OS FIOS DE UMA TRAGÉDIA

O brutal assassinato da inglesa Cara Marie Burke pelo brasileiro Mohammed D’Ali, ambos jovens e pobres, envolve desajustes familiares, pequenos delitos, uso de drogas e o sonho de mudar de vida morando no exterior

Mohammed D’Ali Carvalho dos Santos, 20 anos, não usa cocaína, crack, maconha, skank, LSD, quetamina ou outro entorpecente qualquer desde 31 de julho, quando foi preso. Isolado num pavilhão da Casa de Prisão Provisória de Goiânia, vive os sintomas da abstinência. Sente tonturas e dores. Seu corpo treme. Sua muito. Não pode dormir e seus males são parcialmente aplacados por meio dos medicamentos ministrados pelo médico da instituição. Parcialmente… Ele aguarda aflito a visita da mãe, que, até meados de agosto, mesmo tendo voltado de Londres, onde vivia, não o havia visitado, temendo o assédio da imprensa. Preferiu permanecer em São Paulo.

Mohammed confessou à polícia que, na tarde de 26 de julho, um sábado, depois de cheirar cocaína e fumar crack por quatro dias seguidos, matou Cara Marie Burke, jovem inglesa de 17 anos, em seu apartamento. Depois do crime, disse Mohammed em depoimento, ele arrastou o corpo para o box do banheiro. Mais tarde, ao tomar banho, foi obrigado a reajeitar o cadáver. Depois, foi a uma festa, onde passou a noite consumindo mais cocaína. No dia seguinte, esquartejou o corpo de Cara. Colocou o tronco dentro de uma mala preta de viagem, que jogou na margem de um rio em Goiânia. Cabeça, braços e pernas foram embalados em vários sacos de lixo, jogados num ribeirão em um município 30 quilômetros a noroeste da capital goiana. Antes, com seu celular, Mohammed fotografou o corpo ainda inteiro. Fotografou também um arranjo feito com as partes do cadáver depois de tê-lo esquartejado.

Na sede da seção goiana da Associaão Brasileira da Polícia Militar, o cabo reformado Josué de Araújo Júnior, presidente da instituição, conta que, ao ver na TV o noticiário da prisão e confissão de Mohammed apenas cinco dias depois do crime, um amigo policial lhe puxou pela memória: “Lembra do cabo Santos? Ele tinha um filho chamado Mohammed D’Ali e outro, Bruce Lee, lembra? Ele gostava muito de artes marciais e de lutadores e deu esses nomes para os meninos. Será que esse menino é o filho do Santos?”. Dias depois, os jornais locais recuperaram de seus arquivos a história da morte violenta do cabo da Polícia Militar Lázaro José dos Santos, pai de Mohammed, ocorrida em 24 de outubro de 1990, dia do aniversário da cidade.

Na ocasião, Santos, 26 anos, e seu cunhado, o pintor Valtercídio Ferreira da Silva, aproveitavam o feriado para pescar nos arredores de Goiânia. Foram numa moto. Três dias depois, seus corpos foram encontrados numa fazenda no município de Trindade, com as cabeças cobertas com sacos plásticos. Segundo as reportagens da época, eles foram mortos com tiros, pauladas e enforcamento. Santos também apresentava sinais de tortura: teve suas orelhas, nariz e órgãos genitais decepados, olhos perfurados, pernas quebradas e dedos cortados. No chão, marcas de pneus e sinais de que os corpos tinham sido arrastados por algum veículo. Na ocasião, o coronel Jaime Carlos Flores e Silva, então comandante do Regimento de Polícia Montada, no qual Santos era lotado, disse que o cabo era um policial exemplar e que a morte teria sido uma represália por parte de alguém que ele tivesse abordado durante o trabalho.

Para uns, o cabo Santos se enquadra no modelo descrito pelo coronel. Para outros, ouvidos nesta reportagem, era um policial violento, que supliciava suspeitos antes de entregá-los à delegacia. Na ficha oficial do cabo na PM, há pelo menos uma prisão disciplinar de oito dias por ter agido com violência desnecessária durante uma detenção. A crueldade empregada em seu assassinato parece indicar uma forma de vingança. Teria sido em decorrência de uma rotineira forma violenta de agir quando em serviço? É uma hipótese que Retrato do Brasil não pode comprovar.

O QUE FOI FEITO DELES?

