Clandestinos na nova Nova York

A sofisticada economia americana precisa da milhares de imigrantes clandestinos para executar as tarefas mais modestas e mal pagas. Nossa repórter Tânia Caliari foi a Nova York para acompanhar a vida desses trabalhadores, agora atormentada pelos fantasmas do 11 de setembro e pelas leis de guerra do George W. Bush

Tânia Caliari

1. Os mexicanos e seu momento de coragem

“Vou até minha casa juntar os papéis, ou vou agora ao restaurante tentar pegar a carta com o patrão? … Que horas são? Se eu for até minha casa, eu pego o metrô aqui … Mas não vai dar tempo de voltar a Manhattan até às 5 horas. Eu liguei para o restaurante e o patrão não está lá agora. Eu queria pegar meu comprovante de trabalho com ele, ter todos os papéis na mão antes de ir à associação … Queria fazer isso ainda hoje!” Hele_na está confusa e seu suor começa a molhar a camiseta de lurex prateada. Ainda faz calor no rpeio do outono em Nova York. A jovem mexicana está parada em frente a uma igreja, a Judson Memorial Church, na Washington Square, a praça onde se agrupam os vários-prédios da Universidade de Nova York, na parte sudeste da ilha de Manhattan. Ela acabara de sair de uma grande reunião no salão da igreja, com pelo menos 200 trabalhadores imigrantes ilegais que perderam seus empregos devido ao ataque terrorista de 11 de setembro contra o World Trade Center. A reunião foi organizada pela associação Tepeyac, entidade mexicana de ajuda aos indocumentados. A associação leva o nome do local, no México, onde a Virgem de Guadalupe apareceu diante de um simples jardineiro.

Apesar de sua participação ativa na reunião, dando seu testemunho, fazendo perguntas aos representantes das organizações humanitárias, Helena não recebeu o cheque que a Tepeyac distribuiu aos trabalhadores. O valor da ajuda varia entre US$ 100 a US$ 150, dinheiro arrecadado por meio de doações. Para provar que trabalhava na região do Distrito Financeiro, o bairro mais ao sul de Manhattan, e que foi despedida após o colapso das torres gêmeas do WTC, Helena tem que juntar qualquer papel que comprove o trabalho e os ganhos que estava conseguindo com sua vida clandestina em Nova York. Vale tudo: comprovantes de pagamento, carta da família agradecendo o dinheiro enviado e, sobretudo, uma carta do patrão confirmando seu posto de caixa em um restaurante coreano, onde ganhava US$ 8 por hora. “Demorei muito para conseguir esse trabalho. Foi o melhor que consegui em 8 anos aqui. Já fui empregada doméstica ecostureira em fábricas, mas era muito ruim”, diz Helena que, em sua cidade natal, Puebla, havia estudado para trabalhar no serviço social. “Fiquei só 4 meses nesse restaurante. Eles me despediram para empregar uma conterrânea deles. Os coreanos se ajudam muito aqui em Nova York, são muito unidos. Já os mexicanos …”.

Imigrantes latinos ilegais discutem seus direitos pós 11 de setembro. (fotos:Tânia Caliari)

Pelo menos naqueles dias de outubro, seis semanas após o ataque, os mexicanos pareciam unidos e mobilizados por seus direitos. Muitos trabalhadores clandestinos tiveram medo de buscar ajuda no Pier 94, o cais às margens do rio Hudson, transformado em quartel-general de socorro às vítimas do atentado, apesar da promessa das instituições de não passar nenhuma informação recolhida ali para o Serviço de Imigração e Naturalização (INS). Para atender os ilegais temerosos da migra, como os hispânicos chamam o Serviço de Imigração, a Cruz Vermelha montou então um posto de atendimento na sede da Tepeyac, na rua 14.

O tamanho da ajuda que os afetados pelo ataque receberam dependeu da renda, do tempo de serviço, do tamanho da família de cada um. Joel Pedrosa, imigrante ilegal da Cidade do México, nos Estados Unidos há 1 ano e 8 meses, trabalhava no restaurante Cheuy’s Fresch Mex, no Battery Park, que fica no extremo sul da ilha. Ganhava US$ 9 por hora, pagamento razoável para a média dos ilegais. O restaurante fechou e Pedrosa foi atrás de suas compensações. Conseguiu US$ 722 da Safety Horizon, US$ 250 da Cruz Vermelha para ajudar no aluguel, US$ 50 para comprar comida, e agora esperava na fila para receber os US$ 150 da Tepeyac. Não se deixou fotografar com o cheque. “Nós não queremos receber dinheiro de graça. O que queremos é nossos postos de trabalho!”, disse. Ele parecia alheio à chegada de uma recessão mais profunda na economia americana que certamente afetará muito mais o mercado de trabalho. Muitos imigrantes presentes na reunião engrossaram o coro de Joel: não querem caridade, querem trabalho.

Ali no salão aparentemente não havia gente com medo de novos atentados terroristas ou do risco de contaminação por antraz, o agente biológico que era manchete dos jornais naquele dia. Seus problemas ali eram outros, mais urgentes. Naquele momento, os trabalhadores e trabalhadoras também não pareciam ter medo de expor sua condição de ilegal, de clandestino. Talvez se sentissem protegidos em uma igreja, talvez porque fossem muitos, talvez porque acreditassem que a migra não ousaria tocá-los em tempos de tamanha penúria. Muitos deram seu testemunho abertamente no microfone: José Aguilar teve ajuda negada, pois não pode comprovar seu trabalho. Rigoberto teve problemas para sacar o cheque da Cruz Vermelha, pois os bancos exigiam o número do registro social, que logicamente ele não tinha. Rosa disse que a proprietária da casa estava ameaçando tirá-la de lá se não pagasse o aluguel. Já havia tomado dinheiro emprestado e não podia mais se endividar. Ela recebeu ajuda psicológica por ter visto os atentados. “Mas do que adianta isso se o problema é a falta de trabalho?”, diz.

A imprensa fala de 100 mil empregos perdidos depois dos ataques, 25 mil deles diretamente ligados ao colapso do World Trade Center e região. Segundo uma análise feita pelo Departamento do Trabalho do Estado de Nova York, amaior parte dos postos de trabalho fechados foram os de baixos salários, ao contrário da tendência do começo do ano de demitir trabalhadores dos setores mais bem pagos, como os das empresas pontocom. Um relatório lançado no dia 5 de novembro pelo Instituto de Política Fiscal em Nova York estima que, até o final desse ano, 80 mil trabalhadores ainda estarão sem emprego por causa dos atentados e que 60% desses postos cortados ofereciam uma renda média de US$ 23 mil por ano, muito abaixo da média salarial da cidade, que é de US$ 58 mil anuais.

