades, mobiliza o povo contra as difíceis condições fundiárias, onde os pequenos não podem concorrer em escala com grandes produtores e acabam vendendo suas terras e partindo para as cidades para “melhorar de vida”.  Resistir na terra, no Brasil ou na Palestina, é um desafio e uma das atitudes políticas das mais sérias e difíceis.

Doce dezessete anos

Os palestinos estão se preparando para ter um currículo nacional, em seu novo Estado. Hoje, as escolas palestinas na Cisjordânia usam o currículo da Jordânia e as da Faixa de Gaza seguem o egípcio. Esses currículos são herança dos Estados que dominavam essas áreas até 1967, mas mesmo assim os professores dos Territórios Ocupados não têm permissão para falar sobre as guerras de 1948 e 1967 em suas aulas de história. Israel permite a entrada de livros didáticos de matemática e árabe da Jordânia, mas não permite livros de história e geografia que usem o termo Palestina. Em 1994, o órgão que seria o futuro Ministério da Educação de um Estado palestino criou o Centro para Desenvolvimento do Currículo. São 16 comissões, cada uma discutindo uma disciplina. O resultado deve ser implementado de 2001 a 2004, por partes. De acordo com Othmar Amer, da comissão do ensino de inglês, o novo currículo é inspirado em experiências educacionais de vários países. O inglês será ensinado desde o primeiro ano do ensino fundamental. Hoje é ministrado a partir do quinto ano, como nas escolas públicas brasileiras.

Meninos e meninas

O que não vai mudar, porém, é a separação de escola entre os sexos. As escolas públicas palestinas são separadas para meninos e meninas, e assim vão permanecer. ”De acordo com a tradição do Islã, é preferível que meninos e meninas não fiquem tanto tempo juntos”, diz o professor Amer. “Mas a matéria é rigorosamente a mesma”, garante. Entre as escolas particulares, geralmente colégios de religiosos, as católicas têm salas mistas, as cristãs ortodoxas e luteranas também. Nas instituições particulares muçulmanas o ensino é separado.

Professores de uma escola para meninos lançam durante intervalo das aulas
(Foto: Tânia Caliari)

Visitei duas escolas públicas palestinas: a escola de meninas de Aeen Yabrood-que significa Fonte de Água Fria -uma vila próspera devido ao dinheiro que os emigrados mandam para a terra natal, com 600 meninas de várias vilas da região e que serve de referência para o ensino palestino; e a escola de Yabrood, vilazinha bem mais modesta com quatrocentos habitantes que, extraordinariamente, atendia conjuntamente meninos e meninas até os 10 anos.

Aeen Yabrood tem belas casas e três mil habitantes, além de outros três mil nativos emigrados, a maioria nos EUA, alguns no Brasil. Duas meninas na escola falavam português perfeito, com sotaque regional de Goiás. Mas a escola de meninas de Aeen Yabrod é simples, as instalações dos banheiros são desconfortáveis, e os mapas geográficos e do corpo humano são cartazes desenhados à mão. Não há merenda escolar, mas garotas disputavam de quem eu aceitaria as batatas chips que me ofereciam aos montes. Todos queriam saber minha impressão sobre a escola logo depois de um pequeno tour pelas salas de aula, acompanhando os funcionários do Ministério da Educação que faziam uma visita para avaliar o estado do prédio. A diretora me deixou à vontade para assistir a qualquer aula. Escolhi a de inglês para o nível correspondente à nossa oitava série.

O que vocês mais gostam da Palestina, perguntei? Foi esse o modo de introduzir a conversa, já que me pediram para falar do Brasil. Uma garota disse que era a história de seu povo, outra disse que era a personalidade das pessoas. Asfar, de 15 anos, disse que os mais novos respeitam os mais velhos e os vizinhos vivem bem entre si e se ajudam. Asfar vinha de uma aldeia menor do que Aeen Yabrood, como várias alunas da escola. Os arredores de Aeen Yabrood são considerados área C pelo governo de Israel (onde todo o controle, civil e militar, é do exército israelense) por ter o assentamento judeu de Ofra por perto. Há uma base militar israelense na estrada que liga Ramalá a Aeen Yabrood e as garotas se dizem incomodadas pela presença israelense: “aquelas eram as nossas terras”. Na verdade elas sabem pouco sobre os invasores. Ninguém ali fala hebraico.

Sharar Shaban, a professora, acha que seria bom se estudassem a cultura judaica. “Muitos judeus aprendem árabe, visitam mesquitas, conhecem o islamismo. Nossas crianças nunca saem de suas aldeias, nunca vão a Jerusalém, não podem estudar a história do Estado de Israel e nem a sua própria história”, diz. Segundo os professores, o governo israelense temem que, ao falarem da história, incitem o ódio e o terrorismo entre os jovens. No fundo da sala uma menina diz que seu irmão está na cadeia, sem previsão para sair. Outra, na primeira fila, tem dois irmãos também presos acusados de pertencerem ao Hamas. A lei israelense de ”Detenção Administrativa” permite prender suspeitos por um período de até seis meses, renováveis, sem a necessidade de qualquer acusação formal.