O que é claro, pelo testemunho de Araújo, é que a morte de Santos abalou familiares e colegas. “Eu me lembro de dois meninos bem pequenos no meio de todo mundo, chorando e pedindo: ‘levanta, papai, levanta…’. Aí, todo mundo que estava lá caiu no choro também. Um de nossos companheiros teve uma crise e, logo depois, deu baixa na PM”, conta o cabo.

Ele conduz a reportagem até um barracão nos fundos de uma chácara. Ali, onde a família de Santos morava de favor, ocorreu o velório. “Na época, isso aqui era um setor de chácaras, e os bairros em torno, onde fazíamos a radiopatrulha, eram bem violentos. Hoje, mesmo com a droga por toda parte, isso aqui melhorou muito, não tem tanto cara de periferia”, diz Araújo, que chegou a dividir a viatura da radiopatrulha com Santos. Para Araújo, o assassinato signi ficou o distanciamento da família do colega. “Depois daquele velório, nunca mais ouvi falar dos meninos nem da esposa do cabo. O que foi feito deles?”

Ivany Carvalho dos Santos, a viúva do cabo Santos, não teve uma vida fácil desde o assassinato do marido. Aliás, nunca teve. Não são muitas as informações obtidas por RB a respeito dela. Tanto em razão de ela não ter parentes próximos em Goiânia quanto pela aversão que seus conhecidos têm ao assédio da imprensa após a morte de Cara. Apuramos que ela cedo se casou, teve filhos e assumiu o sustento da família.

A mãe de Bruce Lee e Mohammed D’Ali, hoje com cerca de 40 anos, teria sido criada fora de seu círculo familiar por uma mulher que a maltratava. Com 14 anos, teria ido morar com Santos. Aos 18, com o companheiro recém-admitido na Polícia Militar, casaram-se. Seu primeiro filho nasceu no mesmo ano. Bonita, cabelos negros que chegavam à cintura, ficou viúva aos 22.

Como a pensão da PM demorou a sair, Ivany foi trabalhar no turno da noite de uma fábrica de condimentos. Deixava os filhos pequenos trancados em casa. “Quem garante que os meninos não acordavam à noite procurando a mãe”, indaga Jane, que tinha 14 anos à época da morte de Santos e cuja família passou a ser um apoio para a viúva e os meninos.

Em 2000, Ivany tomou a decisão de trabalhar no exterior. Se lhe faltava formação profissional, sobrava coragem para emigrar e levar os filhos, então com 12 e 14 anos de idade. Seguiu para o estado da Geórgia, nos EUA. Lá, enfrentou a clandestinidade e o trabalho duro em serviços gerais, limpeza e afins.

Milhares de jovens trabalhadores de Goiânia, geralmente sem qualificação, como a mãe de Mohammed, deparam-se com esse tipo de dificuldade e, tal como ela, buscam no estrangeiro uma perspectiva melhor para suas vidas. Hoje há entre 250 mil e 300 mil goianos trabalhando no exterior, compondo a maior comunidade de brasileiros fora do País.

Se antes o destino da maioria eram os EUA, depois dos atentados do 11 de Setembro e de o México passar a exigir visto de entrada para os brasileiros, a opção passou a ser a Europa. “Eles vão para melhorar a vida e pelo exemplo que têm de parentes que conseguiram alguma coisa”, explica, com pesado sotaque, Elie Chediac, brasileiro de origem libanesa criado na França, assessor de Assuntos Internacionais do estado de Goiás, responsável pela assistência consular aos emigrantes do estado.

“SEMPRE FOI MIUDINHO”

Chediac destaca a importância de ter parentes no exterior. “Os imigrantes chegam já com uma rede de apoio”. Algo de grande importância, pois “a maioria enfrenta uma vida de subemprego e de alto risco, pois não têm direitos trabalhistas nem civis”, diz. A idade dos goianos que se aventuram nessas jornadas varia de 22 a 45 anos. “Eles são os responsáveis por aproximadamente 15% dos 8 bilhões de dólares enviados ao País pelos imigrantes brasileiros no ano passado”, avalia o funcionário.

Num fim de tarde, no modesto bar no jardim Novo Mundo, onde são vendidos espetinhos de carne como tira-gosto e frango assado aos domingo, Jane e sua mãe, dona Isabel, tentam pontuar a trajetória de Ivany e sua família. Falam sobre a infância e a personalidade de Mohammed. “Ia lá em casa desde menino, e se eu não desse o prato de comida na mão dele, ele não comia. Sempre foi miudinho, quieto…”, diz dona Isabel. Ela parece sofrer por não poder fazer o tempo voltar para cuidar do menino tímido, pois criou, além de seus próprios filhos, alguns parentes, netos e enteados.