Mas os imigrantes clandestinos parecem dispostos a trabalhar duro para pegar alguma parte que possa lhes caber do sonho americano. No salão lotado, esse termo fora de moda, American dream, foi usado pelo representante da Cruz Vermelha, ele também um imigrante mexicano, um daqueles que “chegou lá”, conquistou seu pedaço do sonho e passa pra frente a mensagem. “Não podemos deixar que esse atentado leve nossas ilusões, nosso sonho americano”, disse portando seu casaco de nylon escarlate com o emblema da “Cruz Roja”. Joel Pedrosa, constrangido com seu cheque na mão, ainda parecia acreditar no sonho, mesmo porque não deve ter encontrado nada melhor no México para investir. Trabalhava numa companhia ferroviária mexicana e decidiu cruzar a fronteira ilegalmente quando foi demitido há 2 anos. Seus 2 filhos e sua mulher ainda vivem no México.

2. A grande cicatriz

No lugar do complexo de edifícios do World Trade Center ficou uma ferida aberta chamada de Ground Zero, termo usado pelos americanos para designar uma área atacada. O local, que ficará como um grande cicratiz na nação, tem atraído milhares de turistas. Com os turistas, vieram também os camelôs, em sua maioria negros e orientais, vendendo quinquilharias do tipo God Bless America. Muitos dos que se dedicam à marretagem perderam seus empregos regulares, embora muitas vezes ilegais, nas lojas de Chinatown, região tradicional de imigração oriental e de comércio barato, que fica imediatamente ao norte do Distrito Financeiro.

Camelôs no entorno do Ground Zero (fotos Dafna Shalon)

Em outros bairros próximos, como Tribeca e Soho, lojistas e donos de restaurantes programaram finais de semana de promoções para povoar as ruas novamente. O apelo funcionou e sob o clima ameno do final de outubro clientes disputam mesas nas calçadas. A conversa podia ser animada, a temperatura agradável, a comida boa, mas era impossível esquecer a catástrofe quando se via a fumaça que ainda saía dos escombros do Ground Zero, algumas quadras ao sul, iluminada pelas luzes da cidade. Uma brisa às vezes também trazia um cheiro de queimado, de alcatrão. Os turistas que iam até os limites impostos por gradis tiravam fotos, gravavam imagens, compravam souvenirs. Eles queriam testemunhar algo, sentir-se parte dos acontecimentos, ter uma história para contar.

O melhor relato que ouvi de alguém que testemunhou o atentado foi de um brasileiro. Jamil Prudente está nos Estados Unidos desde 1982. Ele deu um jeito de enganar o Serviço de Imigração e Naturalização, dizendo que havia entrado no país um ano antes e que teria direito à anistia universal concedida pelo governo americano em 1986 aos estrangeiros chegados até o final de 1981. De cara, Jamil tornou-se engraxate, ramo de serviço praticamente dominado pelos brasileiros em Nova York. “Adoro esse serviço. Eu não faço nada! Só dou um lustro nos sapatos”. Por cada par de sapatos que lustra, Jamil ganha US$ 2. Geralmente tem de 4 a 5 clientes por hora. Faz uns US$ 50 por dia. “Meu estilo é spit shine, como o dos marinheiros. Pela falta de água doce nos navios, os marinheiros dão uma cuspida (spit) no sapato e deitam o paninho em cima pra dar o brilho (shine). Eu não cuspo não, uso água mesmo. Só se o freguês for muito especial”, diz. E Jamil gosta de freguês especial. Adora uma celebridade. “Já engraxei o sapato do Rod Stwart, do Barry White e do Mike Tyson!!”.

Jamil, que trabalhava na Torre 2, a torre norte do World Trade Center, conta o atentado assim: “O nome da loja em que eu trabalhava era Minas Shoe Repair, mas não é porque eu sou de Minas Gerais não. É o meu patrão que era grego e dizem que tem essa palavra em grego também. Mas o atentado … Bom, eram umas 8h45 e eu já estava com um freguês na cadeira quando a luz piscou uma vez. A luz nunca tinha piscado ali. Todo mundo olhou em volta. Quando vê, começou a passar gente correndo em frente da loja para sair do prédio. Larguei o cliente na cadeira e corri também. Sai e estavam caindo uns pedaços da torre. Olhei pra cima e vi aquela fumaça no meu prédio e não tinha idéia do que era. Um incêndio. Ninguém sabia o que era. Voltei na loja pra pegar umas coisas minhas, dinheiro, e a porta já estava trancada, o gerente tinha se mandado. Aí o pessoal já estava fugindo mesmo, todo mundo atropelando todo mundo. Sai, olhei pra cima e vi o segundo avião batendo na torre sul. ‘Everybody run!!’ –corre todo mundo!!–, foi aquela gritaria. Aí começou a cair pedaços de ferro retorcido, bolas de fogo de gasolina. Tinham umas línguas de fogo que saíam lá de cima que pareciam ter uns 100 metros. E o pessoal correndo. Um desespero. Um gordo caiu, tropeçou num engradado de caixa de leite, todo mundo passava por cima dele. Eu corri também, corri muito. Quando parei, olhei para trás, vi as pessoas se jogando do prédio. Vi uns 15 pulando. Quando o prédio sul começou a cair, aí não deu para ver mais nada. A poeira veio e cobriu tudo, não dava pra ver nada”. No trem que nos levava a New Jersey, do outro do rio Hudson, onde mora Jamil, o brasileiro ia falando, fazendo gestos, onomatopéias, atraindo a atenção de todos que, mesmo não entendendo português, poderiam imaginar o que contava.

Jamil Prudente (dir.) em seu novo posto de engraxate depois de ter sobrevivido ao atentado. (foto: Dafna Shalon)

Antes mesmo de ser um projeto arquitetônico e um complexo de edifícios, o World Trade Center surgiu como um conceito ainda nos anos 40: um centro de negócios que atrairia empresas do mundo todo e que manteria Nova , York com o fluxo de bens e capitais que já tivera nos tempos áureos de seu porto, nos anos 1 O e 20. Depois da 2ª Guerra Mundial, autoridades e homens de negócios começaram a desenvolver grandes planos de revitalização de partes de Manhattan, como o sul da ilha (Lower Manhattan), que desde o final do século 19 abriga o Distrito Financeiro e sua cultura de arranha-céus e valorização imobiliária. Em 1956, o banqueiro David Rockefeller, do Chase Bank, investiu os fundos de seu banco e parte da fortuna da família na construção do One Chase Plaza, edifício de 60 andares em aço e vidro, a primeira torre de escritórios construída depois de muitos anos sem as históricas ousadias arquitetônicas que marcaram o distrito. Para seu investimento ser rentável, era preciso que toda a região fosse revitalizada, assim, David Rockefeller organizou a Associação da Baixa Manhattan – Downtown-Lower Manhattan Association (DLMA), cujos membros eram da elite financeira da cidade: Henry Alexander (Morgan Guaranty), S. Sloan Colt (Banker’s Trust), Fred Ecker (Metropolitan Life), G. Keith Funston (NYSE), J. Victor Herd (Continental Insurance), Robert Lehman (Lehman Brothers), e Henry S. Morgan (Morgan Stanley).