No dia seguinte, fui visitar a escola de Yabrood, que seria uma “escola para meninos”, mas recebe também meninas porque a vila não tem estudantes suficientes para manter escolas separadas. São apenas quatro séries primárias com o total de 55 alunos, com idade até dez anos. Sem poder contar com o inglês das crianças, nos comunicamos com apenas o “is meck?” -qual o seu nome?-. Meninos e meninas me pareceram muito espertos. Todos se apresentavam muito prontos na hora de resolver o problema de matemática na lousa, fazer contas de cabeça. No dia anterior havia notado a disciplina das garotas da escola de Aeen Yabrood. Aqui, entre os mais novos, parecia haver verdadeira adoração pelo professor, Jad. Ele fala comigo em inglês e reclama. Diz que o Ministério da Educação não dá muito valor às escolas pequenas, de aldeia. O escritório do diretor, por exemplo, é na mesma sala de aula. De fato, uma escrivaninha ao canto, com o telefone, é o lugar do diretor, que está na outra sala, dando aula também.

Meninos palestinos numa biblioteca no campo de refugiados de Dheisheh, na Cisjordânia

“Mas é melhor que no Brasil”, diz Jad, “pois há escola para todos”. Jad sabe de muitas coisas sobre o Brasil. Seus avós emigraram para Goiás no final dos anos 60, depois da ocupação israelense. Seus pais voltaram para se casar e ficaram na Cisjordânia, e a avó também voltou depois que o avô morreu em Goiás.

Festa de despedida

De volta a Aeen Yabrood no último dia de aula do semestre, fui convidada para uma uma festa de despedida na casa de uma das meninas, que terminavam o segundo ano colegial e teriam de fazer o último ano em outras escolas se quisessem continuar os estudos. Fomos à casa de Areen, que ficava em frente ao assentamento judeu de Ofra. No caminho vimos uma casa demolida, os blocos de concreto despedaçados e os ferros retorcidos à mostra. Era do tio de Areen que a construiu sem a automação israelense. Sabah, uma das amigas, vai ridicularizando as roupas de algumas garotas judias que esperavam o ônibus do outro lado da rodovia. Elas vestiam saias longas e coloridas de verão. Sabah ria que ria. “Olha, as marmotas estão de canga; nem sabem que aqui não tem praia”, diz. Quando pergunto sobre as suas próprias roupas, o jihab, a capa muçulmana que esconde sua roupa, e o xale que cobre os seus cabelos, ela responde, empinada, que é diferente pois usa aquela roupa com fervor.

Djamira e Sabah, brasileiras nascidas em Goiás, filhas de palestino que regressaram à Cisjordânia (Foto: Tânia Caliari)

A mãe de Areen usa vestido tradicional bordado com ponto cruz. Cuidava da parreira na porta da casa quando chegamos e diz que, no geral, o convívio com os vizinhos de Ofra estava sendo pacífico: simplesmente não tinham contato. “Melhor do que antes, na época da Intifada, quando os colonos atacavam nossa aldeia. Meu filho de quatorze anos uma vez foi perseguido até aqui por um colono armado, bravo porque alguém havia jogado pedra no carro dele”, conta. Entro na sala da casa e fico sozinha por uns instantes. As meninas haviam desaparecido e de repente foram entrando, uma a uma, totalmente transformadas: com cabelos soltos, roupas nada muçulmanas, como vestidos de festa, saias e calças justas, blusas transparentes … “Aqui estamos em uma festa, e só entre meninas”, foi a justificativa para a transformação.

Pop árabe

As garotas de 17 anos começam a dançar hits da música pop árabe com muito movimento de quadril, de braços, detalhes com os dedos e reviradas de olhos. As meninas me fizeram dançar também. A certa altura, quando a animação já era grande, uma delas veio toda alvoroçada perguntar se eu já havia “dormido” com alguém. Ela espalhou a resposta de ouvido em ouvido e foram só risinhos. Aí veio a sessão de fotos. Todas tiravam fotos de todas, se agrupavam, trocavam as câmaras, davam gritinhos. Quanto a mim, não permitiram fotografá-las sem suas vestes muçulmanas. “Sabah, agora você me explica o porquê”, disse. ”É que se algum homem, mesmo que seja de sua família lá no Brasil, nos vir assim, deveremos prestar conta disso no juízo final”, sentenciou. Com pecado ou sem pecado, as garotas dançam embaladas pela música melosa de “Titanic”. “O filme é lindo!!! Romântico!!”.