Para Bruce e Mohammed, a temporada americana acabou em 2003. Bruce terminou o segundo grau nos EUA e entrou numa faculdade quando voltou para Goiânia, cursando administração de empresas. Ivany permaneceu nos EUA e continuou enviando dinheiro para manter o padrão de vida da família e financiar os estudos dos filhos, o que ela via como um trampolim para ascensão social. Contratou uma irmã de Jane para cuidar da casa, onde eles passaram a morar.

A essa altura, entretanto, os adolescentes já não se deixavam controlar. Mohammed estabeleceu seu universo na própria Vila Moraes. Amigos, festas e drogas faziam parte de seu mundo. Quando o dinheiro acabava e não havia como comprar drogas, ele cheirava gás de cozinha, muitas vezes diante dos olhos incrédulos de Jane. “Ele cortava a mangueirinha e cheirava. Às vezes, um botijão que dura um mês durava três dias só”.

Nessa fase, foram registradas, pelo menos, duas passagens de Mohammed, ainda menor de idade, pela polícia. Em uma delas, acompanhado de Bruce Lee, atirou três vezes contra outro rapaz, sem acertá-lo, por causa de um incidente de trânsito. Da outra vez, permaneceu preso por seis meses no Centro de Internação Provisória e no Centro de Internação de Adolescentes (CIA) de Goiânia. Foi condenado por roubo e desmanche de carro, além de porte ilegal de arma.

Em 2005, Mohammed obteve o benefício da liberdade assistida. No fim do ano, Ivany, que voltara dos EUA especialmente para amparar o filho, conseguiu uma autorização judicial e embarcou com os rapazes para Londres. Apoiada por amigos goianos que moravam na Inglaterra, ela iniciou outra etapa em sua vida.

Jane participou dessa fase até recentemente. Em Londres, ela dividiu a casa com Ivany, seus filhos e mais um brasileiro, de janeiro a junho deste ano. Eles viviam no bairro de Seven Sisters, numa região de grande diversidade étnica, que reúne comunidades de sul-americanos, caribenhos, africanos e turcos. A despeito de informações contraditórias, algumas desabonadoras, com relação às atividades da família em Londres e à fama de arruaceiros de Mohammed e Bruce, Jane atesta a boa convivência entre os irmãos e o empenho de Ivany para levantar dinheiro, fazendo faxinas, cuidando de idosos, e de Bruce, chefe de uma agência de courrier, motoqueiros que entregam encomendas entre cidades.

“A Ivany é muito simples. Veste roupa comprada em camelô, come qualquer coisa, mas para os seus filhos dá sempre do melhor, como roupa de marca, sapato de shopping… Pagou escola boa aqui. Parece que, com isso, quer compensar as dificuldades da infância dos meninos, e mesmo da dela. Não deixava o Diali trabalhar. Quando eu disse a ela que os repórteres aqui questionaram se a mesada de 2 mil reais não era muito para um rapaz que não trabalhava nem estudava, ela simplesmente me disse: ‘Eu posso dar isso para ele. Ele não precisa trabalhar’. Parece que ela não entende…”

Quando Mohammed retornou ao Brasil em abril passado, encontrou, ao chegar, um apartamento pronto para morar no setor Leste Universitário, bairro de classe média consolidada criado em torno de universidades e faculdades. Ivany tinha enviado dinheiro para uma conhecida, que alugou o imóvel e comprou a mobília.

Além de mesada, a mãe enviava dinheiro para cobrir despesas do dia-a-dia e para pagar uma empregada doméstica. Ivany deu a Mohammed dinheiro para comprar à vista um carro equipado até com aparelho de DVD, que acabou em perda total num acidente.

“IMAGINE 4 DIAS DE COCAÍNA”

No retorno à capital goiana, Mohammed voltou a usar drogas em companhia dos amigos que deixara quando se mudou para Londres. Em seu depoimento oficial no inquérito, assinado com letra miúda e infantil, Mohammed afirma que usava todo tipo de drogas: “skank, LSD, cocaína, MGA, ácido, quetamina, balão…”. O advogado do rapaz, Carlos Trajano, pretende pedir exames de dependência química e de saúde mental de Mohammed. Segundo Trajano e familiares, ele sempre soube do assassinato do pai e é revoltado pelo fato de o crime não ter sido solucionado. Mas só conheceu os detalhes cruéis por meio de um repórter de uma emissora de TV goiana, quando já estava preso pelo assassinato de Cara.