Durante vários anos, esses senhores fizeram o papel de lobistas para a construção do WTC e, prevendo que o ambicioso projeto não seria financiado por capital privado, cativaram o prefeito, o governador e o diretor da Port Authority, entidade governamental fundada em 1921. No final dos anos 60, a Port Authority investiu e tornou- se proprietária do complexo do WTC e ainda hoje possui portos, pontes, túneis, terminais e estradas em Nova York e Nova Jersey.

É claro que os planos de revitalização de Manhattan implicavam na retirada de casas simples e cortiços que abrigavam gente pobre, muitos imigrantes e descendentes de trabalhadores das fábricas que também iam desapareciam da região. A ilha havia sido uma área altamente industrial e na década de 20 eram mais de 400 mil operários nas fábricas ao sul da rua 59.

Em um desses projetos de revitalização urbana no final dos anos 50, a construção do Lincoln Center na parte oeste, ao lado do Central Park, obrigou a remoção dos pequenos apartamentos e cortiços de uma área chamada San Juan Hill. A referência a San Juan, capital de Porto Rico, é devido ao grande número de imigrantes que viviam ali. Os porto-riquenhos tiveram que ir para o norte de Manhattan, no Harlem. San Juan Hill teve seu momento de glória um pouco antes de ser removido. Em 1960, suas ruas e terrenos baldios foram set de filmagem do musical West Side Story (Amor Sublime Amor), que conta justamente a vida dos porto-riquenhos em Nova York, suas gangues, e o amor impossível entre Maria, porto-riquenha, e Tony, americano.

No musical, divididos entre a saudade de Porto Rico e o sonho americano, os presonagens debatem suas expectativas numa das mais populares canções: America. Na letra de Stephen Sondheim, um dos refrães apresenta o que os Estados Unidos podiam oferecer:

Automobile in America,
Chromium steel in America,
Wire-spoke wheel in America,
Very big deal in Americ
a!

Automóvel na América
Aço cromado na América
Rodar na América
Grandes lances na América
!

A música de 1957 revela o deslumbramento do imigrante com o consumo, a tecnologia e produtos do setor industrial, naquela época ainda o motor chefe da economia, fonte de maravilhas mercadorias e empregos. Mas os negócios dos donos do sul de Manhattan eram de outra natureza: o que se compra, o que se vende, o que se negocia não são os bens de consumo ou de produção, mas o capital financeiro. Esse setor tem o poder de movimentar US$ 1,5 trilhão diários em apenas um tipo de transação, o overnight. O Distrito Financeiro de Nova York é a sede mundial dessa economia feita de registros digitais de créditos e débitos.

As ruas desordenadas do Distrito, muitas estreitas, sufocadas pelos grandes prédios, não são numeradas como na maioria da ilha e têm nomes de pessoas e coisas: Nassau Street, Water Street, Church Street, Wall Street. Foi ali que J.P. Morgan inaugurou em 1913 o prédio de seu banco, com modestos 4 andares. É ali que funciona a Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) desde o final do século 18. Ali estão também uma série de arranha-céus que desafiaram a engenharia de sua época para abrigar milhares de escritórios de comércio, finanças e serviços.

As torres do World Trade Center foram concluídas em 1972 e 1973 a partir do traçado do arquiteto Minoro Yamasaki, que materializou nesse espaço o espírito dos negócios transnacionais. O WTC, juntamente com as palavras gravadas na fachada da Moody’s Investors Service, um prédio não muito alto dos anos 20, na Church Street, representava a síntese daquele território.

Credit

Man’s Confidence in Man
Commercial credit is the creation of modem times and
belongs
in it’s highest perfection only to the most enlightened and
best-govemed nations.
Credit is the vital air of the system of modem commerce.
lt has done more, a thousand time more, to enrich nations
than ali the mines of the world.

Crédito

Confiança do homem no homem
O crédito comercial é a criação dos tempos modernos e
pertencem
em sua mais alta perfeição apenas às nações mais
iluminadas e
melhor governadas.
O crédito é o ar vital para o sistema de comércio moderno.
O crédito fez mais, mil vezes mais, no enriquecimentos de
nações
do que todas as minas do mundo.

O crédito pode ser o motor da engrenagem financeira. Mas essa engrenagem não é um moto-contínuo e tem de ser movida por uma pirâmide de trabalhadores. No topo, estão os agentes de conhecimentos especializados, que elaboram e aplicam os códigos das finanças, que controlam o fluxo do dinheiro e dos investimentos. Na base, estão os trabalhadores dos pequenos serviços, os que servem, limpam, preparam as flores e os jantares para o andar de cima e, depois, voltam para a casa pelos subterrâneos.

3. Os subterraneos do centro do Império

Mapa do metrô de Nova York com os principais pontos da reportagem. (arte: Pedro Ivo Sartori)

Acompanhei a mexicana Helena pensando que pegaria a linha F do metrô para ir até sua casa no Brooklyn, do outro lado do East River. Na estação West 4, ali perto da Washington Square, onde acabara de participar da a reunião com os outros trabalhadores ilegais, Helena resolveu afinal pegar a linha A e ir a uma agência de empregos mais ao norte de Manhattan, entre as ruas 35 e 36, na 8ª avenida.

Seria mais uma viagem de metrô. Nas idas e vindas nos subterrâneos da cidade é que temos uma visão concentrada do que é a diversidade em Nova York. Há pessoas de aspectos marcadamente diferentes. Muitos têm traços ameríndios, gente da América Central, do México. Rapazes, velhas, crianças de colo com suas jovens mães. Outras pessoas têm a cor escura dos indianos: homens de cabelos lisos muito pretos, bigodes ralos. Também podem ser do Paquistão, ou de Bangladesh. Há meninas com os cabelos cobertos pelo véu da religião islâmica. Há gente branca, muito rosada, de olho azul. Gente oriental, com os cabelos negros pintados de vermelho. Há gente com cara de lugar nenhum que poderia ser brasileiro. Gente negra, americanos com certeza.

Diversidade no metrô de Nova York (foto: Dafna Shalom)

A cidade começou na ilha de Manhattan, cercada pelas águas dos rios Hudson, a oeste, e do East Ri ver, a leste. No início era um porto, com gente passando, negociando. O interesse pelos negócios, comércio e dinheiro foi historicamente um dos fatores de construção da tolerância entre os imigrantes de toda parte do mundo. Mas a cidade vai além de Manhattan e se espraia ainda pelo continente e outras ilhas. Ao norte fica o bairro do Bronx, ao leste, o Queens e o Brooklyn, e ao sul, a ilha de State lsland. No dia a dia no metrô, vê-se gente lendo material tão variado quanto as cores das peles das pessoas que tomam as linhas E ou 7, que ligam Manhattan ao Queens.

Haverá sempre alguém portando um The New York Times, mas é mais comum que se veja os tabloides Daily News e New York Post. Não hão de faltar os jornais hispânicos Noticias dei Mundo, Hoy ou El Diario. Há os jornais em russo, 15 editados em Nova York, como me mostrou o rapaz da banca de revistas de Coney lsland, no Brooklyn, reduto da população russa imigrada depois da Perestroika. Quando se chega a Coney lsland pelas linhas B ou Q, pode-se ver de dentro do metrô de superfície os blocos de altos edifícios de tijolo marrom, separados por pequenos plaugrounds. São os projetos habitacionais, prédios de moradia popular. Boris, ex-fotógrafo em Moscou e motorista em Nova York, conta que foram os russos com suas famílias que recuperaram a área, antes propícia ao crime. Estávamos no largo deck de madeira que corre ao longo da praia. Muitos velhos russos faziam cooper sob um vento gelado que contrastava com o clima ameno desses dias de outubro.