Pergunto ainda o que querem ser no futuro. Médicas, enfermeiras, engenheiras!, respondem. Uma delas quer ser uma ”perfeita dona de casa e esposa”. E o que isso quer dizer? Educar as crianças no Islã, respeitar o marido e servir o país. A festa continua.  As garotas comem bolo, trocam presentes, choram. Doces dezessete anos …

Alta taxa de fertilidade

Eileen Kuttab afirma que seu centro de estudos é o primeiro a pesquisar a condição feminina na Palestina, quiçá no mundo árabe. Ao iniciar as atividades do centro, pesquisou a bibliografia não encontrou muita coisa sobre as mulheres palestinas, apenas dados estatísticos. Agora, seu grupo está realizando várias pesquisas, sobretudo sobre o comportamento político das donas de casa. Se a militância partidária entre as mulheres é ainda fraca, há, no entanto, as posturas, os protestos e sua resistência no dia-a-dia da ocupação. Houve períodos das décadas de 70 que a militância feminina havia sido maior. Kuttab julga que o maior problema que atinge as mulheres palestinas é a alta taxa de fertilidade. “Gaza tem a maior taxa de fertilidade do mundo. A média é de 7 ,5 filhos por mulher e isso limita muito a ação feminina na esfera profissional e social”.

Família tradicional palestina: alta taxa de fertilidade é questão de geopolítica
(Foto: Tânia Caliari)

As mulheres representam apenas 20% da força de trabalho nos Territórios e apenas 5% do Conselho Legislativo Palestino, o Parlamento. Elas têm acesso aos métodos anticoncepcionais passados por ONGs ou mesmo sob a orientação da ONU, mas a tradição, a religião, e até mesmo um discurso político sobre superioridade demográfica em relação aos israelenses incentivam as mulheres a terem filhos. “Nós temos uma questão política na qual a demografia se tornou muito importante. Muitas mulheres acreditam que é preciso ter filhos para ser tornarem soldados da revolução”, afirma Eileen.

Com os cabelos descobertos

Visito mais uma vez o campo de refugiados de Dheisheh, desta vez seguindo Suher lsmael, uma cineasta palestina, camerawoman, produtora, diretora de filmes, vídeos e programas de TV. Ela começou sua carreira durante a Intifada quando as imagens dos enfrentamentos com o exército de Israel tinham uma grande demanda. Sua primeira produção autoral fez parte do projeto Palestine Diary, de um canal britânico.  No vídeo, quatro jovens palestinos -Suher, a única mulher -relatavam seu dia-a-dia. Todos mostram aspectos da Intifada, é claro: os toques de recolher de 24 horas, as batalhas de pedras, o assédio dos soldados israelenses nos campos, a reação das pessoas à Guerra do Golfo. O diário de Suher é o mais intimista. Ela mostra sua festa de noivado: a alegria de todos contrastando com a tristeza profunda de sua mãe. Suher havia escolhido o noivo; e, devido à ausência de seu pai, um tio havia combinado as bodas. Sua mãe não sorri durante toda a festa, e fala depois sobre seu pai, preso e morto durante a ocupação, quando Suher tinha alguns meses de vida. A mãe se casou novamente e um dos filhos do novo casamento, também havia sido morto, dessa vez durante a Intifada.

A revolta popular palestina deu a Suher o acesso à tecnologia do vídeo que se popularizou e tornou sua mensagem necessária. Hoje, além de ter seus projetos próprios, trabalha na TV educativa da Universidade de Al Quds, nas vizinhanças de Ramallah. Suher fez também um filme 16mm, “Nana”, com outras três diretoras, da França, Inglaterra e Israel. Cada uma fez um episódio apresentando suas avós. A relação de Suher com a avó sempre foi muito difícil, principalmente devido à carreira que seguiu: onde já se viu, uma mulher com uma câmara na mão filmando os mais diferentes conflitos, em meio a tantos homens, soldados, brigas …

“O que eu gosto mesmo é registrar o que acontece de mais perto possível. Gravar o rosto de um mártir que está sendo enterrado .. . gravar suas mãos cruzadas no caixão … a multidão levando-o à cova. Muitas vezes fui insultada como insensível e acusada de falta de respeito”, diz. Por isso Suher se surpreendeu quando a avó aceitou participar de “Nana”. “Até então, eu via minha avó como uma mulher completamente diferente e distante de mim. Depois, analisando sua vida, pensando na minha, vi que temos trajetórias parecidas. Nós duas nascemos sob ocupação estrangeira. Ela perdeu seu pai quando criança por motivos políticos. Eu nem conheci o meu. Ela teve de ser uma mulher forte em meio à briga de homens. Eu brigo no meio dos homens … É como ciclos que se repetem”.

Durante a Intifada, segundo Suher, muitos homens palestinos exigiam que as mulheres jornalistas que faziam a cobertura do conflito nos territórios cobrissem suas cabeças para trabalhar. “As estrangeiras cobriam seus cabelos mais do que depressa. Não tinham nada a perder e queriam só fazer o seu trabalho. Eu discutia e batia o pé. Não iria cobrir meus cabelos, porque além de fazer meu trabalho, tenho um comprometimento com essa terra. Tenho de ajudar a construir isso aqui, passar adiante o que eu acredito”.