“A morte do pai pode ter sido uma tragédia na vida da criança, mas alegar isso para justificar esse outro crime bárbaro, não!”, diz o delegado titular da Delegacia de Homicídios de Goiânia, Jorge Moreira, 26 anos de polícia. “É subestimar a dor de toda pessoa que sofreu traumas até maiores, e nem por isso sai matando por aí”. Moreira chega à delegacia usando camiseta com estampa de camuflagem e calça jeans, traje apropriado para o calor de Goiânia no fim do inverno, mas nada usual entre delegados, geralmente engravatados. “É que eu estava no mato, numa diligência. Fomos prender um peão que matou outro por uma dívida, e que estava cheio de cachaça”. “Se a cachaça deixa o sujeito valente, imagine quatro dias usando cocaína e crack… A droga também não justifica o crime de Mohammed, mas deu energia para a ação”, diz Moreira, responsável pelo inquérito sobre o assassinato de Cara, quase concluído.

Mohammed foi indiciado no dia 8 de agosto por homicídio triplamente qualificado – de forma torpe, sem chance de defesa e com vilipêndio –, o que o torna um crime hediondo. “Ele foi frio, cruel e até produziu provas contra si”, diz o delegado, jogando sobre a mesa a impressionante foto da menina esquartejada encontrada no celular de Mohammed.

O delegado, para quem os jovens de hoje são “moderninhos demais”, acha que a vítima, Cara, também não era “santa”. “O que uma menina de 17 anos, inglesa, que nem falava português direito, estava fazendo aqui em Goiânia, sem sua família?”

Cara estava pela segunda vez em Goiânia em menos de quatro meses. Chegou, pela primeira vez, em 9 de abril, com Mohammed. Voltou no início de maio para Londres. E retornou a Goiânia no dia 22 do mesmo mês. É isso que mostram os carimbos em seu passaporte britânico, elegantemente decorado com silhuetas de aves em papel policromado. O passaporte, no entanto, não pode responder a respeito de quem financiou as vindas e idas de Cara, um dos muitos fatos sobre os quais há várias versões.

Alguns dizem que ela voltou à Inglaterra porque sua mãe, Anne Marie, estava hospitalizada. Esta disse que desconfia que a filha tenha sido usada para fazer tráfico de drogas nessa viagem. Há, no entanto, certo consenso de que as primeiras passagens, de vinda e de volta, foram pagas por Ivany. Os jovens se conheciam desde 2005, unidos pelas amizades brasileiras em Londres, o gosto pelo futebol e por uma vida solta de juventude. Não se sabe ao certo quem pagou a segunda vinda de Cara. Mohammed diz que teria sido um novo namorado.

Todas essas dúvidas, entretanto, não encobrem diversas semelhanças entre as vidas dos dois jovens. Assim como Mohammed, Cara já estivera presa numa instituição punitiva para menores em Londres. Ela também perdeu o pai quando era criança e, igualmente, de forma trágica: ele morreu jovem, aos 32 anos, vítima de overdose de drogas. Anne Marie, como Ivany, também fez serviços de limpeza para criar ela e outros dois irmãos mais velhos.

Sem pouso certo desde que saíra da casa da mãe em Southfields, um distrito suburbano no sudoeste da grande Londres, Cara, em 2004, foi expulsa da escola por roubar um colega. Nessa época, por ter importunado seus vizinhos, foi enquadrada como Asbo (anti-social behavoir order), classificação dada a pessoas de comportamento considerado anti-social. Por fim, passou seis meses internada num instituto de menores infratores por ter violado a punição que recebeu da Asbo e participado de um roubo. Foi solta, mas teve de portar uma pulseira eletrônica, que permitia à polícia vigiar seus movimentos, e esteve proibida de entrar nas lojas de seu bairro.

“ERA DOIDINHA”

Ao contar as desventuras da filha ao jornal sensacionalista inglês Mirror, Anne Marie disse que, até os 12 anos, a esperança e o alvo da dedicação de Cara era o clube de futebol Chelsea. Quando sua vida em Londres se complicou devido às condenações, surgiu uma nova coincidência nas histórias de vítima e algoz, que buscaram na migração uma saída para resolver seus problemas e desajustes. Mal teve a pulseira eletrônica retirada, Cara embarcou para o Brasil com o amigo Mohammed.

Embora a família de Mohammed negue, haveria, inclusive, planos para um casamento que garantisse a livre circulação dos dois nos dois países. Cara ganharia algum dinheiro por esse suposto trato, sobre o qual, inclusive, faz referência numa mensagem que enviou a Mohammed na noite anterior à sua morte.