De volta às viagens de metrô, um rapaz informou que a Bíblia que lia era em chinês. Reconheci um brasileiro porque lia o ensinamentos espíritas de Allan Kardec em português. A moça respondeu com cara fechada que seu jornal estava escrito em coreano. As latinas lêem temas sobrenaturais, como El poder de las Piramides ou Lo significado de los sonos. Liam também Gabriel Garcia Marques : Del Amor e otros Demonios. Até os americanos maduros estão lendo Harry Porter. Um jovem com aparência despojada seguiu viagem grudado nas últimas páginas de The Brothers Karamasov.

(foto: Dafna Shalon)

A guatemalteca que saltou na estação Queens Plaza disse que pagava suas contas trabalhando em dois subempregos, não via seus filhos há dois anos, mas que não podia falar mal dos Estados Unidos, de onde tirava seu ganha pão. Perguntei a um americano se ele estava autorizado a levar seu cachorrinho na coleira para dentro do metrô e ele disse que não via problema. De outro americano, essé típico, louro de bochechas rosadas, quis saber para onde estava levando seu gato dentro de uma gaiola.

A população que pega as linhas 4, 5,ou 6, em Manhattan, no sentido norte, é majoritariamente negra, mas com enorme porção latina. Essas linhas passam pelo Harlem, no extremo norte de Manhattan, e chegam ao Bronx, já no continente. O Bronx é o bairro historicamente negligenciado pelas administrações e que foi apresentado como reduto de pobreza e marginalidade nas páginas de A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolf, de 1987. O Harlem, o bairro de maioria negra, também tem seu estigma de pobreza e segregação racial, mas na última década vem passando por uma valorização imobiliária e o conseqüente “branqueamento” da região, com a chegada de cadeias de lojas da moda, como as roupas da Gap, ou o salão de café da rede Steinbuck, frequenta do por jovens profissionais ocupados com suas leituras, relatórios e laptops.

Caminhando pelas ruas do Bronx, ouve-se música latina vinda das mercearias. Em uma delas, na larga rua 138, o dono do local e seu jovem freguês assistem a um programa humorístico na TV mexicana. Fazem um zapping pelos canais para me mostrar que toda a programação naquele pequeno aparelho é mexicana. É um país dentro de outro país!

O trabalho feito pelo Movimento do Graal, entidade ligada à igreja católica, demonstra, porém, que a população latina do bairro não é exclusivamente mexicana. Naquela noite, um pequeno encontro reunia um grupo de hondurenhos em torno de um militante pela reforma agrária em seu país. Sharon Joslyn, coordenadora do movimento no bairro, diz que seu trabalho com os imigrantes não é assistencial, mas sim de formação de consciência nas comunidades, sobretudo através das mulheres. Não é um trabalho fácil. Segundo Sharon, que morou no Brasil de 1962 a 1964 trabalhando com movimentos sociais, existe muita rivalidade entre os diferentes grupos latinos. “Os equatorianos reclamam dos mexicanos, que colocam a culpa nos porto-riquenhos, que dizem que foram os primeiros a chegar … “, resume em bom português carregado de sotaque.

“Há tempos tentamos nos mobilizar para protestar contra quatro geradoras de energia movidas a diesel aqui no bairro. Elas pertencem à Port Authority, essa-entidade que administrava o World Trade Center, e são muito poluidoras e temos um problema sério de asma no bairro. A gente faz discussões tentando relacionar a falta de respeito do governo com a comunidade e os atentados terroristas. Os governantes não vão investir em energia limpa enquanto tiverem interesse no petróleo, e essa guerra de agora é sobre o petróleo. Além do mais, Bush precisa dessa guerra. Ele não sabe o que fazer com a saúde e com a educação. A guerra é um bom campo de ação para ele”, diz Joslyn.

O que se vê nos metrôs e nas ruas de Nova York vai além do que os levantamentos do censo populacional da cidade dá conta. Os números dão ideia da diversidade étnica, mas quantos imigrantes ilegais não foram localizados? De quais países vêm a maioria dos hispânicos? E os asiáticos? Os imigrantes do leste europeu ou da Rússia estão agrupados com os “brancos”? Estima-se que a população de clandestinos nos Estados Unidos seja de 6 milhões a 12 milhões. Pelos números podemos saber que os hispânicos em todo o país já são o maior grupo das minorias, tendo desbancado os negros já há alguns anos. Segundo um relatório do Lewis Mumford Center for Comparative Urban and Regional Research da Universidade de Albany, apenas a população de mexicanos em todo os Estados Unidos aumentou 70% na última década. Juntamente com os cubanos e porto-riquenhos, os mexicanos formam o grupo de imigrantes hispânicos tradicionais.

Na categoria new latinos, as populações de dominicanos e salvadorenhos dobrou na década de 90, chegando a 1,1 milhões de pessoas cada comunidade. Esses são seguidos pelos colombianos (750 mil), guatemaltecos (600 mil), equatorianos, peruanos e hondurenhos (todos com quase 500 mil pessoas). Apenas em Nova York, especula-se que a população de brasileiros está entre de 80 mil e 150 mil.

A população de asiáticos também cresceu 69% nos últimos 10 anos no país, passando de 7,2 milhões para 12,3 milhões. Os chineses são quase 1/4 dessa população, seguidos de perto pelos filipinos, com 20%. A imigração de indianos foi a que mais cresceu entre os asiáticos e eles já eram 1,9 milhões no ano 2000. Em Nova York, os chineses também prevalecem entre os asiáticos, sendo 4,15% da população total da cidade, seguidos pelos indianos, 2,45%. A população imigrada de países com maioria muçulmana cresceu 50% desde 1990. No Estado de Nova York, eles eram 150 mil em 1990 (0,8%) e 332 mil em 2000 (1,8%). Três países são a origem de 40% dessa população: Líbano, Irã e Paquistão.

Se olharmos Nova York como uma lady acostumada a receber em seus portos gente do mundo todo, uns belos e uns rotos, podemos pensar que mesmo ela, velha dura e experiente, deve ter se assustado com o aumento da imigração na última década e desconfiado que as coisas não vão muito bem em outras partes do mundo.

4. Os novos bárbaros

Irmão Joel Magallán, jesuíta mexicano convidado pela arquidiocese de Nova York para diagnosticar “do que precisam os imigrantes hispânicos”, discorda dos números do censo 2000 que indicam que há 35 milhões de hispânicos nos EUA. Segundo as estimativas feitas por instituições mexicanas, 35 milhões são apenas os imigrantes do México, dos quais 4 milhões são ilegais. “No Estado de.Nova York, nossa estimativa é que sejam 500 mil. Nós fizemos essa projeção com os mexicanos com os quais trabalhamos, que sabemos onde estão, em quais bairros . O censo não pode contá-los. O censo diz que há 270 mil mexicanos no Estado”. Joel acredita que 95% dos mexicanos em Nova York são ilegais, pois é uma imigração recente, dos anos 90.

Para ele, o tratado de livre comércio entre o México, os EUA e o Canadá (Nafta) fez aumentar o fluxo da imigração clandestina nos anos 90, assim como outros processos da globalização econômica estimularam o deslocamento de populações no mundo todo, com os mais pobres indo em busca dos grandes centros. Segundo Magallán, a origem do problema está no campo pois, com o Nafta, os EUA podem vender seus produtos agrícolas no México por preços mais baratos, o que esvazia a produção rural e os povoados do interior. “Os pueblos nos campos estão vazios. Apenas 40% de sua população estão lá. De cada 10 pessoas, 6 tiveram que sair. Estão lá os velhos e as crianças pequenas, que não podem cruzar a fronteira”.

Magallán vê a fronteira entre os EUA e o México apenas como um departamento de seleção de pessoal. “Apenas cruzam a fronteira os fortes, os jovens, os saudáveis, os psicologicamente mais fortes também. Os doentes não cruzam, os gordos não cruzam, os velhos não cruzam. Um darwinismo de fronteira. É uma seleção para que esse país possa ter os melhores trabalhadores por baixos salários e sem nenhum benefício. Os Estados Unidos não pagam a escola desses jovens, nem a saúde. Até os 12, 13 anos, os Estados Unidos não gastam nada com eles, só vão aproveitar os que já estão formados. O trabalho aqui vai gastar essa gente, e quando já não servirem mais, eles vão voltar para o México, então os Estados Unidos já não vão gastar também na velhice desses trabalhadores”, diz.

O arquiteto Omar Saracho foi para Nova York desenvolver um programa de moradia para os imigrantes junto à associação Tepeyac e, depois de 11 de setembro, viu-se envolvido no socorro a seus patrícios afetados pelo ataque. Numa reunião, Omar procurou explicar em poucas palavras como a economia americana se mantém. “Antes da recessão, a economia americana tinha que crescer 5% ao ano para manter o ritmo da década de 90, que foi muito forte. Para isso, os EUA impuseram regras neoliberais aos países periféricos, como as privatizações. Isso facilita os negócios das companhias americanas e multinacionais por lá e a entrada de seus produtos, além de garantir o acesso à mão-de-obra barata nos nossos países. No plano interno, a política de imigração garante a todo empregador pelo menos um ano de mão-de-obra barata, através dos ilegais, que ficam felizes por encontrar trabalho, e por isso nunca faltam, trabalham 12 horas, não reclamam, e não recebem nenhum direito trabalhista”. That is it! Simples assim.

A jovem eslovena Daniele chegou aos EUA com uma amiga em 1995, com um visto de turista e um diploma de chef de culinária na mala. “Quando cheguei não sabia falar inglês. Havia estudado e aprendido apenas ucraniano, russo e alemão na escola, além das duas línguas do meu país, que era a Tchecoslováquia antes do colapso do regime socialista”, conta. Apesar da educação que recebera, o jeito foi encarar uma fábrica de balas no Brooklyn de propriedade de russos que pagavam US$ 200 por semana. “Eu embalava as balas, você não imagina como minhas mãos ficavam com caimbras!”, disse tentando repetir os movimentos das mãos. Para arrumar outro trabalho, teve que pagar US$ 250 para uma agência de empregos. Conseguiu um de garçonete. Aproveitando-se da entrevista, Daniele desabafou à repórter as humilhações e explorações que sofreu até chegar ali onde estava, servindo cerveja aos clientes do “seu” private club, uma espécie de bar aberto apenas para sócios. O status de bar comum, aberto a todos, custaria mais caro do que os US$ 10 mil que Daniele precisou para arrendar o local. Ela conseguiu o dinheiro com um antigo patrão e os papéis já estavam prontos para legalizar sua situação no país.

A slovena Daniele, que quer ficar nos EUA (foto: Dafna Shalon)

O egípcio Ali Said, ele mesmo dono de seu próprio restaurante no Queens, havia me levado para falar com Daniele porque ela queria voltar para seu país depois dos atentados. Naquela noite, parecia que a moça tinha mudado de ideia. A viagem para a Eslovênia estava marcada, mas seriam férias de 18 dias. Voltaria à sua terra, finalmente, depois de 6 anos de trabalho duro.

Ali tem uns 56 anos e uma sofisticação um tanto afetada. Ele mesmo cozinha em seu pequeno restaurante enquanto conversa animadamente com os fregueses, falando pequenas frases em várias línguas para agradar a clientela. O Kabab Café tem decoração com detalhes egípcios como pequenos mosaicos e objetos. O som é de Frank Sinatra e Billie Holyday e o salão é frequentado por artistas, jornalistas, estudantes americanos ou que fazem parte da imensa fauna de imigrantes e visitantes da cidade. Formado em agronomia em seu país, Ali migrou em 1978, com o apoio e o dinheiro de sua família. Trabalho não seria problema para ele no Egito, mas migrou em busca de… liberdade. “O imigrante não ama os Estados Unidos, ele ama a liberdade”, disse quase num tom de propaganda, mas com sinceridade. “O imigrante aguenta a exploração aqui, a discriminação, e por fim se estabelece, cria seu mundo, porque Nova York tem um tranquilizante que se chama trabalho”. Apesar de ter tomado umas e outras cervejas no club de Daniele, Ali é muçulmano e faz parte de outra geração de imigrantes.

A palestina Emira Habiby, diretora do Arab-American Farnily Support Center, uma entidade de apoio aos árabes com sede no Brooklyn, explica as diferenças entre as levas de imigrantes do Oriente Médio para os Estados Unidos. Há 100 anos, sírios e libaneses, a maioria cristãos, migraram para a América, inclusive para o Brasil, em busca de trabalho. A segunda onda ocorreu depois da 2ª Guerra Mundial, quando muitos profissionais, de bom nível educacional, migraram por motivos políticos: golpes, guerras e repressão em seus países nos anos 50, 60 e 70. Esse pessoal com formação (médicos, engenheiros, estudantes, professores) pode muitas vezes exercer suas profissões e foi bem integrado. A maioria era muçulmana, mas a religião era uma questão da vida privada.

Já nos anos 80 e principalmente nos 90, a imigração passou a ter um caráter mais econômico. Era gente pobre, não instruída, que precisava trabalhar, mandar dinheiro para a família sobreviver. Esses imigrantes eram os menos preparados, muitos de áreas rurais, apegados à religião como código social, que não falavam inglês. A integração seria praticamente impossível. A maioria desses imigrantes em Nova York vive hoje isolada em suas comunidades no Brooklyn e no Queens. Muitos continuam a falar apenas o seu idioma, suficiente para entender vizinhos imigrados de vários países e se virar no comércio local, que mantém o árabe mesmo nas placas. O maior problema do isolamento é com as mulheres, como lembra a feminista Emira. Muitas evitam sair de casa, não sabem se orientar nas ruas e são totalmente dependentes dos maridos. Os salários pagos a eles muitas vezes é ainda menor do que o pago aos latinos. Conseguem levantar uns US$ 200 por semana trabalhando em uma cozinha ou na construção.