O plano de um casamento por conveniência contribuiu para que muita gente acreditasse que eles eram namorados, como foi amplamente divulgado na imprensa brasileira. Mas, pelo que relatam amigos de Cara em Goiânia, parece que eles eram apenas amigos. Em seu depoimento, Mohammed confirma essa versão. Afirma que, logo que se conheceram, eles tiveram relações sexuais apenas duas vezes. Depois, restou a amizade.

No início de sua estada no Brasil, Cara viveu no apartamento de Mohammed e, aparentemente, era sustentada por ele. “Ela comia o que eu comia”, disse o rapaz no depoimento. Quando retornou a Goiânia, no entanto, Cara procurou se afastar do cotidiano de drogas do amigo. A busca por informações sobre esse ponto do caso levou a reportagem novamente ao jardim Novo Mundo. Foi ali que Cara fez, em poucas semanas, amizade com gente simples, fora da esfera de influência de Mohammed.

“GENTE BOA DEMAIS”

No fim de maio, ela procurou dona Elizete, mãe de Wendel, um ex-namorado brasileiro que ainda vive em Londres. Sentada no fundo de sua lojinha de produtos evangélicos na avenida Nova York, Elizete, 48 anos, interrompe seu crochê disposta a falar de sua convivência com Cara, que a chamava de “mãe”. “Era doidinha. Se vestia como um rapazinho. Aparecia aqui de moto, sem capacete, e eu falava pra ela ‘dange, dange’”, diz, rindo das palavras de seu inglês improvisado, com as quais pretendia alertá-la dos perigos.

Antes mesmo de conhecê-la, quando o filho contou sobre a namorada nova em Londres, Elizete levou a foto de Cara para a igreja pentecostal Pedra Viva para que orassem pelo namoro do filho. Mas Wendel, segundo a mãe “um rapaz ajuizado de 30 anos, que não bebe e não fuma”, e que havia migrado com um grupo de quatro primos em 2005 para trabalhar como motoboy, terminou o romance quando soube das amizades de Cara em Goiânia. “Eu a continuei amando”, diz Elizete, “Continuo afirmando que ela não gostava de drogas. As confusões que ela fazia láem Londres eram só para bagunçar. Parece que faltava carinho e atenção a ela, mas não era uma marginal”.

As amizades de Cara no jardim Novo Mundo se concentraram no entorno da praça George Washington, uma árida rotatória com um centro comunitário, em meio a vários quarteirões de construções baixas. Ela sempre parava para conversar no salão de beleza de Cláudia Pereira, que chegou a hospedá-la por alguns dias. A cabeleireira foi quem identificou seu tronco no Instituto Médico Legal, ao reconhecer uma tatuagem.

Outro local freqüentado por Cara no bairro era uma lan house, cuja dona, Cristiane, ela chamava de irmã. “Ela adorava aqui, adorava meu filhinho de 11 meses, só não gostava da comida. Arroz e feijão não eram com ela. Ela pegava qualquer bicicleta que estivesse parada aqui na porta e saía andando. Tive que falar pra ela várias vezes que aqui não era assim não”, diz Cristiane. “Era gente boa demais”. Os que a conheceram viam em Cara uma moça expansiva, mas carente, que parecia buscar uma família nos amigos que havia feito há poucas semanas.

Cara havia decidido retornar novamente à Inglaterra. Sua partida estava marcada para o dia 20 de junho. Um dia antes, entretanto, sofreu um acidente de moto e passou dois dias sob observação na casa de Elizete. Adiou o retorno para 3 de agosto. Telefonou a Mohammed, para que ele a aceitasse de volta no apartamento até o seu embarque. É provável que tentasse se livrar do zelo talvez excessivo de Elizete, que passou a tratá-la como filha e a controlar seus passos. Foi combinar a mudança naquele sábado à tarde em que encontrou o amigo mergulhado na cocaína há dias.

O estopim de seu assassinato foi aceso quando Cara viu o estado de Mohammed. Ameaçou chamar a polícia e avisar sua mãe. Há muito o criticava por gastar o dinheiro enviado por Ivany com drogas. De acordo com o depoimento de Mohammed, diante das ameaças da amiga, ele foi até a cozinha e pegou uma faca para “passar medo nela”. Quando voltou, Cara estava ao celular. Disse que ligava para a polícia. Mohammed diz que só se lembra de caminhar para o seu lado e depois vêla morta no chão, entre o sofá e a TV.