O preconceito contra árabes e muçulmanos culminou depois dos atentados de 11 de setembro e Emira conta que o centro recebeu cerca de 60 telefonemas relatando incidentes contra a comunidade árabe. Foi estabelecida uma relação com o FBI para que pudessem localizar vários homens desaparecidos, detidos pela polícia. Houve também telefonemas de ameaças contra o centro.

Depois dos atentados, não é à toa que Said, egípcio imigrado há 21 anos, fala com ironia que veio para os EUA em busca de liberdade e democracia. “Na verdade, 95% das pessoas vêm para esse país em busca de dinheiro”, disse, falando o oposto de seu amigo Ali, que exaltara a liberdade como uma virtude inerente ao país alguns dias antes. Said é o proprietário do Egyptian Café que montou com US$ 90 mil juntados entre suas economias e de empréstimos de amigos. Ele reproduziu na rua Steinway, no Queens, um típico local do Oriente Médio frequentado por homens para tomar café, chá, fumar narguilé e jogar dominó ou cartas. Não é servida nenhuma bebida alcoólica. Sua clientela é 80% árabe, os outros 20% são imigrantes de outras partes do mundo e mesmo americanos. Nas primeiras semanas após os atentados, o movimento caiu 40%. Seus clientes tinham medo de sair na rua. Agora estavam ali, de volta, sentados ao redor de pequenas mesas. Eram dos Emirados Árabes, Arábia Saudita, Egito, Marrocos, Qatar, Kwait…todos ali conversando ao som do alaúde de Salim, que cantava em inglês uma canção anedota que falava sobre uma moça que havia levado todo o seu dinheiro.

Salim com seu alaúde, imigrante da velha geração. (fotos: Dafna Shalon)

A música de Salim competia com a enorme tela de TV ligada no canal hit do momento: AI Jazeera, a TV do Catar, a única a fazer a cobertura na terra dos talibãs. Naquele dia a situação no Afeganistão começava a mudar, os talibãs perdiam terreno na guerra deflagrada por Bush. As imagens mostravam represálias de soldados da Aliança do Norte contra soldados talibãs capturados. Os EUA avançavam.

Num encontro com brasileiros, o baiano Jorge Lima diz que a primeira ideia dos imigrantes é fazer dinheiro rapidinho e voltar para seu país. Era isso que pensava quando chegou em Nova York em 1984. O negócio era garantir dinheiro para pagar a faculdade no Brasil. Havia feito curso técnico de química no 2º grau em Salvador e trabalhou um tempo no pólo petroquímico. Tinha 23 anos quando imigrou e sua irmã já morava ali. Não falava nada de inglês. Quando foi procurar emprego no Sob’s, respeitada casa noturna de música brasileira em Manhattan, da qual hoje é gerente, o chef de cozinha perguntou: “Você sabe fazer frango à passarinho?”. Jorge picou 30 frangos em 1 hora. O pessoal ficou impressionado. Depois que se estabeleceu e conseguiu se legalizar, Jorge passou a ser um ponto de referência para os brasileiros que chegam à cidade: conselhos, pedidos de emprego, dicas de moradia, orientações gerais, tudo é com ele. “Olha, foram uns 500 que ajudei por aqui”.

Jorge acha que em quase 20 anos o perfil do imigrante brasileiro mudou muito. “O pessoal que vinha antes tinha mais gás, vinha para trabalhar, fazia o que tinha pra fazer. Hoje a turma tem mais facilidade para voltar. Vem muita garotada de classe média”. Jorge se casou com brasileira, e seu filho nascido em Nova York, hoje com 15 anos, vai ser sempre visto como filho de imigrante. “Americano é americano, imigrante é imigrante”.

Mário Carvalho é um desses garotos da classe média carioca que migrou em 1999, mas não pensa em voltar tão logo ao Brasil, mesmo depois de ter perdido seu emprego em um restaurante no Pier 17, nas margens do East River, onde ganhava US$ 10 por hora para recepcionar os clientes da casa. O restaurante empregava umas 60 pessoas, 25 ilegais. Depois do atentado, Mário rodou a cidade durante um mês à procura de trabalho. Não achou nada. Só nessa hora pensou em voltar para o Brasil. Nem o fato de passar todos os dias pela estação de metrô do WTC e ter escapado da confusão por causa da folga que havia tirado no dia 11 de setembro fez ele pensar em sair de Nova York.

Quando me contava a história toda já estava mais animado, tinha arrumado um novo emprego no simpático restaurante Malagueta, também de brasileiros que deitaram raízes em Astória, parte do Queens. Na verdade, Astória é a pátria dos brasileiros em Nova York. Mário tem planos. Estuda inglês e pensa em fazer curso de massagista terapêutico para continuar o trabalho que fazia no Brasil. “Mas para isso, aí precisa de grana mesmo”, diz.

5. It´s all about money

Na região da 8ª avenida, na altura das ruas 35 e 36, há comércio para todo tipo de gosto e bolso. É ali que fica a loja de departamento Macy’s, um ícone da cidade, que toma dois quarteirões em frente ao Madson Square Garden. Há também um grande comércio barato na área, com muitos imigrantes indianos, paquistaneses ou latinos parados à porta das lojas esperando por fregueses. Nessas lojas, uma jaqueta de material sintético consistente, corte feminino, prateada ou vermelha, saía por US$ 9,90! O preço indicava alguma fabriqueta longe dali, provavelmente no sul asiático, onde os baixos salários pagos aos trabalhadores compensavam a pechincha no mercado americano.

Camelô vende souvenir das Torres Gêmeas (foto: Dafna Shalon)

Helena, que eu acompanhava desde a reunião na Judson Memorial Church, não olhava as vitrinas. Ainda um tanto confusa, caminhava para agência de empregos. Não levava o endereço, confiava na memória e por isso se enganou algumas vezes até entrar num grande edifício moderno. O elevador no hall de mármore nos levou ao andar da agência, onde Helena foi saudada pelas três recepcionistas como velha conhecida. Mas àquela hora, três da tarde, não encontraria nenhum trabalho, mesmo porque, como informou a gerente, uma greco-americana, tudo estava parado naqueles dias ainda por efeito do atentado. Não faltavam, no entanto, candidatos. A maioria dos rapazes e moças sentados nos bancos, uns quinze, tinham feições de índios das Américas Central e do Sul. A agência era especializada em empregos de caixa para as mulheres e de ajudante de cozinha para os homens.