“FOI A MELHOR FORMA”

“Esse seria um crime qualquer, de drogado que mata alguém, se ele não tivesse esquartejado a menina”, avalia Jane. “E não teria todo esse destaque, toda essa cobertura, você não estaria aqui…”, diz, recriminando a atitude sensacionalista da imprensa. Pode ser. Por que Mohammed esquartejou o corpo? Ele mesmo explicou no depoimento, apresentando motivos lógicos e racionais: precisava retirar o cadáver do local e a forma mais discreta de fazer isso foi cortá-lo em pedaços para que pudesse ser transportado sem despertar suspeitas. “O desespero de tirar o corpo de dentro do apartamento me deu coragem. Foi a melhor forma que eu encontrei, pôr dentro da mala”.

Mohammed lamentou que a disposição da mala com o tronco de Cara tenha fracassado. “A mala deveria ter caído dentro do rio”, disse. Para o advogado do assassino, seu cliente não demonstrou crueldade ao cortar Cara, pois ela já estava morta. “O que ele demonstrou foi desprezo pelo cadáver, e não crueldade para ferir alguém”, diz Trajano.

O advogado pode ter razão. Sob um exame mais sereno, é possível concluir que a marca mais escabrosa do crime não foi o esquartejamento, que, no caso, tinha um objetivo racional e certamente exigiu enorme frieza para ser executado. Mas, e as fotos que Mohammed tirou com seu celular e mostrou a conhecidos? E os comentários que fez nas mensagens que trocou com amigos de Londres após o assassinato? Como explicar? “Tirei a foto para mandar para um brasileiro na Inglaterra, que queria matar a Cara por ela ter roubado um dinheiro dele”, disse ele à polícia. “Eu ia mandar para ele por e-mail para mostrar que o que ele não teve coragem de fazer alguém aqui teve”. Uma explicação que passa longe da racionalidade e frieza demonstrada no esquartejamento, pois o expôs de forma desnecessária.

Mohammed também evocou coragem nas mensagens que trocou com um amigo londrino pelo celular. Quando Abm, identificado por Mohammed ao delegado como Abraham, pergunta por que teria matado Cara, ele respondeu em inglês: “porque a garota estava dizendo merda e disse que eu não poderia fazer merda para ninguém, então eu tive que mostrar a ela o que eu posso fazer com alguém”. Em mensagem para outro amigo, em português, disse: “joguei a cara pro sako dpois te mando a foto dos pedaços dela pod crê [sic]”. Parece que, no desespero depois do crime, Mohammed precisava mostrar para amigos nos dois continentes que tinha finalmente realizado algo.

ALGO ALÉM DA DROGA

Ao analisar a tragédia ocorrida com o filho de seu colega em um artigo de jornal, o cabo Araújo, sem querer justificar a atitude de Mohammed D’Ali, chama a atenção para um aspecto importante. “Acredito que se a instituição da Polícia Militar de Goiás, as comissões de direitos humanos da OAB, Câmara Municipal, Assembléia Legislativa ou Câmara Federal tivessem oferecido um acompanhamento psicológico aos filhos do cabo Santos na época de seu assassinato, talvez essa tragédia tivesse sido evitada”. Araújo diz que estão em curso nesse momento outros casos de desamparo psicológico a famílias de policiais. “Será que alguém poderá imaginar que estamos correndo o mesmo risco de esses filhos cometerem algum absurdo como no caso de Mohammed D’Ali?”

Chediac, o funcionário do governo goiano encarregado de acompanhar os emigrantes, aponta para outra questão. “Vejo pelo menos um ponto em comum entre o rapaz que matou e a moça que morreu, que é a desagregação de suas famílias com as mortes de seus pais quando [aqueles] eram muito novos”, diz. “Tamanha ofensa à moça e à sociedade tem que ter explicação além do uso de droga. Talvez seja a falta de referência dessas crianças para entenderem que nem tudo pode ser permitido”.

Chediac, dedicado a casos de brasileiros fora do País, recebeu no início de agosto um missão atípica: cuidar da burocracia e do traslado do cadáver de Cara, que, pela falta de recursos de sua família, será pago por uma irlandesa anônima que doou cerca de 20 mil reais. Chediac aguarda o fim do inquérito e a autorização judicial para enviar para Londres as partes do corpo da jovem inglesa, numa caixa de zinco lacrada.

(Publicado em Retrato do Brasil n. 14 setembro-outubro 2008)

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