As recepcionistas informam que os salários oferecidos haviam despencado nas últimas semanas. Os restaurantes, que pagavam US$ 8 por hora, agora não estavam oferecendo mais do que US$ 6,50. Helena saiu prometendo voltar no outro dia de manhã, e tinha a expressão mais preocupada do que quando entrara. Ela saiu também falando mal da agência e da falsidade de todos. “A cada vez que nos arrumam um trabalho, temos que pagar US$ 100 para a agência. Muitas vezes vamos até o trabalho que eles encontraram e a vaga já foi preenchida ou o salário não é o combinado. Voltamos, pedimos o dinheiro de volta e eles alegam que já estão procurando outro posto. Uma vez, tive que esperar 2 meses sem ver meu dinheiro e nem o emprego. Mas essa não é a única agência, depois tento em outra”, disse.

Enquanto esperávamos o elevador, podemos ver por uma porta entreaberta uma fabriqueta de roupas de malha. Helena não se animou a pedir emprego lá. “Já trabalhei nisso, primeiro para uns russos, depois para uns chineses. Ganhava US$ 5 por hora, menos do que o salário mínimo americano, que é de US$ 5,50. Trabalhava 12 horas por dia, exploravam muito. Meu sonho é trabalhar para patrão americano. São mais justos”.

Helena não foi a única que falou dos americanos como bons patrões. Outros imigrantes também acusaram asiáticos e russos de serem mais exploradores. Muitas vezes os estrangeiros têm cargos de gerentes em empresas americanas justamente para lidarem com os imigrantes ilegais. O grupo trotskista The Intemationalist realiza em Nova York um trabalho para desenvolver o diálogo entre trabalhadores hispânicos e funcionários asiáticos mais graduados, para tentar uma aproximação e evitar situações encenadas no filme Faça a coisa certa , do diretor Spike Lee que conduz a trama num dia de calor insuportável no Brooklyn e que vai culminar num grande conflito multirracial, no qual brigam todos contra todos: negros americanos, ítalo-americanos, porto-riquenhos e coreanos.

As condições de emprego para os próprios americanos não foram das melhores na década de 90, de extraordinária expansão econômica do país. Muito desse crescimento se apoiou nos empregos de baixa qualidade e baixos salários. Vinte milhões de pessoas (16% dos 125 milhões de trabalhadores) têm trabalhos de tempo parcial ou temporário. Quase todos esses postos não dão direito ao seguro desemprego, concedido atualmente a menos de 40% da força de trabalho desempregada.

Já para os trabalhadores ilegais, a situação piora ainda mais quanto o racista e o explorador se encontram no mesmo patrão. Um industrial americano, filho de italianos, disse: “esse país está perdido. Temos que fechar essas fronteiras, parar de dar visto para esses estudantes. Fica até difícil para um europeu arrumar esse tipo de visto, pois eles são dados para asiáticos! E africanos!”. O argumento óbvio contra sua postura à mesa de um restaurante fino em Long lsland foi: “Mas você também é filho de imigrantes, não devia … “. O empresário corta o raciocínio e responde: “Ora, italianos e americanos têm a mesma cultura, não há conflito de civilização! E eles imigraram quando a América necessitava deles.”

O conflito de civilização que trava todos os dias em sua pequena fábrica de remédios em Nova Jersey é resolvido com baixos salários e muito trabalho para as 15 funcionárias indianas, muitas ilegais. Mesmo os empregadores assumidamente racistas sabem do valor dos imigrantes. “Ora, emprego essas mulheres porque são boas para esses serviços simples, de embalar remédios. Além do mais, pago a elas US$ 7 por hora, que é mais do que o salário mínimo. Se eu fosse pagar um americano, ele cobraria pelo menos US$ 12 por hora e largaria o serviço na primeira semana, porque é muito chato. Esses indianos sim têm estímulo para o trabalho, precisam do dinheiro”. Seu sócio também é indiano, o químico do negócio. O ítalo-americano cuida do dinheiro. “Meu sócio é ótimo, é como se fosse um clone meu. Não fisicamente, porque ele é indiano. Mas pensa como eu. É ele que lida com as trabalhadoras. Eles se entendem, é ótimo”.

O governo do presidente George Bush e um Congresso submisso têm liderado ações repressoras pós-atentados contra os imigrantes ilegais, a maioria de origem árabe. Mas parte da sociedade também tem dado sua contribuição. A City University of New York estuda cobrar dos estudantes imigrantes ilegais o dobro da taxa anual de estudo, que pode chegar a mais de US$ 7 mil por ano. Ainda na área de educação, o governo pediu e conseguiu que mais de 200 universidades passassem informações sobre os estudantes estrangeiros para o FBI. O Serviço de Imigração e Naturalização está planejando a criação de um banco de dados sobre esses estudantes.

A situação dos imigrantes detidos como suspeitos após os atentados é tal que até o The New York Times publicou um editorial no dia 9 de outubro denunciando que o país estava se tomando uma terra de “desaparecidos”, termo caro nas repúblicas de banana durante seus governos de ditadura militar. O artigo alerta que o atorney general (procurador geral, cargo que equivale no Brasil ao de ministro da Justiça), John Ashcroft, estava sendo descuidado com a Constituição quanto ao tratamento dado aos mais de mil imigrantes detidos pela polícia. Além de o governo ter sido autorizado pela Legislação antiterrorismo, aprovada em outubro por 98 votos a favor e 1 contra no Senado, a deter pessoas por até 7 dias sem justificativas ou acusações formais, uma nova regra estabeleceria que as conversas e cartas entre os presos e seus advogados seriam monitoradas pelas autoridades. O governo também se desobrigava a dar qualquer informação sobre o nome e o paradeiro dos detidos. Um decreto presidencial de George W. Bush parece ter sido a gota d’ água para a caracterização de um regime de exceção no país da democracia. Os acusados de terrorismo ou de colaboração com o terror serão julgados em tribunais militares, sem júri popular e sem cobertura da imprensa.

6. A decidida viúva Luz Maria

Há ainda uma grande controvérsia sobre o número de mortos no ataque ao WTC. No final de outubro a Prefeitura de Nova York falava em 4.764 vítimas, enquanto o The New York Times anunciava 2.950. A CNN lançou uma lista quantificando os mortos de cada país. Seguqdo a lista, 17 mexicanos morreram no ataque. O consulado fala em 25, a grande maioria trabalhadores ilegais. Um deles era Juan Ortega.

O que se pode contar sobre a vida de Juan Ortega foi narrado por sua viúva, Luz Maria Mendonza. Juan Ortega vivia na Dahill Road, rua com casas geminadas, em uma região do Brooklyn onde moram muitos judeus ortodoxos empobrecidos. Hoje no Brooklyn, como em toda Nova York, os sobrados como os da Dahill Road estão divididas em três diferentes moradias: uma por andar e outra no porão. Muitas casas do quarteirão parecem abandonadas, mal cuidadas, jornais e panfletos acumulados nas portas. A entrada de uma das residência de porão se destaca das demais. A cor azul cobalto da parede contrasta violentamente com o tom branco-cinza de todas as casas ao redor. O endereço confere: ali vivia Juan Ortega.
Luz Maria Mendonza se preparava para o primeiro compromisso do dia: uma entrevista à revista REPORTAGEM.

Luz Maria na porta da casa de seu marido, Juan Ortega, imigrante ilegal morto no 11 de setembro (foto: Tânia Caliari)

Desde que chegara do México, no dia 22 de setembro, Luz Maria vinha se desdobrando em encontros, entrevistas e burocracia em busca da compensação prometida pela morte de seu marido. Juan Ortega trabalhava no restaurante Fine & Schapiro, no prédio 5 do complexo do WTC, mas poderia estar em qualquer andar das torres no momento dos ataques. Juan fazia as entregas do restaurante nos escritórios.

Luz Maria conta a história de seu marido olhando para um espelho enorme na parede. Falava como para si mesma. Seu marido dividia com o amigo Miguel a casa cuidadosamente decorada, com toalhas rendadas, bibelôs em profusão, flores de plástico. Enquanto Luz Maria falava, sua irmã Alicia, também vinda às pressas do México, preparava o café da manhã para os filhos de Juan Ortega e Luz Maria: Juan Carlos, de 13 anos; Edgar Santiago, de 11; e Giovana, com 8 anos. A refeição seria tortilhas com tomate, presunto e queijo.”Los niños están sofriendo mucho com la comida de acá”, disse Luz Maria. Os Ortega tiveram que recorrer aos mercadinhos mexicanos para encontrar comida de seu gosto e para se fazerem entender em seu idioma. “La comida és muy cara acá e a ellos non les gustan”.

Juan Ortega migrou no dia 27 de janeiro do ano 2000. Saíra da cidade de Jonacatepec, de 18 mil habitantes, no Estado de Morelos – foco do movimento zapatista. Aos 31 anos, deixou para trás a mulher, os filhos, a mãe, 5 irmãos e amigos. Luz Maria tem uma família ainda maior: 10 irmãos. Nos 15 anos de casamento, sempre em dificuldades financeiras, Juan alternou seu trabalho entre algum posto na Prefeitura local e a lojinha de roupas que dividia com Luz Maria. Trabalhara no departamento de água, cargo que perdeu com a eleição de um novo prefeito. A ideia de partir para os EUA surgiu com a visita de Miguel, amigo de juventude de Juan, que já se aventurava em Nova York. “Chamamos ele para uma conversa e dissemos: ‘Miguel, precisamos de ajuda. Aqui não dá mais. Os filhos para criar … não queremos que tenham falta de nada”‘, lembra Luz Maria.

Miguel teve que voltar antes para Nova York mas deixou a vinda de Juan acertada com outro amigo, Rubem. “Juan nunca tinha visto esse Rubem. Se encontraram no aeroporto da Cidade do México e voaram para Tijuana. Na fronteira, arrumaram um coiote … Sabe o que é um coiote? É um guia que cobra para passar com você até o outro lado da fronteira”. De lá, caminharam no deserto, compraram documentos falsos já em cidade americana e pegaram um avião para Nova York. A operação saíra por US$ 2.500, ou 25 mil pesos mexicanos, dinheiro que Miguel havia emprestado ao amigo.

Juan Ortega, em foto em frente à Casa Branca que mandou à família no México. (Arquivo pessoal)

Juan não teve dificuldade em arrumar trabalho no mercado super rotativo de mão-de-obra barata nas cozinhas de Nova York. Lavou pratos em uma discoteca, trabalhou em uma padaria, e no Fine & Schapiro fazia as entregas das 7h da manhã às 3h da tarde. Ganhava de US$ 250 a US$ 350 por semana, dependendo das gorjetas. Daí tirava os US$ 500 mensais que mandava para casa. Vivia sob o fio da navalha na maravilhosa Nova York, pagando US$ 300 em sua parte do aluguel e se virando com os outros US$ 200, US$ 300 que sobravam. Os US$ 500 enviados a Luz Maria, que continuava tocando a lojinha, eram dinheiro: equivaliam a cerca de 5.000 pesos, num país em que o salário mínimo é de 1.100 pesos.

“Não importava o quanto teríamos que gastar com a escola dos meninos, mas faríamos de tudo para que eles estudassem. O mais velho já estava estudando inglês”, conta. “Juan tenia muchas ilusiones … queria tener la casa própria”, disse Luz Maria, olhando fixo para o espelho. A partir daí, a história e os planos de Juan Ortega se aproximam dos mais caros sonhos de qualquer trabalhador brasileiro, mexicano, colombiano, ou de qualquer parte, que ainda acredita que a educação dos filhos os vai redimir da penúria. Juan Ortega, seu amigo Miguel, Helena, Fidêncio, Laerte, Rigoberto, César, Marcelo, Rosa, Guadalupe e outras centenas de milhares de imigrantes vieram buscar sua parte do sonho de uma vida melhor em Nova York.

Juan Ortega foi o único funcionário do Fine e Schapiro a morrer no atentado. Ele havia telefonado a Luz Maria na noite anterior, dizendo que estava gripado. Ela deu conselhos de mulher: um caldo de galinha, uma blusa quente. No outro dia, Miguel o aconselhou a não ir trabalhar, mas Juan não quis arriscar o emprego. Logo depois, Luz Maria veria pela TV as cenas do atentado à primeira torre e, como boa parte do planeta, viu ao vivo o segundo avião se chocando com a segunda torre. Ela não entendia a geografia de Manhattan, mas sabia que seu marido trabalhava naqueles prédios. Só conseguiu falar com Miguel três horas depois. O amigo garantiu que Juan havia telefonado dizendo que estava bem, mentindo para acalmá-la. Miguel esperou pela volta do amigo até às 8 da noite, quando foi à polícia, com fotografias. Foi aos hospitais, aos abrigos. Fez parte da multidão confusa e desconsolada. No outro dia saiu colando fotos de Juan pela cidade, voltou aos hospitais.

Luz Maria tentava ir a Nova York. Pediu ajuda ao governo de Morelos, que agilizou seu passaporte. Teve o visto de entrada nos EUA negado até que Miguel foi ao Pier 94 e pediu ajuda às autoridades para conseguir o documento. A Cruz Vermelha pagou as passagens e Luz Maria trouxe os filhos . A partir de então, a jovem viúva foi atrás dos direitos que teria. Foi assistida pela associação Tepeyac nas questões legais e com o idioma. Enviou cartas ao presidente Bush e ao governador George Pataki e se encontrou com o presidente de seu país, Vicente Fox, no consulado mexicano. Luz Maria votou no ultraliberal Fox nas últimas eleições para derrotar o Partido Revolucionário Institucional,PRI, há 70 anos no poder. Fox disse que a ajudaria com um emprego público ou com dinheiro para sua loja. Ela vai preferir o dinheiro e pedir bolsas de estudo para os filhos. Do fundo para as vítimas do ataque ao WTC, a família de Juan Ortega recebeu cerca de US$ 40 mil. Do governo americano, Luz Maria quer a cidadania para seus filhos.

“Tener la residencia significaria para mis hijos abrir la puerta de oportunidades que tanto hemos aspirado”, diz a carta enviada ao presidente Bush e ao governador Pataki, reafirmando nas entrelinhas a convicção de Juan Ortega: a única saída para os mexicanos é a fronteira com os Estados Unidos.